Imaginemos uma situação que possa ocorrer na exposição individual de João Penalva, Personagens e Intérpretes, na Culturgest, em Lisboa. Digamos que uma pessoa entra no espaço expositivo sem qualquer conhecimento prévio sobre a prática deste artista, que se estende por 50 anos. O que pensaria o visitante ao percorrer uma sequência de doze salas distintas, repletas de imagens, textos, documentos, objetos misteriosos e sons, a par de uma colagem têxtil em grande escala e de uma exposição de oito livros de artista? Muito provavelmente, ficaria perplexo e talvez um pouco sobrecarregado, mas também generosamente recompensado com o prazer de encontrar o seu próprio caminho ao interagir com as histórias e estratégias de Penalva, sem as restrições de uma explicação prévia. Afinal, parece estar na natureza da prática de João Penalva oferecer pistas cuidadosamente construídas, subtis e, por vezes, desorientadoras sobre os seus projetos, deixando ao mesmo tempo espaço para que o visitante possa tirar as suas próprias conclusões — ou, melhor dizendo, confiar na sua imaginação.
Com curadoria de Bruno Marchand[1], a exposição na Culturgest centra-se no conjunto de obras que João Penalva tem vindo a desenvolver desde meados da década de 1990. Este corpo de trabalho surgiu na sequência da transição da pintura para projetos espaciais que, frequentemente, incorporam uma variedade de materiais e se assemelham a formatos específicos de exibição, tais como a apresentação de um arquivo, uma exposição à moda antiga num átrio, um cinema ou a reconstrução de uma cena de crime. Personagens e Intérpretes apresenta obras marcantes de Penalva deste período, incluindo Widow Simone (Entr’acte, 20 years) (1996), criada para a XXIII Bienal de São Paulo. A exposição na Culturgest decorre a par de outras iniciativas em Lisboa, que assinalam o quinquagésimo aniversário da carreira do artista: um programa dos seus filmes na Cinemateca Portuguesa e a remontagem de The Ormsson Collection, apresentada por João Penalva no Pavilhão Branco, acompanhada por um desafio que atravessa quatro Galerias Municipais de Lisboa, o Atelier-Museu Júlio Pomar e a Culturgest, com um prémio oferecido pelo artista a quem conseguir resolver o quebra-cabeças.
Apesar de não integrar a exposição na Culturgest, The Ormsson Collection parece indissociável do enfoque conceptual de Personagens e Intérpretes. Neste projeto, desenvolvido para o Pavilhão Branco em 1997, João Penalva posicionou-se como curador, em vez de artista. Ao fazê-lo, assumiu a tarefa de dar a conhecer ao público lisboeta uma coleção peculiar de obras de arte e artefactos pertencentes ao falecido colecionador islandês Loftur Ormsson. Só no final da exposição, onde a proveniência das obras estava indicada, é que um visitante atento podia descobrir que Loftur Ormsson era uma figura imaginária e que a «coleção» (que, no entanto, incluía obras de arte reais) tinha provavelmente sido concebida pelo próprio João Penalva. A ambiguidade desta experiência do visitante foi captada pelo curador e crítico de arte Guy Brett, que escreveu: «Para mim, o prazer desta exposição residia no estado de incerteza que ela suscitava. Não era tão crédulo a ponto de não me questionar se Penalva teria inventado Ormsson; nem era tão versado a ponto de não sentir que Ormsson pudesse ser real».[2] No mesmo artigo, Guy Brett descreveu a intenção de Penalva neste projeto como «apontar e, por conseguinte, questionar aquilo a que ele [Penalva] chama “a aura da autoridade museológica na fabricação de uma verdade”».[3]
A prática de João Penalva não se apresenta como uma crítica institucional direta, mas como uma exploração mais ampla da capacidade do arquivo de construir uma determinada versão da realidade ou da «verdade». Este tema mantém-se como um interesse recorrente, a par da utilização das distorções e perturbações dessa realidade como ferramentas artísticas, elementos que estão presentes em todas as obras de Personagens e Intérpretes. Enquanto The Hair of Mr. Ruskin (1997) volta a abordar de forma mais direta a autoridade legitimadora do museu, exibindo, segundo se conta, uma madeixa de cabelo de John Ruskin juntamente com sete falsificações (uma das quais foi posteriormente roubada), outros projetos, como Widow Simone e Wallenda (1997–1998), apresentam os próprios arquivos de Penalva. Estes arquivos, que incluem a correspondência, notas, partituras, fotografias e materiais de investigação de Penalva, foram reunidos durante as suas tentativas de estudar a famosa dança dos tamancos da Viúva Simone, do ballet La Fille mal gardée, de Frederick Ashton, e de criar uma versão assobiada de A Consagração da Primavera, de Stravinsky (em Wallenda).
