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Traslados, de Marcelo Moscheta
DATA
06 Fev 2026
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AUTOR
Débora Valeixo Rana
“À maneira de Camus, talvez faça sentido dizer que o absurdo reside na tentativa de fixar um sentido, quando esse sentido só pode ser afirmado de forma unilateral. As operações propostas por Moscheta insistem nesse limite: deslocar, comparar, sabendo que a matéria não devolve resposta. O outro lado permanece mudo e é esta mudez que sustenta a insistência. Afinal, toda a pedra é uma pequena montanha.”
Sabemos que os deuses condenaram Sísifo a empurrar sem descanso um rochedo até ao cume de uma montanha, de onde a pedra caía de novo, em consequência do seu peso. Tinham pensado, com alguma razão, que não há castigo mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança. Mas esqueceram-se de que esse universo, sem dono, nunca lhe pareceu estéril nem fútil. Cada grão dessa pedra, cada estilhaço mineral dessa montanha, a própria luta para atingir os píncaros bastava para encher o seu coração. (Camus, 2016)
E assim se perdeu o sentido da palavra castigo.
Não se tratava de redenção nem de progresso, mas apenas da insistência de um gesto que se convertia em medida: não a medida de um resultado, mas a medida de uma relação. Uma relação contínua, ainda que instável, entre corpo e espaço, entre deslocação e ressignificação.
Perguntemo-nos: como medir a amplitude de um corpo no espaço quando a tarefa não conduz a um fim, mas se afirma na repetição? O que se mede quando algo é deslocado? Mede-se o espaço que ficou vazio, a matéria que mudou de lugar, ou a relação que se transformou entre ambos?
A partir de uma prática que faz do espaço e da paisagem o locus do trabalho e do pensamento, são estas interrogações que Marcelo Moscheta retoma na sua mais recente exposição Traslados. Na condição de homo faber, vemo-nos envolvidos numa operação sobre a matéria: arrancar, separar, transportar, reinscrever. Mas este gesto, comum a todos os visitantes, não se encontra subordinado à lógica da construção ou à afirmação de domínio; permanece num regime de atenção e de medida. A pedra, figura central, apresentada sob diferentes prismas, despoja o homo faber da promessa prometeica de mundo: este não constrói, não funda, não estabiliza. Mede, compara, aproxima-se e recua.
A fotografia que inaugura o percurso fixa um momento de repouso: o corpo, deitado no chão, mede-se com a verticalidade da pedra sem a tocar; a relação estabelece-se por distância e por escala. Esse movimento inicial reaparece mais adiante sob a forma de imagem em movimento. Num dos vídeos que integram o conjunto apresentado no piso superior do museu, o sujeito-artista aproxima-se da pedra, toca-a, contorna-a e regressa ao ponto inicial. Note-se que este movimento não surge como um prolongamento da imagem fixa; este reinscreve-a no tempo, repetindo aquilo que nela permanecia iminente. Não há um progresso narrativo, mas antes uma variação de regime. Se a fotografia retém esta coexistência entre corpo e matéria, o vídeo expõe a testagem de sentido: compreender-se no dado, no já existente. Uma abordagem empírica na determinação das dimensões efetivas do corpo a partir da sua relação aproximada com massas deslocadas.
Ainda no piso superior da exposição, esta relação torna-se, a cada passo, mais precisa. Os cavaletes dispostos como estações de observação, cujo negro se impõe como dispositivo de atenção, acompanham esse conjunto de vídeos onde o contacto entre corpo e matéria é mostrado de forma minuciosa. Cada aproximação feita entre os dois elementos, a que se acrescenta um terceiro, parece testar uma hipótese: medir a superfície, reconhecer o peso, compreender a escala. O percurso do terceiro elemento, aquele que observa, ecoa esse mesmo movimento, no qual cada passo introduz uma diferença. O território não muda de estatuto, o corpo não conquista nada; o que muda é a própria relação de medida.
Já no piso inferior da exposição, a pedra, enunciada no singular, mas exposta como parte de uma série, já não se apresenta como unidade a confrontar. Surge como um conjunto deslocado, acumulado, reiterado. O que se impõe agora é o peso, a quantidade, a exaustão da relação. O deslocamento de territórios exposto de forma sequencial: a fotografia da paisagem, atravessada pela linha pontilhada; a imagem isolada da pedra; a pedra em si. Esta sequência, exposta no piso inferior, torna explícito que o traslado não é um movimento linear, mas uma operação que produz descontinuidade ontológica. O território deixa de ser um todo e o objeto deixa de ter um lugar estável.
À maneira de Camus, talvez faça sentido dizer que o absurdo reside na tentativa de fixar um sentido, quando esse sentido só pode ser afirmado de forma unilateral. As operações propostas por Moscheta insistem nesse limite: deslocar, comparar, sabendo que a matéria não devolve resposta. O outro lado permanece mudo e é esta mudez que sustenta a insistência. Afinal, toda a pedra é uma pequena montanha.
Traslados, de Marcelo Moscheta, está patente no Museu Internacional de Escultura Contemporânea, em Santo Tirso, até 29 de março.


Referências bibliográficas:
Camus, A. (2016). O Mito de Sísifo, Ensaio sobre o Absurdo. Porto: Livros do Brasil.

BIOGRAFIA
Débora Valeixo Rana (n. 1990, Lisboa, Portugal) é professora de Filosofia e reside no Porto. Licenciou-se em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (2011) e é mestre em Ensino de Filosofia no Ensino Secundário (2019). O seu percurso académico e profissional reflete um profundo interesse pela interseção entre Arte e Filosofia, um diálogo que a levou, em 2022, a ingressar no mestrado em Estudos Artísticos e Crítica de Arte na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.
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