A exposição abre com o projeto seminal de Alfredo Jaar, The Sound of Silence (2006). Ao entrar no espaço da galeria, o visitante depara-se imediatamente com uma enorme parede de luz branca fluorescente, tão brilhante que se torna difícil olhar diretamente para ela. À medida que a visão se ajusta, a estrutura por detrás da luz torna-se visível, revelando-se como uma caixa preta minimalista revestida a metal. Quando a cruz à entrada da caixa negra fica verde, o visitante pode entrar, onde é convidado a assistir a uma apresentação de diapositivos de oito minutos que narra duas histórias entrelaçadas. Uma é a do fotojornalista Kevin Carter e a outra é a de uma fotografia que retrata uma criança emaciada e um abutre, tirada enquanto Carter documentava a fome no Sudão. A imagem valeu ao fotógrafo um Prémio Pulitzer, em 1994, e tornou-se também alvo de intensa controvérsia pública, que pode ter contribuído para as circunstâncias que levaram ao seu suicídio nesse mesmo ano.
As imagens, sobretudo as fotográficas, são um tema central na prática de Alfredo Jaar, enquanto a sua filiação metodológica reside no campo da semântica. Numa entrevista à revista Apollo, explicou: ‘Respeito enormemente a fotografia, mas preocupa-me mais aquilo a que chamo de política das imagens. Interessa-me desconstruir a fotografia e a forma como ela nos influencia no mundo.” Segundo Jaar, as imagens transportam sempre determinadas conceções do mundo ou, por outras palavras, nunca são “inocentes” e devem, por isso, ser sempre “lidas” em vez de observadas. A sua abordagem à política das imagens parece oferecer ferramentas para tal leitura, pois questiona as infra-estruturas subjacentes a uma imagem e quem pode ser responsável pelo significado que esta gera. Na história por detrás de The Sound of Silence, a fotografia de Carter, a sua publicação no The New York Times e a indignação pública que provocou tornaram-se inseparáveis, com o próprio Carter a ser chamado de abutre por dar prioridade à fotografia em detrimento da ajuda à criança. Jaar, no entanto, aponta para uma rede mais ampla de implicações, lembrando-nos as próprias condições do mundo que tornaram tal imagem possível. Como disse numa conversa publicada pelo The Brooklyn Rail: "... é muito fácil culpar Carter por ser o abutre, quando na verdade nós somos os abutres, o abutre somos nós. Nós somos os culpados por tamanha indiferença criminosa e bárbara." O segundo projeto apresentado na exposição – You Do Not Take a Photograph. You Make It (2013) – expõe mais diretamente aquele que estão por detrás da câmara, que, hoje em dia, pode ser praticamente qualquer pessoa. O título da obra é uma citação do fotógrafo Ansel Adam, que surge em letras garrafais numa grande caixa de luz a preto e branco. Ao comentar o projeto, Jaar afirmou que, com esta obra, pretendia problematizar a superprodução “irresponsável” de imagens e a forma displicente como são tratadas no campo visual saturado das redes sociais. A frase, que enfatiza a mudança de “tirar” para “criar”, indica novamente um conceito-chave para o artista: as imagens não são meras representações, mas trazem ao mundo determinadas ideias, pelas quais os seus criadores são, por isso, responsáveis. A caixa de luz é acompanhada por uma pilha de cartazes com o mesmo texto, que os visitantes são convidados a levar consigo – um gesto que pode ser interpretado tanto como um teste lúdico aos hábitos de consumo, como uma oportunidade para guardar uma memória desta exposição.
O terceiro e último projeto da exposição, One Million Points of Light (2005), mostra uma fotografia da superfície cintilante da água projetada numa parede. À primeira vista, a imagem parece apenas uma bela fotografia, mas um visitante já familiarizado com os métodos de Jaar abordá-la-ia, compreensivelmente, com desconfiança.
Segundo o já falecido curador Okwui Enwezor, o que fundamenta a prática de Alfredo Jaar, tanto a nível material como conceptual, é a noção de iluminação. De facto, muitos dos projetos do artista, incluindo os apresentados na Francisco Fino, empregam diversos dispositivos de iluminação, como mesas de luz, projeções, flashes, caixas de luz e lâmpadas fluorescentes. No entanto, o que é que a prática de Alfredo Jaar procura iluminar através deles? Frequentemente, as suas luzes são ofuscantes. A obra The Sound of Silence (2006) não só recebe o visitante com uma parede de luz, como o surpreende com um flash intenso dirigido aos seus olhos na sequência final da apresentação de diapositivos, imediatamente após a exibição da fotografia de Carter. Enwezor observa que, nesse preciso momento, “a visão é posta em causa”¹, referindo-se tanto a uma reação física como à reflexão sobre a forma como aquilo que vemos afeta o nosso juízo. Como defende, numa época em que a tecnologia possibilita possibilidades quase infinitas na produção, circulação e manipulação de imagens, a ausência pode significar mais do que a presença e, para complementar o argumento de Enwezor, o silêncio pode ser mais eloquente do que o som. É neste contexto de tensão que se inserem os projetos de Alfredo Jaar. A fotografia One Million Points of Light parece ofuscante na sua tranquilidade, à medida que o seu significado se revela através do texto impresso numa versão postal da imagem, no canto da sala. O texto diz: "Esta fotografia foi tirada em Luanda, Angola, apontando a lente da minha câmara através do Oceano Atlântico em direção ao Brasil. Em 1580, Angola, uma colónia portuguesa, começou a enviar escravos africanos para o Brasil. O Império Colonial Português (1415-1999) foi o mais duradouro de todos os impérios coloniais europeus. Pelo menos 11 milhões de africanos foram levados através da Passagem do Meio do Atlântico para colónias na América do Norte, América do Sul e Índias Ocidentais. Estima-se que mais de três milhões e meio de pessoas tenham sido enviadas directamente de Angola para o Brasil. Hoje, estima-se que 55% da população brasileira, aproximadamente 113 milhões de pessoas, seja ainda de ascendência africana directa ou parcial."
Não é surpresa que as obras da exposição na galeria Francisco Fino tenham sido amplamente abordadas e interpretadas, inclusive pelo próprio artista. Assim, enquanto trabalhava neste texto, uma questão persistia: “O que poderei ainda acrescentar?”. O meu impulso foi juntar-me ao curador da exposição, Maurizio Bortolotti, na reflexão sobre o ponto em que hoje nos encontramos, anos depois de Jaar ter concluído estes projetos. Embora Bortolotti, e bem, destaque a sua relevância na era das redes sociais, não posso deixar de estender esta reflexão ao mais recente desenvolvimento tecnológico na produção de imagens – a utilização da Inteligência Artificial (IA). Com a crescente capacidade da IA criar imagens que simulam ou alteram a realidade, a capacidade de compreender a “presunção de não inocência” nas técnicas de representação e leitura de imagens torna-se particularmente significativa.
Muitas conversas sobre o impacto futuro da IA podem parecer paralisantes no seu pessimismo, pelo que talvez seja produtivo terminar este texto com mais uma citação de Alfredo Jaar. Quando questionado pela revista Musée em 2014 sobre o impacto que desejava que as suas obras tivessem, respondeu: “Espero oferecer um pouco de esperança em tempos de desespero. Mas é difícil. Continuo a ser Gramsciano: sou pessimista com o meu intelecto, mas otimista com a minha vontade”. Talvez seja uma responsabilidade humana, então, manter o otimismo mesmo nos momentos mais difíceis e trabalhar para dar forma a esse otimismo. A exposição One Million Points of Light pode ser visitada na Galeria Francisco Fino até dia 26 de setembro de 2026.