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Espaço e tempo: lugar-depois, no Museu Zer0
DATA
14 Set 2026
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AUTOR
Ana Isabel Soares
“O que fazer desta História e desta tradição, perante um museu de arte digital? Pode ser como resposta a esta pergunta que se entende a primeira grande exposição do Museu Zer0 enquanto espaço localizável e assim assumido. Outros momentos houve no caminho ainda breve até aqui (mais recentemente, em outubro de 2025), mas lugar – depois, de facto, inaugura uma visão própria, uma estratégia, desígnio e desenho. Essa ocasião foi imaginada por Fátima Marques Pereira, que viria a tomar posse, em março último, como Presidente da nova Direção, e a atual exposição, patente até dezembro, representa o assumir pleno da nova equipa.”
Num dos mais instigantes ensaios sobre a Biblioteca de Alexandria, e acerca de como a atualidade herdou instituições e modos de pensamento da Antiguidade, Daniel Heller-Roazen1 recorda a dificuldade de distinguir o “Museu” e a “Biblioteca” enquanto repositórios do saber. Se hoje se entendem como entidades separadas, tal resulta, sobretudo, dos espaços distintos que habitualmente ocupam (mesmo se os grandes museus dispõem de bibliotecas de grande relevância). É primeiro enquanto “museu” que a grande “biblioteca” se gera, é nesse espaço que se origina. Heller-Roazen começa por descrever traços cartográficos de Alexandria, passa a referir grandes palácios da cidade e, dentro deles, citando Estrabão, localiza o museu. O lugar é, portanto, génese e forma do conhecimento – necessita-se dele, por assim dizer, para dar consistência ao saber. Um museu tem de ser, antes de mais, um lugar (o lugar onde se sentam as musas).
O que fazer desta História e desta tradição, perante um museu de arte digital? Pode ser como resposta a esta pergunta que se entende a primeira grande exposição do Museu Zer0 enquanto espaço localizável e assim assumido. Outros momentos houve no caminho ainda breve até aqui (mais recentemente, em outubro de 2025), mas lugar – depois, de facto, inaugura uma visão própria, uma estratégia, desígnio e desenho. Essa ocasião foi imaginada por Fátima Marques Pereira, que viria a tomar posse, em março último, como Presidente da nova Direção, e a atual exposição, patente até dezembro, representa o assumir pleno da nova equipa.
Iniciar a visita pelo extremo superior dos silos (recordo o encanto que é o próprio edifício, seja na arquitetura original, seja no restauro/reconfiguração, da responsabilidade do ateliê Pedra Silva Arquitetos) convida a entender como bandeira a peça de Luísa Cunha, É Aqui (coleção Figueiredo Ribeiro). Na folha de apresentação, diz-se: É Aqui é “um ato político” que traz consigo a reivindicação do local onde se instala. É-o, na verdade, pelo modo como o som se superioriza e manifesta, quando a voz feminina impõe a afirmação do ser no lugar. Os antigos silos de Santa Catarina da Fonte do Bispo marcam-se, mais ainda, enquanto museu. Quando me deparei pela primeira vez com esta peça, tudo era elevado: é no último piso que se encontra, como emissora de um plano superior, sobre-humano e a temperatura daquele espaço, só a muito custo climatizado, exigiu o peso da presença, adensou a corporalidade da experiência. A voz, reprodução digital, materializa a perenidade da obra sobre a existência do ser que a criou – Luísa Cunha faleceu cerca de um mês depois da inauguração desta exposição.
O local, ou os sinais de uma espacialidade reconhecível enquanto ecossistema (palavra-chave no entendimento do Museu Zer0, hoje), surge igualmente em duas magníficas obras de Gil Delindro: Lava Lavra, instalação sonora e videográfica a partir de recolhas dos vulcões Etna e Stromboli; e Burned Cork (mostrada em 2024, com outras peças do artista, na iniciativa Dar a Ouvir, em Coimbra), que sublinha a verticalidade do tronco de um sobreiro parcialmente carbonizado, fazendo audíveis os sons por este produzidos através de dois microfones que roçam a superfície do tronco em rotação e fazem amplificar o ruído. O resultado de ambas as instalações, distintas e autonomizadas pela presença em salas diferentes (mesmo se contíguas e com divisórias transparentes), assemelha-se a fantasmagorias resultantes do apelo do fogo, quer visível nos registos das erupções vulcânicas, quer latente no título e no tronco queimado do sobreiro em lamentação. (Quanto desta pele da árvore recorda a relação entre museu e biblioteca, se se lembrar, como lembrou Didi-Huberman, que a palavra inventada pelos latinos para o ponto em que a casca das árvores adere ao tronco é liber.2)
Uma poética da terra em dor resulta do vídeo e das palavras de Miguel Teodoro, Chemical Affinities, assim como da disposição com que escolhe mostrá-lo na “sala do órgão” do Museu Zer0. Um lago retangular, sobre o qual assentam três pequenas esculturas, sugere um diálogo com o espelho que, em Lava Lavra, sustenta uma rocha magmática, e reflete as imagens que passam em loop: assim como estas se veem duplicadas, invertidas, também os químicos de que se fala são, ao mesmo tempo, úteis na produção de artefactos científicos e artísticos (revelam imagens fotográficas, por exemplo) e destroem o equilíbrio da terra. Semelhante impulso etnográfico subjaz ao rico e intrincado TAR, que Francisca Rocha Gonçalves e Anna van der Velde compuseram para espaços que acentuam características específicas do Museu. Associando vídeo, som e instalação com vários materiais e o recurso à superfície das salas e à ligação entre espaços do edifício, mostram “um mundo subaquático distópico” num ambiente que o visitante adentra e onde, atento, perceberá mesmo as vozes de mariscadoras da Ria Formosa. É do vento que sopra sobre o terraço do Museu Zer0 – ou seja, do ambiente local – que Inês Mendes Leal recolhe a energia que estimula a escultura Window (jogo com a palavra que, em inglês, designa janela e contém aquela que nomeia o vento). O lugar é motor da promoção de uma “escuta ativa do território”, expressão do comunicado da nova Direção à imprensa, em abril passado.
