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Sarab, de Mohammed Ahmed Ibrahim: A forma despida
DATA
22 Mai 2026
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AUTOR
Ayşenur Tanrıverdi
“Caminhei por Alfama, passando pelas pequenas tascas que ladeiam a rua, a caminho de Sarab, a exposição de Mohammed Ahmed Ibrahim – um dos artistas contemporâneos da primeira geração dos Emirados Árabes Unidos – na Galeria Perve.”
O curador da exposição, Mo Reda, aborda a obra do artista através do conceito de sarab - que significa miragem -, permitindo que a incerteza inerente às pinceladas abra um duplo modo de perceção, essencial e formal. Sarab, o primeiro capítulo do tríptico And Thus He Crossed Over, estabelece uma ligação direta entre a migração e a recriação do eu.
A afirmação de Mo Reda, “A migração não é o oposto da fixação, mas a sua origem”, enquadra a identidade como um produto inacabado, que se desenrola como uma tarefa contínua.
Ultimamente, tenho lido os diários de Paul Klee. Num momento de intenso conflito entre a música e a pintura, o seu encontro inesperado com o próprio reflexo articula belamente o processo de autoconstrução. Escreve: “Peguei novamente nos meus cadernos de desenho. Senti que certas esperanças começavam a despertar dentro de mim. Por acaso, vi o meu reflexo num vidro de janela e, nesse instante, comecei a formar pensamentos sobre esta pessoa que me encarava. Já a tinha observado muitas vezes, mas hoje compreendi-a.” A existência humana, neste sentido, permanece parcialmente oculta de si mesma, sempre em busca da sua própria essência.
Mohammed Ahmed Ibrahim procura a essência da forma. O artista não procura construir um alfabeto ou um sistema, mas compreender a forma no seu estado mais despojado. É como ver, num automóvel, dois círculos e um rectângulo, ou reduzir as flores a traços lineares e formas circulares.
O método pelo qual Mohammed Ahmed Ibrahim define a forma está enraizado, a um nível subconsciente, nas gravuras que viu em criança sobre algumas superfícies de pedra. Estes símbolos não são mais do que marcas rudimentares esculpidas na rocha e significam algo: transportam uma voz.
Ao escutar os sons do passado na sua obra, Ibrahim não aborda o passado como um instrumento de nostalgia. Em vez disso, interessado num “reservatório da memória”, evoca uma espécie de “conhecimento” que emerge da própria infância, que, como sugere, é o melhor guia.
A meu ver, o arco-íris é uma das formas mais belas de sarab. No início do seu arco, há histórias de um baú de tesouro cheio de ouro, ou de um pote de mel doce à espera de ser encontrado, mas nunca alcançado. É, em última análise, símbolo de esperança. Talvez seja precisamente este tipo de “esperança” que dá origem à liberdade do artista no uso da cor.
O universo de Mohammed Ahmed Ibrahim é tão vibrante que contrasta com as qualidades do sarab que poderiam ser consideradas negativas, como a ambiguidade ou a inatingibilidade. Não é por acaso que a sua obra é também profundamente amada pelas crianças. Especialmente nas suas esculturas e peças de papel maché, reside um espírito infantil, um sentido de brincadeira incorporado nas formas geométricas claramente definidas.
O reflexo da cor sobre as coisas molda diretamente a forma como vemos. Mesmo quando fechamos os olhos, a visão não cessa completamente. Existe um pequeno espaço entre a pálpebra e o próprio olho. O artista inspira-se nas formas percebidas nesse intervalo.
Nas suas colagens, Mohammed Ahmed Ibrahim pinta o próprio papel, rasgando-o e dividindo-o à mão, sem utilizar tesoura ou qualquer ferramenta de corte. Produz as suas próprias cores, trabalhando com materiais orgânicos como polpa de papel, folhas, tabaco, café e chá. As margens do papel que rasga com as mãos produzem, mais uma vez, um efeito sarab, uma fronteira instável, que não se assemelha a um limite fixo, nem totalmente definido.
Ao observar a série Two Flowers in a Vase, a mente já está preparada para a associar a múltiplas imagens. No entanto, o artista deu-lhe um título que limita a interpretação: “Estás a ver duas flores num vaso, nada mais do que isso”. De forma semelhante, na série Doors in Amsterdam, à medida que observamos as camadas de cores, as imagens da arquitetura de Amesterdão, os seus canais e a sua pequena e caótica ordem começam a surgir diante dos nossos olhos. Poderíamos dizer que os títulos mantêm deliberadamente o pensamento dentro de uma moldura específica.
Esta ideia ressoa também com a lógica de Jean-Paul Sartre: “O homem nada é senão aquilo que faz de si mesmo”. De facto, construímo-nos a nós próprios dentro de certos limites. Mesmo que estes limites surjam como imagens trémulas, miragens, no seu âmago existe um vulcão em erupção, a “realidade”, e nós não somos mais do que isso.
Uma segunda camada segue a imagem conceptual oferecida pelo artista. O que aqui se apresenta não é uma definição pronta; embora os títulos das obras visem orientar o pensamento, geram simultaneamente no espectador um desejo instintivo de se libertar desse significado.
A nossa forma de perceber o mundo é, em última análise, decifrada pela linguagem da criação. No contexto de Sarab, surge uma questão ainda mais instigante: A força criadora não nasce, na sua essência, de uma profunda afinidade com a ambiguidade?
A exposição Sarab pode ser visitada na Galeria Perve até 6 de junho.
BIOGRAFIA
Ayşenur Tanrıverdi é uma escritora sediada em Istambul. Vive em Lisboa desde setembro de 2022. Estudou na Universidade de Istambul e é autora de duas obras de ficção literária publicadas. Colaboradora regular do Cumhuriyet, um importante jornal turco, onde escreve sobre a cultura portuguesa. Os seus ensaios e textos críticos sobre teatro, literatura e arte contemporânea também têm sido publicados em várias revistas de arte.
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