Este ciclo criado e comissariado por Rita Baleia, que também assina a curadoria, procura desafiar a tradicional bidimensionalidade fotográfica para outras vias possíveis, tentando que o objeto fotográfico se comporte enquanto matéria relacional, portal dialógico entre diferentes práticas artísticas, num ciclo que também inclui conversas e procura a multidisciplinaridade de diálogos que oscilem entre a performance, o som, a escultura, o design ou até a gastronomia.
Com isto em mente, Vergado Desejo é uma exposição que parte desta premissa e procura trabalhar a temática do desejo numa ótica hermética e onírica. Num conjunto de fotografias a preto e branco de Vítor Serrano, suspensas numa armação de aço inox, observamos uma série de flores em diferentes estados evolutivos. Ao seu lado, espalhadas pela sala, acompanham-nas as esculturas em cera de abelha de Helena Vieira. Existe uma extensão, ou expansão, da matéria fotográfica e escultórica para o universo vegetal, convocando no espectador interrogações acerca das possíveis relações que o humano pode estabelecer com o mundo mais-que-humano. Como nos indica a folha de sala: “Num único organismo coexistem os elementos necessários à reprodução, embora a fecundação continue a depender do encontro com o outro.” É justamente neste encontro de “outros”, entre escultura e fotografia, que a exposição se articula. O desejo surge, por isso, enquanto instância biológica, ancestral: será a abelha que deseja a flor, ou a flor que deseja a abelha? Haverá resposta para isto? Talvez não…
Entre as texturas da cera das esculturas de Helena Vieira, que remetem a formas vegetais: trepadeiras tímidas, folhagens amareladas, pequenas campânulas em botão… Veios e caules de plantas abstratas erguem-se até ao teto da galeria, à procura da fotossíntese plena de uma conexão com as fotografias que as ladeiam. As flores de Serrano, em impressões de um mate arenoso, fugazes desfoques de pétala e sombra, depositam na textura do papel escurecido alguma esperança no grão, neste pólen de película revelada, uma vontade de ganhar forma escultórica, de ir para além da suspensão, de encontrar a superfície, o corpo, a abelha desejada. O clímax talvez exista numa escultura em particular, na qual se insere uma fotografia de uma nuca encapsulada na cera, representação da contaminação das práticas destes artistas.
Ressalta-se também o desejo de ver mais obras em exposição, pois esta acaba por resultar numa mostra reduzida dadas as especificidades da galeria, que é espacialmente limitada. Em todo o caso, Vergado Desejo cumpre o desígnio de uma visita memorável, daquelas que se caracterizam tanto pela fugacidade quanto pela intensidade, numa delicada lascívia que renova o olhar com propostas inusitadas, o escorregar da mente que nos faz voltar a pensar nas esculturas de Vieira, regressar às fotografias de Serrano, num objet petit a lacaniano sem repouso.
No próximo dia 23 de julho, às 17h30, juntam-se na SPACE ZERO os artistas Vítor Serrano e Helena Vieira, acompanhados pela curadora Rita Baleia, para uma conversa em torno da exposição Vergado Desejo. Será um encontro informal para conhecer melhor os processos, as referências e o diálogo entre os trabalhos que dão forma à segunda edição de Dobra. A exposição encontra-se patente na galeria SPACE ZERO até 29 de julho.