Pensa na última vez que leste um texto cheio de notas de rodapé – estavas ansioso por segui-las? Sentiste que podias perder-te na conversa que se desenrolava para além do corpo principal do texto, demorares-te sobre as letras pequenas na parte inferior da página ou ceder às ruturas na narrativa principal enquanto ias e voltavas entre o texto e as referências no final do livro? Ou simplesmente ignoraste estas notas?
Na nossa sociedade capitalista tardia, impulsionada por algoritmos e obcecada pela otimização e pelo consumo rápido, o espaço para a descontinuidade e para tudo o que se afigura aparentemente desnecessário, parece estar a diminuir progressivamente. Cada vez mais a informação nos chega pré-digerida, estruturada e resumida – uma promessa de aceleração concebida para nos manter cada vez mais produtivos. A exposição colectiva Notas de Rodapé, patente na galeria Jahn und Jahn em Lisboa, resiste a esta lógica. A exposição convida-nos a explorar a potência das margens e a envolvermo-nos numa “experiência lenta e não hierárquica de aproximação” aos significados que as obras transmitem, como afirma o texto da curadora Luiza Teixeira de Freitas.
Notas de Rodapé reúne oito artistas – Sara Bichão, Catarina Dias, António Júlio Duarte, Carlos Noronha Feio, Julius Heinemann, Raphaela Melsohn, Navid Nuur e Jorge Queiroz – que trabalham com diversos suportes, desde a pintura, a aguarela e a fotografia à cerâmica, objetos de técnica mista e instalação. Os seus trabalhos derivam de áreas de investigação distintas e dificilmente podem ser atribuídos a uma única geração ou um grupo claramente definido. Como observa Luiza Teixeira de Freitas, embora os artistas partilhem um interesse pela prática uns dos outros, alguns nunca se encontraram pessoalmente e não imaginariam necessariamente as suas práticas em justaposição direta. Além disso, a exposição inclui tanto alguns nomes representados pela Jahn und Jahn como outros que não fazem parte do catálogo da galeria.
Quando questionada sobre como chegou à lista de participantes da exposição, Teixeira de Freitas falou da responsabilidade do curador em extrair vozes artísticas dos seus círculos imediatos e criar momentos de serendipidade que possam fomentar novas conversas e relações. A sua posição curatorial reflete-se na epígrafe do texto da exposição: “As ideias relacionam-se com os objetos como as constelações se relacionam com as estrelas”, citação de A Origem do Drama Trágico Alemão, de Walter Benjamin. Nesta monografia seminal, Benjamin questiona a filosofia sistemática e a historiografia linear, propondo um princípio segundo o qual as ideias, tal como as constelações, se formam pela configuração de elementos díspares, e não pela sua submissão a um sistema totalizante.
Esta abordagem, baseada na não-linearidade e na descentralização, traduz-se ainda mais na organização espacial da exposição: solta e porosa. Notas de Rodapé apresenta várias obras de cada artista, dispostas em diferentes combinações por todo o espaço. As obras estendem-se também para além dos espaços expositivos atribuídos pela Jahn und Jahn, encontrando o seu caminho para as margens – a entrada da galeria, o corredor e o muro do jardim ao longe. Não há um clímax distinto na exposição, nem uma narrativa definitiva.
A atenção aos espaços marginais (incluindo as notas de rodapé), bem como aos “fragmentos, desvios, interrupções” e significados intermédios que contêm, é central nas Notas de Rodapé e nos projetos que reúne. Na primeira sala da Jahn und Jahn, duas pinturas abstratas de Jorge Queiroz, também intituladas Notas de Rodapé, lançam o mote para a exposição. Assemelham-se a páginas de caderno pautadas, cobertas com formas fluidas e coloridas que se transformam umas nas outras e que podem ser lidas como figuras ou paisagens, ou simplesmente como rabiscos aleatórios ampliados. Numa entrevista (realizada em 2019, à data da realização destas pinturas), Queiroz descreveu a sua compreensão da abstração como caótica e amorfa, “uma viagem mental romântica”, mas “essencial para ligar todos os pensamentos da mente”.
