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Notas sobre o 1º aniversário do MACAM
DATA
25 Mar 2026
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AUTOR
João Pedro Soares
O MACAM - Museu de Arte Contemporânea Armando Martins celebrou o seu primeiro aniversário nos dias 21 e 22 de março de 2026, com uma série de atividades abertas ao público e várias novidades nas galerias da coleção.
Comecemos pela instalação site-specific Between Heaven and Earth, de José Drummond, recentemente integrada na exposição permanente, uma série de hexagramas feitos com néon, tomando inspiração no complexo sistema de significação do I Ching. A obra traduz-se numa conjunção de cores vermelhas e azuis, acompanhada de sons apaziguantes e harmoniosos. A instalação imersiva encontra-se no corredor de ligação do espaço novo ao espaço antigo do edifício, recuperando a ideia de passagem e transitoriedade explorada em detalhe por Drummond. Além disso, os próprios sons e a luz da peça são executados de forma totalmente aleatória, numa alusão às vicissitudes da vida terrena. A colaboração do artista com o programador João Cabral resulta na criação de um algoritmo próprio da instalação, que ativa a luz, numa obra que acaba por se tornar autossuficiente, na qual o autor deixa de ter intervenção.
João Motta Guedes encontra no átrio da entrada a sua peça This sign is an act of love. Esta frase, também ela materializada em néon na parede, formula um conceito inovador de transmissão e usufruto do objeto artístico. Esta obra é feita para ser partilhada, não podendo ser comercializada, encontrando aqui um sinónimo do ethos da coleção MACAM: uma lógica de encontro com uma ideia de colecionismo pelo valor intrínseco de uma obra de arte e não apenas pelo seu valor comercial. De ano a ano, This sign is an act of love circula para outro espaço, numa lógica de partilha, na qual cada museu se torna um “guardião”; este ano, cabe ao MACAM guardar esta obra e decidir com quem a partilhar no ano seguinte.
Talvez uma das principais novidades da coleção surja no tão esperado reencontro dos painéis de Almada Negreiros para a Alfaiataria Cunha, naquela que é uma das primeiras pinturas a óleo do artista e a sua primeira encomenda. Observam-se representações de convívios e diálogos quotidianos, numa figuração urbana e sofisticada, onde o vestuário marca a transitoriedade dos séculos. XIX e XX, contando com referências à art déco, e uma surpreendente paridade entre as figuras femininas e masculinas. Expostos pela primeira vez em 1984 e depois em 2014, voltam finalmente a encontrar um espaço expositivo onde os quatro painéis podem ser vistos em conjunto, naquilo que é a intenção original desta obra. Um esforço resultante de uma colaboração institucional entre o MACAM e o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.
Conta-se também com a nova presença de um quadro de Silva Porto, O álbum (1885), uma representação cândida de uma conversa em torno de um álbum entre Maria Augusta Bordalo Pinheiro e a esposa do artista, numa alusão à vivência burguesa, agora em pertinente contraste direto com A sesta dos ceifeiros (1895) de José Malhoa, uma representação de uma pausa para descanso no duro labor dos trabalhadores rurais alentejanos.
Acrescentam-se, ainda como novidades, quadros de José Manuel Espiga Pinto, Júlio Resende e Mário Cesariny, e as obras da dupla Teresa Magalhães e Sérgio Pombo. Também se verifica uma renovação na sala dedicada ao abstracionismo geométrico, com algumas alterações na apresentação, em quadros de Manuel Baptista, José Escada, António Palolo e Eduardo Luiz, bem como na obra Superfícies I, II, III de Pires Vieira, agora renovada. Por fim, num outro prisma, a aposta nas novas gerações de artistas contemporâneos mantém-se no trabalho de Fernão Cruz, que consta em exposição.
As celebrações decorreram fim de semana adentro, com uma visita guiada especial à Galeria 1 da exposição permanente, guiada pelo escritor Afonso Reis Cabral, um recital de poesia com Eva e Diogo Doria, um concerto-performance por Nuno Cintrão, e ainda para os mais jovens, pinturas corporais inspiradas em obras da coleção. O programa terminou com um concerto de Márcia no àCapela - Live Arts&Bar.
Mais informações sobre a programação do MACAM poderão ser consultadas aqui.
BIOGRAFIA
João Pedro Soares (Almada, 1995) é cineasta, investigador e escritor. Licenciado em Artes e Humanidades pela Universidade de Lisboa, fez mestrado em Argumento e Realização na ESTC. O seu trabalho abrange cinema, fotografia e escrita, com foco nas relações entre humano-natureza, ecologia, futuros regenerativos e na interseção entre arte e agricultura. É doutorando em Estudos Artísticos na NOVA FCSH, com investigação sobre ecologia no cinema documental português contemporâneo. Realizou as curtas-metragens premiadas “Retrato de um homem enquanto ilha” (Prémio Novos Talentos Fnac 2021) e “A Incessante Conquista da Escuridão”, ambas exibidas em grandes festivais. Publicou ensaios, contos e poesia.
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