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Burle Marx: num jardim de plantas pintadas
DATA
19 Mar 2026
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AUTOR
Frederico Vicente
"Em Lugar de Estar: o Legado de Burle Marx, o jardim converte-se na representação do jardim, e a experiência sensível é reconfigurada através de um trabalho sobre o arquivo. Conscientes dessa “limitação”, Nuria Enguita, diretora artística do MAC/CCB, e a curadora Marta Mestre, propõem um cruzamento disciplinar, ao articular o arquivo do pintor-paisagista com a prática de cinco artistas portugueses contemporâneos.”
Expor o trabalho de um arquiteto paisagista num museu tem uma dimensão paradoxal, que não é exclusiva desta disciplina. Pode, inclusivamente, ser alargada à generalidade dos arquivos profissionais apresentados em contexto museológico. Talvez por isso seja pertinente lembrar a observação de Rosalind Krauss[1] aplicada à fotografia, segundo a qual o significado de uma imagem não se limita à própria imagem, mas surge de um sistema discursivo que a enquadra e que lhe confere inteligibilidade. O museu é um dos agentes desse sistema, e está longe de ser uma entidade neutra, é um dispositivo de legitimação: define o que é reconhecido e “transforma o documento em obra”.
No caso de Roberto Burle Marx (1909-1994), cuja prática profissional é matéria viva e fala de processos com temporalidade própria, que compreendem crescimento, transformação, composição e decomposição (ciclos), transpô-la para o espaço expositivo implica uma inevitável mediação. A obra, portanto, os jardins, perde a sua experiência social e fenomenologia, enquanto lugar habitável e sensorial (talvez seja verdade que um jardim é fisicamente impossível de replicar num espaço interior), sendo antes evocada por meio de um acervo documental: desenhos, estudos preparatórios e fotografias. E tudo isto seria verdade, caso não soubéssemos que Burle Marx foi, acima de tudo, um modernista, recusando fórmulas prévias e rompendo com a academia convencional. Introduziu plantas endémicas brasileiras na conceção do espaço público, mas também formas orgânicas e abstratas, vindas do interesse e prática das artes plásticas - sim, plásticas, não apenas visuais, porque falamos de corpo e gesto no espaço. Reconhecemos que os seus esquissos poderiam figurar em qualquer “white cube”, lado a lado com as suas pinturas, e com as de outros, por cá poderiam ser as de Nadir Afonso, até Pancho Guedes, e seriam outra coisa qualquer, muito embora nunca perdessem o traço do modernismo brasileiro, igualmente impresso no trabalho de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, com quem colaborou.
É certo que, em Lugar de Estar: o Legado de Burle Marx, o jardim converte-se na representação do jardim, e a experiência sensível é reconfigurada através de um trabalho sobre o arquivo. Conscientes dessa “limitação”, Nuria Enguita, diretora artística do MAC/CCB, e a curadora Marta Mestre, propõem um cruzamento disciplinar, ao articular o arquivo do pintor-paisagista com a prática de cinco artistas portugueses contemporâneos.[2] Estabelece-se, deste modo, um diálogo com obras de Fernanda Fragateiro, Filipe Feijão, Juan Araujo, Mónica de Miranda e Lourdes Castro que alarga o campo interpretativo ao contexto português. Através de cinco eixos, pela ordem das salas - construção da cidade, compromisso estético e ético, projeto moderno, ativismo ambiental e património botânico - acontece a desconstrução, por capítulos, de um autor múltiplo. Títulos de seções que são, em grande medida, também traços da personalidade de Burle Marx: democrático, artista, moderno, ativista e botânico.
Iniciamos a exposição pelo Jardim das Ondas. Projetado por Fernanda Fragateiro e João Gomes da Silva (Global Arquitetura Paisagista) para a Expo’98, gabinete a quem também devemos o desenho da Ribeira das Naus, bem como a envolvente do Terminal de Cruzeiros, projeto de Carrilho da Graça, ambos em Lisboa, ou o jardim do museu de Serralves. São um conjunto de pequenas maquetas que replicam a topografia ou batimetria das ondas. Destaque também para o atlas de Mónica de Miranda, uma artista que tem dedicado grande parte da sua pesquisa à diáspora africana, à identidade e à paisagem, com presença em Lisboa e nos seus círculos, normalmente ausentes destes palcos (Tales of Lisbon e South Circular, 2019). Jardins Invisíveis é uma série documental[3] sobre as hortas comunitárias nos subúrbios da capital. Para muitos, vazios urbanos, para outros, estórias de imigração, atos de resistência, subsistência e ecologia. Por fim, voamos até à ilha da Madeira, até ao jardim insular de Lourdes Castro. Um conjunto de 20 desenhos da série Sombras à volta de um centro é irrepreensivelmente exposto numa estrutura de dois semicírculos[4] descontínuos, lembrando a luz filtrada dos biombos japoneses, estabilizados por lajetas de lioz rosa, aliás pedra recorrente nos restantes dispositivos ao longo da exposição, e claro, na fachada do CCB.
