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O Eco das Palavras Mudas…as imagens que gritam
DATA
06 Mar 2026
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AUTOR
Maria Inês Augusto
A exposição O Eco das Palavras Mudas, que reúne obras dos artistas Eduard Árbos e Fernando Prats, na Dialogue Gallery, submete imagem, vestígio e palavra a uma prova de resistência. Trata-se de uma convergência fundada numa cumplicidade antiga e numa partilha de inquietações formais e políticas que erguem um lugar de ressonância, um meio por onde se propagam e se transformam mutuamente. Não se trata de um espelhamento entre práticas, mas de uma reverberação. Como num eco, cada gesto desloca o outro, prolonga-o, altera-o, contamina-o. A exposição, com curadoria de João Silvério, nasce dessa amizade e desse diálogo prévio, em que os artistas, embora não produzam obras em conjunto, constroem um campo comum.
O título enuncia, desde o início, uma inquietação constitutiva: o eco do que é mudo, a reverberação de uma palavra que não se pronuncia. Juntos sugerem a concepção de uma linguagem enquanto vestígio de um pensamento silencioso, interno, que se estende pelo espaço e pelo tempo. Essa ideia atravessa toda a exposição como estrutura invisível, como se uma linha unisse todas as obras, tornando-as dependentes umas das outras, como um sistema nervoso, onde cada peça contém a memória da outra. Em Eduard Árbos, essa problemática adquire uma materialidade singular. A frase “Nothing to See beyond the line”, convertida em braille e inscrita na parede através de perfurações realizadas durante a inauguração, introduz uma inflexão no regime habitual da percepção. A escrita, tradicionalmente vinculada à visibilidade gráfica, é aqui tornada táctil e, ao mesmo tempo, tornada ilegível para a maioria dos espectadores. Quem pode ler não vê; quem vê, pode não conseguir ler. A parede, pintada de preto, converte-se em superfície onde a linguagem se inscreve por subtração de matéria, expondo a fragilidade da visão enquanto garantia de conhecimento. A experiência pessoal do artista perante a ameaça de perda de visão confere uma densidade adicional, tornando a questão ainda mais ampla — que estatuto tem o visível quando o seu acesso é contingente? Até que ponto aquilo que vemos coincide com aquilo que a imagem efectivamente nos dá a compreender?
A própria linha evocada no enunciado funciona como limite e horizonte. Aquilo que parece marcar o fim da visibilidade, ou limitá-la, abre, paradoxalmente, um campo de pensamento para além dela.
O seu trabalho parte de uma componente gráfica e visual rigorosa, onde cada elemento é pensado como parte de uma arquitectura visual coerente. A prática artística desenvolve-se a partir de um diálogo contínuo com várias referências. Imagens cinematográficas, fragmentos visuais, tornam-se matéria crítica, arquivo de atmosferas e inquietações que o artista reconfigura no espaço estático do papel. Ao extrair fotogramas do fluxo narrativo do cinema e ao reinscrevê-los no desenho, descontextualiza-os e permite que novas camadas de sentido se sedimentem. Adivinham-se narrativas possíveis, temporalidades suspensas, estados de consciência, promessas. São imagens que parecem conter o antes e depois.
O artista inscreve também, na sua obra, uma consciência biopolítica subtil, um horizonte instável, uma esperança adiada, negada até, talvez, para alguns. Fala-nos da complexidade do futuro, da persistência como possibilidade e da dificuldade de continuar, explorada também no vídeo que apresenta no primeiro andar da galeria — Crossing (2025). Aqui, a travessia solitária da ponte, filmada ao amanhecer, parece inicialmente destinada a captar apenas a estrutura arquitectónica, contudo, a presença inesperada de uma figura que cruza o enquadramento torna-se decisiva. Essa passagem, breve e indiferente, introduz a dimensão do corpo e levanta a questão de que o futuro não é igualmente acessível a todos, que a travessia não é igual, convertendo-se, assim, em metáfora discreta de uma fractura social onde os destinos se distribuem de forma desigual.
Fernando Prats, por sua vez, aborda questões análogas a partir de uma materialidade distinta. Na performance De obscuridade en obscuridade (2026), realizada também na inauguração, diante da obra de Eduard Árbos, inscreve formas no fumo depositado em vidro através do movimento do corpo, da boca e da saliva. O gesto, quase ritualístico, adquire uma dimensão mágica. Ao imprimir, fixar e fazer emergir, o artista instaura uma reflexão sobre a instabilidade da matéria e da memória, convocando uma experiência que atravessa os sentidos e a própria linguagem. O fumo — tradicionalmente associado à combustão e à destruição — converte-se, aqui em possibilidade de vestígio. Utilizado pelo artista há décadas como uma espécie de material pictórico, o fumo sedimenta-se em camadas, pode desaparecer ao toque e transporta uma carga simbólica ligada à catástrofe e à ascensão. Aqui a inscrição torna-se gesto limite, tentativa de dar forma ao que excede qualquer representação.
