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Bons Sonhos, na OSTRA practice
DATA
29 Jul 2026
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AUTOR
Katya Savchenko
“Embora ‘Bons Sonhos’ apresente práticas artísticas muito diferentes, que poderiam ter sido reunidas segundo um exercício de “e se”, em vez de uma narrativa rigorosamente construída, parecem, no entanto, ter muito em comum, incluindo o interesse em construir e revisitar arquivos (entendidos aqui no sentido mais amplo possível), bem como uma atenção cuidadosa à realidade material imediata, que permite espaço para acidentes e encontros fortuitos.”
Na adolescência, adorava decorar as paredes do meu quarto com posters de estrelas pop, fotografias minhas, da minha família e dos meus amigos e postais de museus que colecionava. Um desses postais, que acabou ao lado da minha cama (e que eu, consequentemente, passava muito tempo a olhar para ele), tinha a famosa citação de Samuel Beckett: “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.” Nessa época, desconhecia por completo como este lema seria absorvido pelo sistema de crenças capitalista, no qual o fracasso é visto apenas como um percalço irritante, mas instrutivo, no caminho para o sucesso. Em vez disso, sentia-me intrigada pelo poder que o próprio fracasso pode exercer – pela sua natureza ambígua, capaz de conter tanto a deceção como a beleza e de permitir que o significado emerja do imprevisto.
De certa forma, a exposição coletiva na OSTRA practice, Bons Sonhos, surgiu a partir de um momento de tal “fracasso”. Inicialmente, Bartolomeu Santos, artista e fundador da OSTRA, havia planeado exposições individuais no espaço para Jennifer Bennett, Tim Cierpiszewski, Colin Ginks e Rodrigo Rosa. Este plano nunca se concretizou e transformou-se numa nova proposta apoiada pelos artistas: colocar em diálogo as suas quatro práticas, procurando manter algumas das ideias originais que tinham para as exposições individuais. A palavra escolhida para nortear a exposição, no entanto, não foi fracasso, mas sim sonhos – outra forma de descrever algo imaginado, mas não totalmente concretizado. Segundo Bartolomeu, sentiu-se particularmente atraído pela capacidade de os sonhos persistirem: “Quer dizer, como se destrói um sonho? Se já estamos a sonhar, nunca o poderemos destruir, porque ainda está na mente e haverá sempre fragmentos do sonho que persistem.”
Mais do que algo vivenciado durante o sono, um sonho refere-se aqui a um pensamento conscientemente concebido, talvez até nascido de um devaneio. No seu texto sobre a investigação artística e a relação entre conhecimento e arte, a curadora e historiadora de arte Chus Martínez revisita o pensamento de Gaston Bachelard sobre o devaneio1. Aqui, esta prática é entendida como um modo que permite ao pensamento oscilar entre diferentes lógicas, mantendo-se radicalmente aberto ao que ainda não existe, constituindo, assim, um espaço constitutivo que abre espaço para pensar para além deste mundo e construir novos. Para Martínez, a arte opera neste domínio de incerteza produtiva, marcado por “uma constante troca mediante diferentes sistemas que oscilam entre o abstrato e o concreto”2, sendo o devaneio uma das suas operações essenciais.
Os objetos da série Fragile Balance Games (2025–2026) de Jennifer Bennett exploram o barro e a sua diversidade enquanto material. Para Bennett, não existem duas argilas iguais, pois cada uma reflete a composição única do solo da sua origem. As esculturas lúdicas apresentadas em Bons Sonhos são feitas de barro não cozido encontrado na região de Penacova, onde a artista reside atualmente. Estes objetos são também, como a artista os define, metamórficos e nunca estáticos, uma vez que os seus elementos podem ser facilmente remontados em novas formas aleatórias.
A investigação artística de Tim Cierpiszewski centra-se na produção de imagens e no trabalho com arquivos de imagens gerados digitalmente, que servem de matéria-prima para as suas pinturas e instalações. Ao mesmo tempo, a sua obra é sempre sensível ao local: interage com o espaço expositivo, tanto conceptual como fisicamente. Por exemplo, no âmbito da pesquisa para a sua nova obra Sem Título (2025), concebida para a exposição na OSTRA, foi necessário realizar um novo levantamento do espaço, deixando esse processo intervir na superfície da obra.
O díptico fotográfico Sem Título (2026), de Rodrigo Rosa, apresenta dois grandes planos de estruturas industriais urbanas – blocos de betão pareidólico marcados por salpicos laranja. Estas imagens surgiram de um encontro acidental ocorrido há cinco anos. Como o artista recorda, nesse período estava focado no uso do cor-de-laranja nas suas pinturas, pelo que estes objetos chamaram naturalmente a sua atenção. Em Bons Sonhos, Rodrigo Rosa aborda estas imagens de uma nova forma. Redescobertas pelo artista enquanto revisitava o seu arquivo numa tentativa mais ampla de o recontextualizar, aparecem agora situadas dentro da sua pesquisa contínua sobre o modo como a presença humana deixa vestígios na paisagem urbana.
Os projetos de Colin Ginks baseiam-se num arquivo pessoal de memórias e experiências que alimentam a sua prática multidisciplinar. Para a exposição na OSTRA, criou um mural site-specific de quatro metros de comprimento, em papel, no qual incorpora objetos encontrados, desenhos, colagens e textos, numa narrativa não linear, mas interligada. Respondendo ao conceito da exposição, abraçou o devaneio como um processo artístico, para deixar a sua imaginação “correr” e ver “onde ela o levava”, encontrando escuridão, poesia e algum simbolismo ambíguo durante o percurso. Ginks descreve a sua prática como um desejo de romper com o esperado e o familiar, um princípio que se manifesta nos fundamentos da sua prática e nas decisões artísticas imediatas, como uma flor que escapa do rolo de papel e se estende na parede acima.
A abordagem espacial em Bons Sonhos não foi isenta do espírito de incerteza e acaso que perpassa o conceito da exposição e as propostas artísticas individuais. Para escolher a cor da parede, Bartolomeu Santos convidou cada participante a partilhar a sua preferência. Em vez de selecionar uma única cor ou atribuir um tom diferente a cada parede, misturou discretamente todas elas numa só e pintou todo o espaço com a mistura resultante. Esta experiência produziu um amarelo profundo e agradável, mas poderia igualmente ter resultado numa cor menos atraente. Seria então considerado um fracasso? Possivelmente, mas talvez não importasse – harmonioso ou dissonante, o gesto manter-se-ia como uma experiência produtiva e um testemunho do salto de fé essencial para sonhar acordado, praticar o comum e criar um espaço partilhado dentro de uma exposição coletiva.
A exposição Bons Sonhos pode ser visitada mediante marcação até 4 de agosto, na OSTRA practice.

1 Chus Martínez, The Complex Answer: On Art as a Nonbinary Intelligence (London: Sternberg Press, 2023), pp. 69–70.
2 Ibid., p. 69.
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