Mas, antes de irmos ao revelar desses pormenores, olhemos para o brilhante refinamento do trabalho da artista, um conjunto de vídeos gravados no ano de 2012 na Tate Britain e Tate Modern, mas só agora mostrados — exceptuando o filme Seems So Long Ago, Nancy —, por meio de uma lição de trabalho de montagem que é, continuamente, uma preocupação da artista em relação ao modo como exibe o seu trabalho. Tangente às qualidades de um gesto curatorial, Tatiana pensa as posições das imagens sob a lente de uma perspetiva site sensitive, o que a permite produzir não só um espetáculo visual incentivante, como uma continuação espacial a partir dos ecrãs que utiliza1, algo que acaba por diluir a linha separadora entre os lugares e traduzir uma certa dualidade das coisas, uma realidade e uma ficção dadas pelo corpo–câmara2 e pelo seu olhar.
Todo este lado ficcional elaborado pelo uso magistral da câmara e dos processos de pós–produção — não esquecendo todo o ímpeto dado por Tatiana — vai ser desestruturado, transformando as imagens da artista em relação em bruto. Daí, esta tal equação ficcional acaba por desaparecer e tudo se torna muito, muito real. No entanto, esta dita realidade não é dada de bandeja. Não é rapidamente que conseguimos perceber o que ali vislumbramos. Não são pinturas de uma brutal técnica, mas, antes, imagens que em si contêm movimentos muito ténues. Só que, bem mais do que isso, o que nelas está presente é toda uma anatomia museológica dada não só por algumas componentes arquiteturais, mas por aquilo que as fundamenta: as pessoas que trabalham na assistência de sala ou, como são apelidadas pela Tate, as Visitor Experience Assistants. Com mãos acariciando o passar do tempo, pés a baloiçar erraticamente e reflexos um pouco mais distantes do agora, somos importantemente recordados de que os ponteiros se desligam do relógio quando a atenção pede por si própria. O tal radicalismo.
É isto que Tatiana Macedo deseja para todo o seu trabalho, uma paragem dilatada, mas que aqui, em Radical Gestures, se torna sobretudo evidente. Se o trabalho dos assistentes de sala é exatamente esse, o da atenção (se bem que uma atenção estranha…), então nós, enquanto visitantes, somos colocados tanto frente a frente como nessa mesma posição. E é em Seems So Long Ago, Nancy — cujo título oriunda de uma música de Leonard Cohen que teria permanecido na cabeça de um assistente de sala da Tate3 — que encontramos o epítome disso. Pelos planos que nos fixam o olhar a algo durante algum tempo, somos inesperadamente confrontados, numa quebra da chamada 4.ª parede cinemática, por um olhar nos olhos de uma das assistentes de sala filmada.
Tal sensação não vos quero descrever, pois tenho receio de romper com alguma autenticidade na vossa experiência… Digo isto porque, neste projeto, a artista (ainda que não fosse a sua intenção primordial) foi capaz de trazer para cima da mesa um leque de problemáticas que, na minha singela opinião, requerem iminentes soluções. Tendo já trabalhado como assistente de sala em instituições culturais portuguesas, esta exposição fez-me sentir visto e, um pouco mais além, fez-me sentir que esta é uma ótima premissa para a denúncia dos problemas de atenção que assombram os espaços museológicos. Aqui, a atenção faz totalmente parte do vocabulário das políticas de cuidado e, sobretudo, de autocuidado, que faltam aos museus para com as pessoas que os fazem funcionar diariamente. Não nos podemos esquecer que estes lugares são, igualmente, locais de trabalho e, nesse sentido, necessitam de ser pensados como tal. Nesta exposição, não encontramos a resposta para tais problemas, mas um dos seus possíveis pontos de partida. De novo com Seems So Long Ago, Nancy, um dos últimos planos é o exterior do museu. Juntamente com o maravilhoso janelão da Rialto6, o filme parece construir a direção para onde a solução deve olhar. Um lá para fora, uma atenção redobrada que vai, certamente, curar o vírus que por aqui anda…
Este era um texto que merecia uma maior extensão e um aprofundar muito mais claro, mas resta-me deixar o convite a todos os que trabalham ou trabalharam como assistentes de sala a virem ver este projeto, a sentirem a sua própria existência e a encontrarem uma força crítica que não se deixa cair.
Radical Gestures, de Tatiana Macedo, está patente na Rialto6 até dia 3 de outubro, com vários screenings de filmes de sua autoria.
1 A coloração dos vídeos, sobretudo olhando para as paredes dos lugares gravados, assemelha-se à cor das paredes do espaço da Rialto6, que foi aproveitada da exposição anterior — um desafio igualmente interessante.
2 Da folha de sala, num texto exímio de Manuel Bogalheiro.
3 Curiosamente, o trocadilho faz-se sozinho. O título do álbum onde esta faixa se encontra é Songs from a Room.
4 Os visitantes estão também englobados na carência de cuidado. Bem como as restantes equipas, sejam elas as de limpeza, de segurança ou outras.