Importa saber, desde já, que não se trata apenas de uma mostra de natureza retrospectiva nem da apresentação de uma narrativa linear ou evolutiva - a proposta ultrapassa claramente esse enquadramento. Com curadoria de João Pinharanda, a exposição assume deliberadamente lacunas e descontinuidades, reflectindo a própria lógica interna do artista e o modo como o seu trabalho se estrutura através de reconfigurações sucessivas. Nesse sentido, a mostra configura-se como um campo de relações em permanente articulação, onde tensões - e, por vezes, aproximações inesperadas - permanecem activas, revelando a complexidade e a vitalidade da sua obra. Na folha de sala, o curador recorda que Pedro Casqueiro integra a geração que emergiu no contexto do chamado “regresso à pintura” da década de 1980, partilhando com esse momento a reafirmação do medium pictórico como território central da prática artística. O artista distingue-se, contudo, pela recusa de enquadramentos historicistas e de tendências narrativas que marcaram parte significativa da produção dos seus contemporâneos, afirmando uma relação mais livre, subjectiva e experimental com a pintura.
A sua prática consolidou-se, ao longo dos anos, como singular e autónoma. Alheia a agendas estilísticas ou discursivas pré-definidas, é sustentada por um percurso coerente na sua própria heterogeneidade. Na verdade, ao longo da exposição, e vendo as obras em diálogo, torna-se claro que, no seu percurso artístico, o artista não procurou construir uma trajectória de depuração formal progressiva nem lhe interessou consolidar um estilo estável facilmente identificável. Pelo contrário, insistiu numa prática de deslocamento contínuo - formal, conceptual e afectivo. Como se a descontinuidade se tornasse, paradoxalmente, a sua constante. O título da exposição - Desvio, na sua tradução - condensa essa atitude. Cada obra introduz um desajuste interno: equilíbrio e instabilidade coexistem; a palavra infiltra-se na imagem ou ganha corpo próprio; o gesto, aparentemente espontâneo, revela uma construção e uma metodologia subjacentes. O sentido é sugerido e imediatamente deslocado. Há sempre um elemento que interrompe a leitura directa e impede a fixação de um significado único.
Ao percorrermos os trabalhos das primeiras décadas, deparamo-nos com superfícies densas, inquietas, instáveis e vibrantes. Campos pictóricos de exuberância material e cromática -Sem título (1984), Sem título (1985), Sem título (1987) - que contrastam com a produção dos anos seguintes. A densidade matérica cede lugar a superfícies mais depuradas, a uma organização espacial que explora, muitas vezes, a tensão entre profundidade ilusória e afirmação bidimensional. Esta transformação progressiva desencadeia uma inclinação gráfica mais evidente, por vezes figurativa, sem que isso implique qualquer abandono da matriz subjectiva que estrutura o seu trabalho. No entanto, ao longo da exposição, sentimos que a mutação formal significativa não significa ruptura, mas redefinição. Ao observar o conjunto, percebe-se um eco persistente de temas, variações de linguagem e recorrências estruturais. Obras de períodos distintos dialogam entre si, revelando diferentes correspondências. A fragmentação aparente do percurso - e da própria produção artística - dissolve-se quando percorremos as várias salas. Formas reaparecem metamorfoseadas, gamas cromáticas atravessam décadas, estruturas compositivas são torcidas, multiplicadas, invertidas. É a liberdade assumida como princípio; é a recusa a limites pré-estabelecidos à prática artística; é a pintura como território de experimentação irrestrita, capaz de absorver, recombinar, explorar referências, discos (Patty, 2025), arquitectura (Galeria, 1997), iconografia urbana. Nada é excluído à partida.
Há, igualmente, um jogo constante entre figuração e não-figuração, entre expansão gestual e contenção estrutural. Fragmentos linguísticos, frases híbridas, formas, operam como dispositivos que, por vezes, evocam montagens abstractas; noutras aproximam-se do grafismo pop ou códigos visuais da cultura industrial. Parece existir uma oscilação constante entre um controlo rigoroso e a abertura ao espontâneo, ao desafio. O que à primeira vista se apresenta como livre de regras revela, afinal, uma lógica interna própria, que estrutura e sustenta a produção.
Há um rigor compositivo evidente, mas também uma melancolia subjacente. Apesar da vitalidade cromática que atravessa muitas das obras, Casqueiro reconhece a presença de um subtexto mais sombrio. Sob a aparência por vezes quase festiva das telas insinua-se uma espécie de desagrado, de desconforto - talvez mesmo um desespero - perante o mundo contemporâneo. A sua pintura transporta uma consciência aguda do tempo presente - e, talvez, também do que nele resiste no passado - marcado pela saturação e pelo desencanto. Talvez esta ambivalência - entre celebração e inquietação, entre liberdade e disciplina, entre permeabilidade e estrutura - nasça da necessidade de resistir à fixação identitária, ao previsível, ao óbvio e ao tédio.
Detour, mais do que apresentar um conjunto de obras que ilustra o percurso do artista,expõe um processo em curso. Exige energia e abertura para uma leitura do que teima em se esquivar. É um exercício contínuo de decifração - de diferentes atmosferas, de vários moods, de vários mundos.
A exposição pode ser visitada no MAAT Central até dia 6 de Abril de 2026.