Na adolescência, adorava decorar as paredes do meu quarto com posters de estrelas pop, fotografias minhas, da minha família e dos meus amigos e postais de museus que colecionava. Um desses postais, que acabou ao lado da minha cama (e que eu, consequentemente, passava muito tempo a olhar para ele), tinha a famosa citação de Samuel Beckett: “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.” Nessa época, desconhecia por completo como este lema seria absorvido pelo sistema de crenças capitalista, no qual o fracasso é visto apenas como um percalço irritante, mas instrutivo, no caminho para o sucesso. Em vez disso, sentia-me intrigada pelo poder que o próprio fracasso pode exercer – pela sua natureza ambígua, capaz de conter tanto a deceção como a beleza e de permitir que o significado emerja do imprevisto.
De certa forma, a exposição coletiva na OSTRA practice, Bons Sonhos, surgiu a partir de um momento de tal “fracasso”. Inicialmente, Bartolomeu Santos, artista e fundador da OSTRA, havia planeado exposições individuais no espaço para Jennifer Bennett, Tim Cierpiszewski, Colin Ginks e Rodrigo Rosa. Este plano nunca se concretizou e transformou-se numa nova proposta apoiada pelos artistas: colocar em diálogo as suas quatro práticas, procurando manter algumas das ideias originais que tinham para as exposições individuais. A palavra escolhida para nortear a exposição, no entanto, não foi fracasso, mas sim sonhos – outra forma de descrever algo imaginado, mas não totalmente concretizado. Segundo Bartolomeu, sentiu-se particularmente atraído pela capacidade de os sonhos persistirem: “Quer dizer, como se destrói um sonho? Se já estamos a sonhar, nunca o poderemos destruir, porque ainda está na mente e haverá sempre fragmentos do sonho que persistem.”
Mais do que algo vivenciado durante o sono, um sonho refere-se aqui a um pensamento conscientemente concebido, talvez até nascido de um devaneio. No seu texto sobre a investigação artística e a relação entre conhecimento e arte, a curadora e historiadora de arte Chus Martínez revisita o pensamento de Gaston Bachelard sobre o devaneio1. Aqui, esta prática é entendida como um modo que permite ao pensamento oscilar entre diferentes lógicas, mantendo-se radicalmente aberto ao que ainda não existe, constituindo, assim, um espaço constitutivo que abre espaço para pensar para além deste mundo e construir novos. Para Martínez, a arte opera neste domínio de incerteza produtiva, marcado por “uma constante troca mediante diferentes sistemas que oscilam entre o abstrato e o concreto”2, sendo o devaneio uma das suas operações essenciais.
Os objetos da série Fragile Balance Games (2025–2026) de Jennifer Bennett exploram o barro e a sua diversidade enquanto material. Para Bennett, não existem duas argilas iguais, pois cada uma reflete a composição única do solo da sua origem. As esculturas lúdicas apresentadas em Bons Sonhos são feitas de barro não cozido encontrado na região de Penacova, onde a artista reside atualmente. Estes objetos são também, como a artista os define, metamórficos e nunca estáticos, uma vez que os seus elementos podem ser facilmente remontados em novas formas aleatórias.
A investigação artística de Tim Cierpiszewski centra-se na produção de imagens e no trabalho com arquivos de imagens gerados digitalmente, que servem de matéria-prima para as suas pinturas e instalações. Ao mesmo tempo, a sua obra é sempre sensível ao local: interage com o espaço expositivo, tanto conceptual como fisicamente. Por exemplo, no âmbito da pesquisa para a sua nova obra Sem Título (2025), concebida para a exposição na OSTRA, foi necessário realizar um novo levantamento do espaço, deixando esse processo intervir na superfície da obra.
O díptico fotográfico Sem Título (2026), de Rodrigo Rosa, apresenta dois grandes planos de estruturas industriais urbanas – blocos de betão pareidólico marcados por salpicos laranja. Estas imagens surgiram de um encontro acidental ocorrido há cinco anos. Como o artista recorda, nesse período estava focado no uso do cor-de-laranja nas suas pinturas, pelo que estes objetos chamaram naturalmente a sua atenção. Em Bons Sonhos, Rodrigo Rosa aborda estas imagens de uma nova forma. Redescobertas pelo artista enquanto revisitava o seu arquivo numa tentativa mais ampla de o recontextualizar, aparecem agora situadas dentro da sua pesquisa contínua sobre o modo como a presença humana deixa vestígios na paisagem urbana.
Os projetos de Colin Ginks baseiam-se num arquivo pessoal de memórias e experiências que alimentam a sua prática multidisciplinar. Para a exposição na OSTRA, criou um mural site-specific de quatro metros de comprimento, em papel, no qual incorpora objetos encontrados, desenhos, colagens e textos, numa narrativa não linear, mas interligada. Respondendo ao conceito da exposição, abraçou o devaneio como um processo artístico, para deixar a sua imaginação “correr” e ver “onde ela o levava”, encontrando escuridão, poesia e algum simbolismo ambíguo durante o percurso. Ginks descreve a sua prática como um desejo de romper com o esperado e o familiar, um princípio que se manifesta nos fundamentos da sua prática e nas decisões artísticas imediatas, como uma flor que escapa do rolo de papel e se estende na parede acima.
A abordagem espacial em Bons Sonhos não foi isenta do espírito de incerteza e acaso que perpassa o conceito da exposição e as propostas artísticas individuais. Para escolher a cor da parede, Bartolomeu Santos convidou cada participante a partilhar a sua preferência. Em vez de selecionar uma única cor ou atribuir um tom diferente a cada parede, misturou discretamente todas elas numa só e pintou todo o espaço com a mistura resultante. Esta experiência produziu um amarelo profundo e agradável, mas poderia igualmente ter resultado numa cor menos atraente. Seria então considerado um fracasso? Possivelmente, mas talvez não importasse – harmonioso ou dissonante, o gesto manter-se-ia como uma experiência produtiva e um testemunho do salto de fé essencial para sonhar acordado, praticar o comum e criar um espaço partilhado dentro de uma exposição coletiva.
A exposição Bons Sonhos pode ser visitada mediante marcação até 4 de agosto, na OSTRA practice.
1 Chus Martínez, The Complex Answer: On Art as a Nonbinary Intelligence (London: Sternberg Press, 2023), pp. 69–70.
2 Ibid., p. 69.