O primeiro núcleo que nos é apresentado, que será o primeiro tempo, começa com duas gravuras e duas serigrafias cujo título está presente de forma circular nas quatro folhas de papel e que é, a meu ver, a afirmação estruturante de toda a exposição: o limite da arte é o limite da vida — mas já lá vamos. Logo ao lado, uma edição de cassetes das quais o conteúdo é uma gravação do bramido do mar da Figueira da Foz, no lado A, e do correr do Rio Dão, em Sezures, no lado B. Sobreposta a estas duas movimentações sonoras ouvimos a voz da artista proferindo as palavras “MAR” e “RIO” nos lados respetivos, procurando emparelhar a frequência do seu timbre com uma água que é primeiro tímida, como transpiração / depois em jorro, / um rio, o mar / um rio, o mar / o rio um mar2. Duas caixas em pele vermelha, cada uma com uma impressão textual a dourado, lendo-se You are her and she is you / You are here to risk your heart, que interpela quem as lê.
Estas continuam-nos o caminho e introduzem-nos o momento de transição dos tempos — o tal compasso — uma sarja de algodão pintada em múltiplos tons de azul que nos impossibilita o vislumbre do que está do outro lado da exposição, reservando-nos apenas um curto e estreito corredor do lado direito do espaço para que possamos passar para o lado de lá. Esta peça, Mover para fora #1, de 2023, já serviu de céu para um piquenique numa exposição em 2024, no CAPC, intitulada O Lugar do Espectador, e agora serve a metamorfose do céu com o mar, sugerindo-se não como uma parede, mas, antes, como uma sugestão de que há algo mais nessa linha ténue que parece infinita, sem limites.
Chegamos, por fim, ao segundo tempo e último momento expositivo. De repente, aparecem pontos azuis fluorescentes ao longo dos 17 metros da conhecida parede arqueada do Sismógrafo, pontuando-a intensamente. O azul intensifica-se pela reação do árgon e do mercúrio excitados pela corrente elétrica, num brilho que nos vai captando a atenção mais e mais, fertilizando a nossa curiosidade a fim de conseguirmos decifrar que formas ali se desenham. À medida que acompanhamos o espaço lendo o azul do árgon, percebemos que estamos a ser novamente recordados de que o limite da arte é o limite da vida. E, numa espécie de dicotomia, a artista contrapõe a frase apresentando um plinto em alumínio no qual descansam duas metades de uma maçã em bronze e um coração de polímero banhado a cobre. Quando ali cheguei, já só havia água na base do plinto, mas, antes, quando inaugurou a exposição, as peças encontravam-se dentro de cubos de gelo. Todo movimento associado à passagem da água do estado sólido para líquido é documentado por uma série de vinte e quatro polaroids que a artista tirou de hora em hora desde o momento em que as peças chegaram ao espaço.
Em princípio, termina aqui o percurso que, pela anatomia do Sismógrafo, se torna num circuito. Mas não. Curiosamente, parece derradeiramente propor-se o que Ana Pérez-Quiroga nos tem vindo a inspirar. No retorno para a saída, passando por toda a exposição novamente, aquilo que vimos não é, de todo, a mesma coisa. A proposta da artista fundamenta-se precisamente no crer que a repetição não existe pelo constante movimento das coisas. Por mais ínfima que seja essa diferença, por mais que não a sintamos, ela está lá. Imagine-se uma helicoidal, por exemplo. Se a virmos por cima, é apenas um círculo, uma coisa que se fecha em si própria. Ao mudarmos a perspetiva, percebemos que está em constante movimento… Ou, numa analogia mais direta, um rio e um mar! Uma continuidade que Ana nos quer fazer entender.
Desta vez quis começar este texto de um modo sobretudo descritivo daquilo que é o cenário da exposição porque, a meu ver, há algo de muito importante a compreender no trabalho de Ana Pérez-Quiroga e que é, aliás, bastante útil no olhar para o cômputo geral da esfera artística contemporânea. Uma das coisas que mais me estimula no trabalho da artista é a compreensão do projeto expositivo como um meio. Ou seja, o que continuamente circunda os trabalhos de Ana é um olhar que compreende que o facto de existir uma linha condutora entre as partes constituintes da exposição não significa que apenas se pense numa organização espacial seguindo essas supostas temáticas. Esta capacidade curatorial que está embebida nos projetos da artista faz com que as coisas aconteçam além de serem apenas mostradas e que possam ser exploradas em vez de apenas representadas3.
Além disso, algo que está presente em todo o seu trabalho é a capacidade conceptual que se mostra continuamente concisa. Aqui, pensar o movimento como um rizoma, uma potencialidade metafórica que nos leva ao elétrico, às ondulações aquáticas que se confundem com linhas nodais que desenham frequências, ao simbolismo da vida, à metafísica do amor e das nossas relações, à casa e à memória! Podemos inclusive compreender uma fluidez na reutilização / reformulação / ressignificação do seu próprio trabalho, que considero um gesto importantíssimo numa carreira artística. Mais do que importante, de risco até.
No fundo, Movo-me em tempo elétrico é isto de não se conhecer limites. Perdoem-me o clichê, mas é a forma de se estar no mundo, na vida, uma fonte que vai jorrar esta nossa expressão. O limite da arte é o limite da vida, porque ambas são a mesma coisa. Resta-me sugerir que se deixem ir, que não se sucumbam ao cinismo e o resto… virá! O lugar da arte é onde estão agora.
A exposição está patente no Sismógrafo, no Porto, até 7 de novembro de 2026.
1 Em alusão ao texto da artista.
2 Na folha de sala, palavras de André Tecedeiro, num bonito texto escrito a propósito da exposição.
3 Olga von Schubert, em “100 years of Now” and the temporality of Curatorial Research, debruça-se sobre as problemáticas atuais das exposições, sejam elas a solo ou em coletivo, alinhando-se fortemente com a crítica em torno do olho do espectador de Brian O’Doherty, por exemplo.