Desta forma, apresentam-se vinte e três obras, distribuídas pelas salas da galeria, que oscilam entre a fotografia, a vídeo-instalação e protótipos arquitetónicos, precisamente para demonstrar estas dinâmicas de interligação. Embora de um ponto de vista curatorial se sinta uma procura forçada de uma ligação das obras com questões ecológicas – talvez pela grande heterogeneidade nas práticas e objetos em exposição, traduzida numa harmonia parca na composição da sala – existe, ainda assim, qualidade nas propostas individuais de cada artista, cujos destaques se elencam.
Comecemos pelos contributos fotográficos ou em vídeo. Allan Sekula, artista que explorou as economias marítimas e relações de trabalho migrante com a arquitetura e indústria, apresenta aqui algumas obras que interpelam as condições laborais em Ensenada, no México, através, por exemplo, da fotografia de grande formato Ensenada Shipyard Welder (1996-1997), que captura de forma cândida um soldador a trabalhar nesta doca marítima. Segue-se Pedro Vaz, com o vídeo Laje Branca (2015), que numa espécie de ilusão óptica e justaposição visual, transmite perspetivas opostas sobre uma ilha. Este trabalho enquadra-se dentro das explorações artísticas de Pedro Vaz, nomeadamente em torno da tensão entre natureza e representação. Acrescenta-se também a série de fotografias do grupo Os Espacialistas, em particular O Cortiço (2024) ou Os Espacialistas em Monsanto (2021), fotos que primam pela forma como os corpos se fundem com a paisagem, alinhando-se com uma exploração do humano enquanto contínuo natural.
Depois, numa perspetiva de pendor materialista, temos o contributo de Didier Faustino, que oferece um ponto de vista inovador sobre a relação entre o humano e o mais-que-humano com Canary in a Coal Mine (2026), onde se observa uma gaiola construída pelo artista (que também funciona como capacete), onde se insere um canário embalsamado. Uma figuração original, para explorar o vernáculo mineiro de que um pássaro levado para a mina alertaria sobre eventuais perigos de monóxido de carbono. Por sua vez, Paulo Moreira convoca a questão do perigo numa outra dimensão, ao pensar a recuperação de matéria-prima para a construção de abrigos em Joanesburgo. Safety Shelters (2026) é uma parte de um desses abrigos que permite extrapolar relações de colaboração e cuidado face à instabilidade social vigente. Complementada à distância pelo trabalho de Dan Graham, que consiste numa estrutura de vidro e alumínio, intitulada Model B (2021), obra que analisa a arquitetura suburbana e algumas ideias de vigilância.
Por fim, inseridos numa dinâmica de instalação na sala da galeria, vemos a parceria de Francisco Fonseca e Matilde Cabral (Pedrêz) concretizar-se em dois fascinantes objetos de grande dimensão: Gat Shmanim (2019), um sarcófago com o interior revestido de cera de abelha, e Políptico (2012-2026), um protótipo arquitetónico que combina materiais orgânicos como carvão vegetal, cânhamo, algas, lã de ovelha ou estrume animal. Se o primeiro aborda um sentimento de confinamento e de morte, o segundo conduz a perspetivas futuristas e regenerativas, comunicando as duas peças subtilmente entre a distopia e a ecotopia.
Housing (Non) Humans é uma exposição pertinente para aqueles que pretendam pensar novas possibilidades materiais e arquitetónicas e estabelecer um diálogo mais abrangente com questões relativas à paisagem, à mercadoria, à migração e à globalização. A exposição encontra-se patente até 4 de julho. Entrada livre.