Num momento em que a emergência climática redefine o modo como pensamos, ou equacionamos, as cidades, seja pela importância de espaços verdes, preservação de ecossistemas, criação de santuários, seja pelo planeamento de bacias de retenção ou pela reflexão sobre a ocupação da linha de costa, a figura de Burle Marx é surpreendentemente contemporânea. É, no traço, no pensamento, no paisagismo ou no ativismo.
Entretanto, como sentimos a falta do “cheiro da terra molhada” ou da luz filtrada pelas copas das árvores, aceitamos a proposta de Ivo Meco (que integra o programa paralelo Jardins: Lugares de Olhar, a acontecer Sábado, 21 de março, às 11:00) e subimos ao Jardim das Oliveiras, de onde se vê o Jardim do Japão ou o Jardim da Praça do Império, ou, mais à frente, o Jardim Botânico Tropical; pensamos no Jardim de Éden, nos Jardins Suspensos da Babilónia e em quão políticos e sociais são os jardins, também como atos e símbolos de poder.
Lugar de estar: o legado Burle Marx está patente até dia 5 de abril no MAC/CCB com destaque para as duas iniciativas do programa público: Jardins, Lugares de Olhar, um percurso pelos jardins em torno do museu, orientado por Ivo Meco, no equinócio da primavera, e Alarve, uma performance de João dos Santos Martins.


[1] KRAUSS, Rosalind. Photography's Discursive Spaces: Landscape/View. Art Journal. Vol. 42, n.º 4, (1982), p. 311-319.
[2] Um modelo importado da exposição no Brasil, uma vez que foi desenvolvida uma colaboração entre o Instituto Burle Marx e o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, explicava Marta Mestre durante a visita guiada.
[3] Um projeto que surge no seguimento de Jardim Crioulo, criado para o projeto GreenHouse (2024) que representou oficialmente Portugal na 60ª La Biennale di Venezia.
[4] Semicírculos que lembram igualmente a curva do Casino Park Hotel, do único projeto atribuído a Oscar Niemeyer em Portugal em estreita colaboração com Viana de Lima (e interiores de Daciano da Costa), “arquitetos corbusianos” para os quais o jardim é uma extensão da arquitetura, ali, em concreto, o jardim é a paisagem tropical e a macaronésia.
BIOGRAFIA
Arquiteto (FA-UL, 2014) e curador independente (pós-graduado na FCSH-UNL, 2021). Em 2018 funda o coletivo de curadoria Sul e Sueste, plataforma charneira entre arte e arquitetura; território e paisagem. Enquanto curador tem colaborado regularmente com algumas instituições, municípios e espaços independentes, de que se destaca "Espaço, Tempo, Matéria" (exposição coletiva no Convento Madre Deus da Verderena, Barreiro, 2020), "How to find the centre of a circle" com a artista Emma Hornsby (INSTITUTO, 2019) e "Fleeting Carpets and Other Symbiotic Objects" com o artista Tiago Rocha Costa (A.M.A.C., 2020). Foi recentemente co-curador, com a arquiteta Ana Paisano, da exposição "Cartografia do horizonte: do Território aos Lugares" para o Museu da Cidade, em Almada (2023). Escreve regularmente críticas e ensaios para revistas, edições, livros e exposições. É co-autor do livro "Gaio-Rosário: leitura do lugar" (CM Moita, 2020), "À soleira do infinito. Cacela velha: arquitectura, paisagem, significado" (edição de autor com o apoio da Direção Regional da Cultural do Algarve, 2023) e de "Geografias Urbanas" (em publicação). A atividade profissional orbita em torno das várias ramificações da arquitetura.
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