A mesma sala apresenta um outro conjunto de apontamentos nas obras de Raphaela Melsohn. Inscritas em gesso, estas remetem às marcas realizadas durante o planeamento de um projeto de arquitetura, de uma obra de land art ou de um cenário teatral. A prática de Melsohn considera a forma como o corpo se relaciona com o espaço e os materiais – um tema recuperado, mais tarde, em REPEAT REPEAT REPEAT, uma série de tubos de cerâmica feitos à mão que brotam pelos espaços de Jahn und Jahn. O seu tamanho, cor e forma uniformes sugerem uma tentativa de replicação, que, no entanto, está condenada ao fracasso devido à própria natureza do processo incorporado que os produz.
Uma das “constelações” que podem ser identificadas no interior do universo de Notas de Rodapé centra-se na materialidade. Para além da cerâmica e do gesso, a exposição estende-se a práticas multimédia. Enquanto os objetos de Navid Nuur são feitos de materiais complexos, como serpentinito ou folhas de ouro preciosas, que poderiam facilmente pertencer a um laboratório de química experimental, Sara Bichão reúne elementos do quotidiano – terra, tecido, arame, cascalho, cascas de nozes, uma colher de alumínio – em composições subtis que carregam uma ressonância poética, sagrada e simbólica.
Pode argumentar-se que as obras de Julius Heinemann e António Júlio Duarte expostas na Jahn und Jahn poderão funcionar como “notas de rodapé” para a investigação de Bichão sobre artefactos do quotidiano. Ambos os artistas criam instantâneos da realidade sob a forma de grandes planos isolados e descontextualizados de objetos, interiores ou paisagens. E se António Júlio Duarte trabalha com fotografia, Julius Heinemann fá-lo com aguarelas que, na sua composição e na dinâmica da luz e da sombra, possuem qualidades distintamente fotográficas, o que não surpreende, dado que Heinemann estudou originalmente fotografia.
Por fim, Notas de Rodapé apresenta obras que dialogam com o texto – um domínio que parece praticamente inevitável, dado o título e o foco da exposição. No seu trabalho recente, Catarina Dias apresenta uma montagem de imagens digitalizadas e de elementos gráficos sobrepostos com traços de tinta e pintura, acompanhados de comentários poéticos não lineares, impressos em tamanho tão pequeno que quase desaparecem. Através desta interação, a artista explora o espectro de significados que podem emergir da fricção entre elementos díspares. Em contraste, as mensagens de Carlos Noronha Feio parecem surpreendentemente legíveis, assumindo a forma de letras de aço inoxidável banhadas a ouro, dispostas em frases que soam a slogans políticos, porém redigidas num registo poético e agridoce. (crescei flores!) está instalada no muro do jardim de Jahn und Jahn, convidando o visitante a um momento de contemplação enquanto monta uma armadilha cognitiva. Quanto mais tempo se observa a frase, menos certo se torna o seu significado: dirige-se a seres humanos ou não humanos? Temos a certeza de que o artista está a falar de vegetação, ou as flores funcionam como metáfora para algo mais? Entre parênteses, mas marcada com um ponto de exclamação, ela clama por ação ou invoca suavemente?
Outra obra de Noronha Feio, apresentada no espaço da galeria, assume uma presença mais escultural: as suas letras estão dispostas na vertical e formam a frase: “(uma gota no universo tem universos próprios!)”. Embora não tenha sido concebida especificamente para esta exposição, a peça dialoga fortemente com o verso de Benjamin, sugerindo que aquilo que surge como uma mera gota – uma nota de rodapé subtil, um objeto marginal – pode, através das relações que estabelece com outros, gerar densas constelações de significado e ligação, recompensando assim o esforço da atenção e a viagem para a qual nos convida.
Com curadoria de Luiza Teixeira de Freitas, a exposição está patente na Jahn und Jahn, em Lisboa, até 14 de março.