Toma-se a inspiração da performance de Andrea Fraser (May I Help You? de 1991), que convocou atores para dramatizar os papéis de funcionários de um museu que, nesse mesmo espaço, interpelavam os visitantes. A performance elucidava duplamente acerca das multiplicidades dos papéis sociais e, ao mesmo tempo, interrogava o próprio espaço museológico, enquanto instituição, acerca dos tipos de ajuda que pode realmente oferecer ao público como local agregador, questionador e vital.
Na altura em que Fraser estreou a sua performance, vivia-se a entrada num novo milénio, com os desejos e anseios de um mundo por vir, avassaladoramente tecnológico, absolutamente global, onde as crises e as vontades de mudança do passado acabaram, de certo modo, por não se resolverem. Tudo isso serve de mote para a exposição, que se ocupa de revisitar um vasto espólio de produção artística dos anos 1970 em diante. Partir desta década, enquanto marco temporal, implica reconhecer, em simultâneo, um período de crise e de mudanças socioculturais que marcaram este período e compreender como, daí em diante, diferentes artistas, variadas representações e correntes procuraram desafiar motivações imperialistas, capitalistas e belicistas.
Nos dias atuais, atravessamos um período em que se torna fundamental compreender precisamente estas formas de protesto e resistência, quando pensadas em relação às guerras, conflitos, genocídios que decorrem diante de nós enquanto comunidade global; neste contexto, a arte poderá ser um eficaz reduto de expressão, comunicação e afirmação de uma ordem de valores que conduza à paz e a uma transformação histórica que – como se observa ao longo de May I Help You? Posso Ajudar? – ainda se encontra em devir.
A exposição divide-se em três salões, compostos por três eixos temáticos: produções, mudanças, tramas. O primeiro ocupa-se de mostrar a relação entre o objeto artístico e o quotidiano, a sociedade de consumo e a dimensão de oferta e troca que completa a produção (e reprodução) social. Produções, com obras de Sol LeWitt, Dan Graham, Allan Sekula, Mario Merz ou Pino Pascali, estabelecem uma crítica à produção em massa, à mercantilização do mundo, contrariando ideias de uma narrativa universal. Este salão completa-se com as assemblagens de Ana Jotta e Fernanda Gomes, a videoarte de Gabriel Abrantes, lado a lado com contributos de Gabriel Orozco, Mona Hatoum, Olaf Breuning e Jeff Koons.
No salão seguinte, Mudanças surge com uma proposta artística mais interventiva, em que o cariz sociopolítico se centra numa série de obras ativistas, fricativas e inquietas. Jogos entre texto e imagem são apresentados por Barbara Kruger e Jenny Holzer, seguidos da ação antirracista de David Hammons e Kara Walker. A crítica ao colonialismo é evidenciada nos contributos em técnica mista de Kiluanji Kia Henda e Yonamine, assim como a crítica ao eurocentrismo nas obras de Lothar Baumgarten, Yazan Khalili, Gabriel Chaile e Vídeo nas Aldeias. Por fim, críticas ao poder – institucional, económico, político – são materializadas nas obras de Wolfgang Tillmans e Senga Nengudi, ombreadas pelos contributos de Sara Bichão, João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira.
O terceiro e último salão apresenta um conjunto de obras que trabalham ideias de interligação. Tramas congrega um conjunto de práticas marcadas por uma lógica serial e combinatória, em estruturas de interconexão e interdependência. Encontra-se aqui a abstração e o construtivismo de Frank Stella, o vocabulário visual de Daniel Buren, mas também as fotografias de Helena Almeida, as investigações de Ana Hatherly ou Irma Blank, bem como uma afirmação do corpo feminino em obras de Júlia Ventura e Sanja Iveković. Para finalizar, Matt Mullican, Carla Filipe ou João Marçal remetem nas suas obras para codificações, signos pessoais e mapas interiores de consciência.
Reunindo o trabalho de mais de quarenta artistas, com origens, técnicas e propostas diversificadas, a exposição May I Help You? Posso Ajudar? fornece uma viagem no tempo – um remoinho, um caos organizado – onde num curto espaço se observa uma amálgama dos últimos cinquenta anos vistos e interpelados pelo olhar artístico.