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O desvio como estrutura: quatro décadas de pintura de Pedro Casqueiro
DATA
10 Mar 2026
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AUTOR
Maria Inês Augusto
A exposição Detour, apresentada no MAAT – Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia, propõe uma leitura abrangente de cerca de quatro décadas da produção de Pedro Casqueiro.
Importa saber, desde já, que não se trata apenas de uma mostra de natureza retrospectiva nem da apresentação de uma narrativa linear ou evolutiva - a proposta ultrapassa claramente esse enquadramento. Com curadoria de João Pinharanda, a exposição assume deliberadamente lacunas e descontinuidades, reflectindo a própria lógica interna do artista e o modo como o seu trabalho se estrutura através de reconfigurações sucessivas. Nesse sentido, a mostra configura-se como um campo de relações em permanente articulação, onde tensões - e, por vezes, aproximações inesperadas - permanecem activas, revelando a complexidade e a vitalidade da sua obra. Na folha de sala, o curador recorda que Pedro Casqueiro integra a geração que emergiu no contexto do chamado “regresso à pintura” da década de 1980, partilhando com esse momento a reafirmação do medium pictórico como território central da prática artística. O artista distingue-se, contudo, pela recusa de enquadramentos historicistas e de tendências narrativas que marcaram parte significativa da produção dos seus contemporâneos, afirmando uma relação mais livre, subjectiva e experimental com a pintura.
A sua prática consolidou-se, ao longo dos anos, como singular e autónoma. Alheia a agendas estilísticas ou discursivas pré-definidas, é sustentada por um percurso coerente na sua própria heterogeneidade. Na verdade, ao longo da exposição, e vendo as obras em diálogo, torna-se claro que, no seu percurso artístico, o artista não procurou construir uma trajectória de depuração formal progressiva nem lhe interessou consolidar um estilo estável facilmente identificável. Pelo contrário, insistiu numa prática de deslocamento contínuo - formal, conceptual e afectivo. Como se a descontinuidade se tornasse, paradoxalmente, a sua constante. O título da exposição - Desvio, na sua tradução - condensa essa atitude. Cada obra introduz um desajuste interno: equilíbrio e instabilidade coexistem; a palavra infiltra-se na imagem ou ganha corpo próprio; o gesto, aparentemente espontâneo, revela uma construção e uma metodologia subjacentes. O sentido é sugerido e imediatamente deslocado. Há sempre um elemento que interrompe a leitura directa e impede a fixação de um significado único.
Ao percorrermos os trabalhos das primeiras décadas, deparamo-nos com superfícies densas, inquietas, instáveis e vibrantes. Campos pictóricos de exuberância material e cromática -Sem título (1984), Sem título (1985), Sem título (1987) - que contrastam com a produção dos anos seguintes. A densidade matérica cede lugar a superfícies mais depuradas, a uma organização espacial que explora, muitas vezes, a tensão entre profundidade ilusória e afirmação bidimensional. Esta transformação progressiva desencadeia uma inclinação gráfica mais evidente, por vezes figurativa, sem que isso implique qualquer abandono da matriz subjectiva que estrutura o seu trabalho. No entanto, ao longo da exposição, sentimos que a mutação formal significativa não significa ruptura, mas redefinição. Ao observar o conjunto, percebe-se um eco persistente de temas, variações de linguagem e recorrências estruturais. Obras de períodos distintos dialogam entre si, revelando diferentes correspondências. A fragmentação aparente do percurso - e da própria produção artística - dissolve-se quando percorremos as várias salas. Formas reaparecem metamorfoseadas, gamas cromáticas atravessam décadas, estruturas compositivas são torcidas, multiplicadas, invertidas. É a liberdade assumida como princípio; é a recusa a limites pré-estabelecidos à prática artística; é a pintura como território de experimentação irrestrita, capaz de absorver, recombinar, explorar referências, discos (Patty, 2025), arquitectura (Galeria, 1997), iconografia urbana. Nada é excluído à partida.
Há, igualmente, um jogo constante entre figuração e não-figuração, entre expansão gestual e contenção estrutural. Fragmentos linguísticos, frases híbridas, formas, operam como dispositivos que, por vezes, evocam montagens abstractas; noutras aproximam-se do grafismo pop ou códigos visuais da cultura industrial. Parece existir uma oscilação constante entre um controlo rigoroso e a abertura ao espontâneo, ao desafio. O que à primeira vista se apresenta como livre de regras revela, afinal, uma lógica interna própria, que estrutura e sustenta a produção.
Há um rigor compositivo evidente, mas também uma melancolia subjacente. Apesar da vitalidade cromática que atravessa muitas das obras, Casqueiro reconhece a presença de um subtexto mais sombrio. Sob a aparência por vezes quase festiva das telas insinua-se uma espécie de desagrado, de desconforto - talvez mesmo um desespero - perante o mundo contemporâneo. A sua pintura transporta uma consciência aguda do tempo presente - e, talvez, também do que nele resiste no passado - marcado pela saturação e pelo desencanto. Talvez esta ambivalência - entre celebração e inquietação, entre liberdade e disciplina, entre permeabilidade e estrutura - nasça da necessidade de resistir à fixação identitária, ao previsível, ao óbvio e ao tédio.
Detour, mais do que apresentar um conjunto de obras que ilustra o percurso do artista,expõe um processo em curso. Exige energia e abertura para uma leitura do que teima em se esquivar. É um exercício contínuo de decifração - de diferentes atmosferas, de vários moods, de vários mundos.
A exposição pode ser visitada no MAAT Central até dia 6 de Abril de 2026.
BIOGRAFIA
Maria Inês Augusto, 34 anos, é licenciada em História da Arte. Passou pelo Museu de Arte Contemporânea (MNAC) na área dos Serviços Educativos como estagiária e trabalhou, durante 9 anos, no Palácio do Correio Velho como avaliadora e catalogadora de obras de arte e coleccionismo. Participou na Pós-Graduação de Mercados de Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa como professora convidada durante várias edições e colaborou, em 2023 com a BoCA - Bienal de Artes Contemporâneas. Desenvolve, actualmente, um projecto de Art Advisory e curadoria, colabora com o Teatro do Vestido em assistência de produção e tem vindo a produzir diferentes tipos de texto.
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