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Firme sopro: Mingyu Wu na Galeria da Boavista
DATA
26 Mar 2026
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AUTOR
Diogo E S Dietl
“As esculturas de Mingyu Wu nasceram desatadas do tempo, existem para lá do momento da sua edificação. Angulares ou orgânicos, repetidos e simétricos, identificamos os elementos e gestos que as moldaram, porém os resultados parecem quase adjacentes ao mundo dos ideais platónicos. Como propostas primordiais da medula cósmica, de monumentalidade fulgurante, a solidez da sua certeza elementar e maciça reflecte-se nos plintos que as fundeiam.”
A impressão inicial é de robustez e proeminência. No piso térreo da Galeria da Boavista, em subtil aprumo espacial, seis torres (chamemos-lhes assim por ora, respeitando o ponto do qual o pensamento se lança) enraizam-se à nossa frente. Ainda antes de uma coreografia íntima se iniciar, os olhos deslizam pela sala ao encontro de cada uma das peças de Mingyu Wu, uma sequência de fortalezas plasticamente distintas porém indivisas na intenção. Movemo-nos sobre todas e uma, entre elas, à sua volta, e vão-nos sugerindo referências, vivências - Karnak, De Chirico, um órgão tubular a tocar drone, Combine Citadel, Arnold Böcklin, Rocamadour, ... E quando o apetite por seguir tais vagas parece estar a tornar-se irresistível, tudo desmorona irrecusavelmente.
A miríade de pensamentos que como flechas voam pelo ar à medida que observamos e indagamos são absorvidos sem réplica pelas estruturas que os inspiram. A intransigência não emana de frieza ao diálogo e sim de um dissenso quanto ao assunto. Diferentes planos de reflexão. Axiomático chama-se cada um dos postulados em grés que a artista afirmou no espaço em aberto. Na análise matemática, o rigor imperativo aos axiomas usados para definir as bases do cálculo está na linguagem pobre. Da máxima renúncia irrompe a evidência. Na galeria, não tendo a transparência de uma verdade científica, as formas sinalizam exactidão restrita e certeira. A rasar os limites das suas propriedades estruturais, tendo cumprido a dureza impiedosa da técnica de produção, estas cerâmicas precipitam-se com uma fina brisa de comoção. A sinergia que irradia é de bálsamo em desalento, por entre faróis de consolo que guardam um abismo, fustigados e firmes.
As esculturas de Mingyu Wu nasceram desatadas do tempo, existem para lá do momento da sua edificação. Angulares ou orgânicos, repetidos e simétricos, identificamos os elementos e gestos que as moldaram, porém os resultados parecem quase adjacentes ao mundo dos ideais platónicos. Como propostas primordiais da medula cósmica, de monumentalidade fulgurante, a solidez da sua certeza elementar e maciça reflecte-se nos plintos que as fundeiam. Contrariando-as de novo, imaginamos o ponto de encontro do quilómetro vertical de Walter De Maria com a torre sempre-em-potência-e-ainda-assim-completa de Vladimir Tatlin. Reconhecemo-nos mínimos à sua sombra e entendemos que, neste volume, a sua dimensão já é total.
Mais do que meras iterações sobre uma fórmula, cada obra é absolutamente individualizada. Partilhando os termos primitivos, todas são o seu próprio enunciado, uma fracção plena da teoria em cada momento endurecida.
Subimos as escadas e descobrimos Plataforma, uma série de peças em porcelana. Se dentro das impérvias torres existissem cidades invisíveis estes poderiam ser os seus despojos, o que ficou aquando do refúgio. O clima é de circunspecção e o silêncio tem outro peso. Alumiadas como num sonho, humildemente pedem que nos ajoelhemos. Se antes a cronologia é transposta, agora ficou suspensa. Neste terreno árido, o caos não se mostra mas está, incisivo na sua indiferença.
Junto a nós, no chão, cobertores por desenrolar subsistem para lá do aparente suprimir da função. Não agasalham, não amparam numa calamidade, contudo permanecem, e assim se reformulam. A conversão da trama nesta matéria perpétua dá-lhes uma textura reminiscente da mais quotidiana e salvífica substância, o pão. Esculpidas por cordas e nós que as cingem num abraço quebradiço e infindável, as mantas transportam consigo um outro alento. Sem mesmo pelas inúmeras fendas e chagas escapar, conservam nas entranhas a chama intolerável que as destinou ao horizonte além, num atrevimento de sobrevivência. O Universo arrefece, a hecatombe alastra, as vozes calam-se, e o calor da cratera perdura.
«Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres.»1
Descemos as escadas. A fazer a ligação entre os dois núcleos, uma fotografia velada a ferrugem retrata um fragmento de tijolo, destroço de um forno de barro tornado do olvido à luz. A ruína resgatada deixa a olaria desaparecida entre a vida e o vácuo. As vozes vibram. Uma aragem (brevemente) petrificada, em resignação digna e imperturbável.
Questões Celestiais 天問, de Mingyu Wu, com curadoria de Sara Antónia Matos e Pedro Faro, está patente na Galeria da Boavista até 26 de Abril.
[1] Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (2ª ed.), Livraria Morais Editora, 1964
BIOGRAFIA
Diogo ES Dietl, licenciado em História pela Universidade Nova de Lisboa, acompanha a criação artística contemporânea desde 2012, atuando ocasionalmente nas suas margens através da escrita, assessoria, divulgação, produção e co-curadoria.
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