Começando pelo piso 0, a exposição promete iniciar um projeto, intitulado Comissões. A iniciativa visa convidar múltiplos artistas portugueses de diferentes gerações a produzir obras inéditas. Nesta primeira edição, o contraste entre práticas é evidente. Organizadas de forma ordenada no corredor, encontramos, no início, a peça de Catarina Miranda, Pássaro Sol, que ramifica a sua atual exploração dos mecanismos de perceção e ilusão através da conjugação de luz, projeção e estruturas em fibra de vidro. No final, a peça é a de Mariya Nesvyetaylo, Observatório, que constrói, no interior de Cúpula, onde podemos entrar, uma série de tapeçarias, convocando o contexto cultural que o suporte carrega, aproximando-se da funcionalidade e do coletivo. As peças de ambas as artistas são acompanhadas de composições sonoras e constroem, nos pólos da exposição, dois momentos imersivos que levantam a intenção de explorar imaginários surreais. Por outro lado, e contrastando com estas duas abordagens, as intervenções dos restantes artistas denotam preocupações variadas. Por exemplo, Mauro Cerqueira apresenta uma série de desenhos íntimos e intuitivos que intitula Muitas línguas, centrada no trabalho de exploração desenvolvido pelo artista a propósito da produção do seu próximo filme, dedicado ao realizador Rainer Werner Fassbinder. Sara Graça apresenta Kiki, um filme com cerca de 1 hora, onde propõe uma realização coletiva, em conjunto com seis outros artistas, que, através de uma narrativa central que a delimita, se desenvolve de forma autónoma. Apesar das personagens comuns a toda a narrativa, as suas concretizações e explorações ramificam-se nas diversas abordagens que diluem a autoria da obra. Por fim, Joana Escoval apresenta O pH das lágrimas, onde fragmenta um livro nunca publicado pelo espaço e onde a aliança minimalista entre a poesia e o som torna o vazio um lugar de perceção e de reflexão cósmica.
Contrariamente ao piso 0, que, nas suas grandes dimensões, alberga uma variedade de práticas, no piso -1 encontramos, de forma condensada, o trabalho de Eunice Pais, com uma exposição que apresenta um vídeo e uma instalação composta por esculturas e uma paisagem sonora. Rosa / Zita: Um Espaço Liminar, um vídeo com cerca de 17 minutos, centra-se na jornada da sua mãe, enquanto legado que a artista carrega e que, a par de um oceano em constante movimento, compõe o tema central da exposição. No interior desta massa aparentemente uniforme, surgem latentes formas de resistência e de intervenção, que a artista encontra não só no mar, mas na sua mãe e nos territórios que percorreu. Neste sentido, Do Mar de Sargaço apresenta a sua reflexão, dando protagonismo ao sargaço e à sua resistência perante as intervenções cada vez mais destruidoras do humano perante o espaço natural.
Para o piso 1, Silvestre Pestana desenhou uma instalação de painéis LED que, através da sua referência tanto tecnológica quanto pop, atravessa e corta o espaço da galeria através de vetores e palavras. Lemos palavras soltas – “noite”, “lua”, “poema”, etc. – sem relação aparente. Deste modo, se o LED surge como um claro modelo da ubiquidade tecnológica que, rizomaticamente, produz o sujeito contemporâneo, estes painéis comportam signos (linguísticos, mas não só) que, na sua dispersão, recusam uma significação coerente ou pré-estabelecida. Ao invés disso, formam-se potencialidades de assimilação num espaço onde o signo tanto enche quanto dispersa e para o qual a tecnologia é tanto intervenção do humano no mundo, como retribuição espelhada do mundo no humano. É um colapso, que dá nome à exposição, tanto material quanto simbólico, constituindo o maior desafio perante a necessidade de dar qualquer sentido a um mundo cheio de LEDs e palavras.
Comissões #1 e Pele do Mar, de Eunice Pais, estão patentes até dia 14 de junho. A exposição Colapso, de Silvestre Pestana, pode ser visitada até dia 26 de junho. Mais informações sobre a programação da Galeria Municipal do Porto disponíveis aqui.