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Zapping: Televisão como Cultura e Contracultura
DATA
07 Abr 2026
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AUTOR
Mariana Machado
Estendendo-se por quatro espaços ao longo de diferentes momentos, o projeto Zapping: Televisão como cultura e contracultura visa o desenvolvimento expositivo de reflexões em torno da televisão, onde o seu uso se ramifica paralelamente nos discursos culturais e contraculturais.
Neste momento, o projeto ocupa as duas galerias do gnration, em Braga, e parte do Centro de Arte Oliva, em S. João da Madeira, tendo também já passado pelo CAAA em Guimarães e estando ainda reservado um momento expositivo no MACE, em Elvas, com inauguração dia 23 de maio. A curadoria é assinada por Paula Pinto, Alexandra Areia, Joaquim Moreno e Vera Carmo e o título do projeto aponta, desde logo, para a linha tomada de ramificar o meio da televisão no seu papel - aqui denominado de cultural – enquanto meio de comunicação e informação, nomeadamente nos anos 70, e enquanto material de exploração artística – aqui denominado de contracultura. Assim, é este constante encontro entre emissões televisivas aqui reapresentadas e objetos artísticos que encontramos lado a lado ao longo dos cinco núcleos que estruturam a exposição – Fronteira, Resolução, Receção, Cor e Memória.
Referenciando diretamente no jornal que acompanha o projeto Marshall McLuhan e o seu famoso dito que “o meio é a mensagem”, o projeto, através da larga escala que comporta, ramifica precisamente as reorganizações afetivas e estruturais introduzidas pelo dispositivo independentemente do conteúdo que apresenta. Ou seja, nas palavras de McLuhan, “as consequências pessoais e sociais de qualquer meio – ou seja, de qualquer extensão de nós próprios – resultam da nova escala introduzida nos assuntos humanos por cada extensão de nós próprios, por qualquer nova tecnologia.”1 É neste sentido que a televisão surge aqui como potencial de estruturação de relações. Assim, no Centro de Arte Oliva, encontramos desdobrada, nos núcleos já enunciados, a reapresentação de diversas emissões representativas do papel cultural da televisão, um instrumento que serviu tanto como controlo e propaganda do regime totalitário como para a construção democrática. Por outro lado, encontramos também trabalhos de artistas como Ângela Ferreira, Alexandre Estrela e Nam June Paik, entre muitos outros, onde esta estrutura se torna precisamente material exploratório e crítico. Neste sentido, a relação entre o papel do artista e as dinâmicas sociais e tecnológicas que lhe são contemporâneas surgem evidenciadas pela forma como é este, acima de tudo, que enfrenta, critica e dialoga com as dinâmicas sensoriais mais abrangentes: “Os efeitos da tecnologia não ocorrem ao nível das opiniões ou dos conceitos; o que eles fazem é alterar, de um modo contínuo e irresistível, os ritmos sensoriais ou os padrões de perceção. O artista sério é a única pessoa capaz de enfrentar impunemente a tecnologia, e por isso ser um perito, alguém consciente das alterações na forma como apreendemos sensorialmente o mundo.”2
Um trabalho com particular destaque, associado ao núcleo Cor, é o apresentado por Mariana Vilanova, Percepções de Verde, que, além de ocupar parte da exposição no Centro de Arte Oliva, foi apresentado numa versão maior no CAAA. Através da cor verde, representativa ao mesmo tempo do mundo vegetal e do chroma key, o trabalho organiza-se em dois vídeos. Um deles apresenta um conta-gotas digital que procura o verde específico do chroma key até se tornar uma imagem unicamente composta por esse tom. O outro à imagem igualmente verde acrescenta o som de um programa sobre ecologia que, embora emitido em 1972, é reapropriado como permanecendo atual.
Já no gnration, podemos ver distribuídos pelas duas galerias trabalhos do artista Antoni Muntadas. Na galeria um, vemos Confrontations T.V., composta por uma série de vídeos que retratam atividades entre 1973 e 1974, durante a ditadura espanhola, onde comparam o quotidiano de diferentes ruas de Nova Iorque, diferentes emissões televisivas do dia 27 de fevereiro de 1974 às 13:00 e diferentes capas de jornais do mesmo dia de diferentes países. Na galeria zero, vemos “La Televisión” e “TVE: First Attempt”, exemplos do trabalho crítico do artista aos mecanismos de manipulação da televisão e à passividade dos espetadores, representativos das dinâmicas humanas contemporâneas. Como mais uma vez escreve McLuhan, agora sobre a televisão em específico, esta “é um meio que rejeita as personalidades demasiado definidas e que favorece mais a apresentação de processos do que a de produtos. A adaptação da televisão aos processos, em vez de produtos impecavelmente embalados, explica a frustração que muita gente sente relativamente às utilizações políticas deste meio.”3 É este mecanismo, representativo da dinâmica processual, que só se tornaria ainda mais evidente nas décadas seguintes e com tecnologias ainda mais rápidas e fluidas, que se torna subvertido nesta prática. A exposição constantemente coloca-o ao mesmo tempo como mecanismo que estabelece esta normatividade e como ferramenta utilizada para a subverter.
Com curadoria de Paula Parente Pinto, Alexandra Areias, Joaquim Moreno e Vera Carmo, a exposição pode ser visitada até dia 28 de junho de 2026.
1 Marshall McLuhan, Compreender os Meios de Comunicação, p. 21
2 Marshall McLuhan, Compreender os Meios de Comunicação, p. 31
3 Marshall McLuhan, Compreender os Meios de Comunicação, p. 312
BIOGRAFIA
Mariana Machado (2000) nasceu no Porto e estudou Cinema na Escola das Artes - Universidade Católica Portuguesa. Neste momento, frequenta o Mestrado em Artes Digitais e Sonoras, também na Escola das Artes. É artista e investigadora, interessando-se acima de tudo por manifestações que articulem a imagem em movimento num contexto entre o cinema e a arte contemporânea, assim como pelas potencialidades artísticas de novas tecnologias e suas articulações com outras materialidades.
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