Na maior sala do museu, confrontam-se três peças audiovisuais, num conjunto criado por António Rafael, Luís Fernandes, Miguel Pedro e Miguel C. Tavares. Devolvem imagens e sons de territórios pós-industriais, em Ricochete, por se disporem em oblíquos espelhos umas às outras. São evidência dos efeitos da industrialização sobre a paisagem; a vivência do ambiente que constituem, nesse estar diante uma das outras, convoca a reflexão: onde nos situamos? Que terra é a nossa se as máquinas a dominam, como monstros? Talvez, mais do que apontar para o “lugar”, primeiro termo do título da exposição, estas peças indiquem o “depois” (termo segundo). É que falam de um tempo posterior, de um tempo que complementa os lugares do presente.
A temporalidade de depois, tanto quanto uma reflexão acerca da localização espacial, impregna a instalação de José Jesus, Subterranean Homesick Alien. O alienígena do título não é extraterrestre, mas subterrâneo (o canto da sala metaforiza o subsolo). É um ser estranho, feito de fosforescência, mas habita este mundo e sente saudades de casa (a sua casa é deste mundo?). Se é “ficção científica,” como se afirma na folha da exposição, do mesmo modo é parceiro na habitação de um tempo e de um espaço comuns (como é comum o solo de que fala Miguel Teodoro). A peça de David Bastos literalmente divide o espaço da sala em que reside a de Jesus: um feixe de laser atravessa-a na diagonal, reforçando a luminescência. Ao centro, cruzada pelo laser, uma combustão transforma matéria orgânica (casca de ovo moída, cera de abelha) e faz libertar o fumo que anima a escultura. O que resta, depois?
A instalação que fecha a visita, no espaço do átrio, pode passar despercebida, mas remete para a peça com que se iniciou a exposição (É Aqui): presentificam-se ambas através de uma coluna de som. Porém, se a peça de Luísa Cunha afirma e reclama o lugar, A Casa do Mar, de Francisca Aires Mateus, interroga a existência do sentido para lá da linguagem verbal. Uma atriz estoniana (Keele Kaljuvee-O’Brock) lê o conto homónimo de Sophia de Mello Breyner e a sua dicção faz suspeitar que desconhece a língua em que lê. Se a língua delimita nacionalidades, se é uma forma territorial, o que significa habitá-la sem a dominar? Uma língua pode ser, afinal, como o magma que escorre do Etna: inóspita, mas cativante; dramática, escultural, convidativa.
As propostas de lugar – depois não se esgotam nestas impressões. O prolongamento desta exposição no tempo incita a revisitações do Museu Zer0, morada estimulante das contemporâneas musas.
A exposição integra ainda eventos decorridos na inauguração (criados pelos coletivos Openfield e Boris Chimp 504), assim como um ciclo de cinema de animação, projetado em colaboração com o curso de Imagem Animada da Escola Superior de Educação e Comunicação da Universidade do Algarve, e programação especial nas últimas sextas-feiras de cada mês. lugar – depois pode ser visitada no Museu Zer0, em Santa Catarina da Fonte do Bispo, até 7 de dezembro de 2026.


1 Daniel Heller-Roazen (2002). “Tradition’s Destruction: On the Library of Alexandria”, October, Vol. 100 (Spring, 2002), The MIT Press, pp. 133-153.
2 Georges Didi-Huberman (2017). Cascas. Trad. de André Telles. São Paulo: Ed. 34, p. 73.
BIOGRAFIA
Ana Isabel Soares (n. 1970) é doutorada em Teoria da Literatura (FLULisboa, 2003) e ensina desde 1996 na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais (UAlgarve). Integrou a equipa de fundadores da Associação de Investigadores da Imagem em Movimento. Interessa-se por literatura, por artes plásticas e por cinema. Escreve, traduz e publica em revistas portuguesas e internacionais. É membro do Centro de Investigação em Artes e Comunicação.
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