Os “Mapas mudos” aprofundam a investigação em torno do sentido ao deslocar a cartografia do seu estatuto descritivo para um campo de disputa simbólica. Ao escavar fotografias e mapas, o artista transforma-os pela perfuração. Contornos interrompidos, vazios que rasgam a aparente neutralidade da representação, tornam-se imagens que gritam, que evocam a violência política, a impossibilidade de qualquer representação fixar a totalidade do real. O papel perfurado converte-se em pele sobre a qual se depositam camadas de fuligem, de tragédia, de geografias marcadas por conflitos, mas que, ao mesmo tempo, parece resgatar a ancestralidade, a força e a dimensão quase mística dos territórios. Lembra-nos que há alguma coisa que permanece, que persiste para além da destruição. Estes mapas, longe de serem neutros, remetem para contextos históricos concretos — como o golpe de Estado no Chile e as derivas autoritárias na América Latina — e transformam a cartografia em memória ferida, em cartografia geopolítica e poética onde fronteira, deslocamento e violência se inscrevem como cicatriz.
No vídeo que documenta a acção em Chaitén — Acción Chaitén, 21. Sismografía de Chile (2009) —, a casa soterrada e deslocada parece surgir como metáfora de uma identidade arrancada do seu lugar de origem. Sobre o telhado parcialmente enterrado, o artista escala a estrutura instável para inscrever um gesto que me parece de resistência. A paisagem converte-se em arquivo de trauma, território marcado pela violência natural que relembra a precariedade humana. O horizonte, vasto e aparentemente indiferente, confronta-nos com a fragilidade da condição humana diante de forças que excedem qualquer controlo político. A casa transforma-se numa espécie de memorial involuntário de uma comunidade forçada à deslocação e o gesto torna visível a memória da catástrofe e a dignidade de quem perdeu o que conhecia.
Apesar da diversidade de meios — perfuração, grafite, fumo, vídeo —, ambos os artistas convergem numa prática assente na relação intensificada com a superfície enquanto lugar de inscrição, de confronto, de construção de camadas. Ambos se reconhecem como pintores, ainda que operem para além do suporte tradicional. A pintura expande-se para a parede, para o vidro enegrecido pelo fumo, para o papel escavado, para o corpo em acção. Trabalham tanto por adição quanto por subtração, pela retirada de matéria, pelo gesto que inscreve e escava. Em ambos os casos, a superfície torna-se campo de pensamento crítico, onde são explorados os regimes de visibilidade. Ao desarticularem a associação imediata entre ver e compreender, convocam o reconhecimento dos limites da própria percepção, da própria linguagem.
Num contexto histórico atravessado por censuras explícitas e silenciamentos estruturais, conceber a possibilidade de uma palavra que subsiste como eco — mesmo quando impedida de se enunciar — é reconhecer a força do pensamento. Mesmo aquilo que pode não ser dito, ressoa, infiltra-se. E é nessa permanência subterrânea que a linguagem encontra a sua potência política. A palavra muda, a imagem que grita, afirmam-se como formas de resistência. O eco, longe de ser mera repetição, transforma-se em consciência — uma consciência que insiste, que se deposita em camadas, que persiste mesmo quando o horizonte parece fechado.
Como tornar sensível aquilo que tende a ser invisibilizado, aquilo que arde, aquilo que se afunda?
A exposição pode ser visitada até dia 21 de Março de 2026, na Dialogue Gallery.
BIOGRAFIA
Maria Inês Augusto, 34 anos, é licenciada em História da Arte. Passou pelo Museu de Arte Contemporânea (MNAC) na área dos Serviços Educativos como estagiária e trabalhou, durante 9 anos, no Palácio do Correio Velho como avaliadora e catalogadora de obras de arte e coleccionismo. Participou na Pós-Graduação de Mercados de Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa como professora convidada durante várias edições e colaborou, em 2023 com a BoCA - Bienal de Artes Contemporâneas. Desenvolve, actualmente, um projecto de Art Advisory e curadoria, colabora com o Teatro do Vestido em assistência de produção e tem vindo a produzir diferentes tipos de texto.
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