Por mais diferentes que estes projetos possam ser, ambos narram as jornadas árduas de Penalva, em que os contratempos e as descobertas afortunadas — por vezes fortuitas — se revelam igualmente formativas. Ao criar Widow Simone e Wallenda, o artista submeteu-se a um treino rigoroso, enfrentou a possibilidade de fracasso e chegou a resultados não previstos, mas que surgiram através do próprio processo. Wallenda, por exemplo, deve o seu nome ao famoso equilibrista Karl Wallenda, que morreu após perder o equilíbrio durante uma atuação. No seu projeto, Penalva inclui um fragmento de vídeo da fatídica atuação, que nos mostra Wallenda a balançar na corda bamba, mas não a sua queda. A partir apenas deste fragmento, sem saber o destino final de Wallenda, poderíamos, em vez disso, sonhar que ele simplesmente aprendeu a voar?
A disposição e a natureza dos materiais que constituem as obras de João Penalva, a par da sua apresentação em salas separadas na Culturgest, conferem-lhes o caráter de exposições por direito próprio. João Penalva, no entanto, classifica estes projetos como instalações[4]. Na sua análise da arte da instalação, a historiadora e teórica de arte Claire Bishop defende que o que define uma instalação é o facto de o seu significado emergir através das relações entre os seus elementos, sendo que os componentes individuais permanecem secundários em relação ao todo. A autora considera igualmente importante a posição do espectador, cuja experiência passa da observação à distância para um modo de envolvimento corporal e espacial[5]. Bishop identifica ainda um tipo específico de arte de instalação, a que denomina «cena onírica». Sugere que a experiência de certas instalações, tais como as instalações totais de Ilya Kabakov, se assemelha ao sonho, na medida em que ambas se desenrolam através da perceção sensorial consciente, se desintegram facilmente em fragmentos e são melhor interpretadas através de associações livres enraizadas no domínio afetivo pessoal de cada um, em vez de através de uma lógica externa[6].
Esta ligação entre o sonho e a interação com a arte de instalação oferece uma perspetiva útil para compreender os projetos de João Penalva. Algumas das suas obras, como Light Beam (2007), Petit Verre (2007) e On stage a fig tree (2009), nas quais objetos luminosos misteriosos ou estruturas surreais emergem da escuridão perante o espectador, evocam uma atmosfera distintamente onírica. Outras peças, incluindo Men Asleep (2012) e Pavlina (2007), remetem para o sonho de forma mais direta. Esta última apresenta, através de uma projeção sincronizada de diapositivos e de um filme, um estudo de um sonho sobre uma traça relatado por Pavlina, uma entomologista reformada. Mais fundamentalmente, Bishop defende que o que distingue as instalações de «cenas oníricas» não é simplesmente a sua capacidade de imergir o espectador num ambiente tridimensional, mas, tal como os próprios sonhos, a sua capacidade de se tornarem psicologicamente absorventes.[7] Submerso na experiência, o espectador pode tornar-se o seu protagonista, um explorador envolvido, um ator que assume diferentes papéis, ou que alterna entre todas estas posições tal como se faria num sonho. De facto, foi precisamente assim que experimentei os projetos de João Penalva.
Enquanto escrevia este texto, fiz duas longas visitas à exposição Personagens e Intérpretes. Na noite seguinte à minha segunda visita, sonhei que a minha investigação tinha esgotado todos os pormenores e todas as ligações que se podiam encontrar nas instalações de João Penalva na Culturgest, e que as suas obras se me apresentavam transparentes no seu significado, como se estivessem nuas. Acordei aliviada ao constatar que não era esse o caso.
Com curadoria de Bruno Marchand, a exposição está patente na Culturgest, em Lisboa, até 19 de julho de 2026.
[1] Bruno Marchand, antigo curador de artes visuais da Culturgest, assumiu o cargo de diretor-adjunto do MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia em março de 2026.
[3] Ibid.
[4] Informação disponível num e-mail enviado por João Penalva à autora do texto em julho de 2026.
[5] Claire Bishop, Installation Art: A Critical History (London: Tate Publishing, 2005).
[6] Ibid., pp. 14–16.
[7] Ibid.