Muito antes de conhecer a sua história, o caravançarai já se tinha enraizado na minha imaginação. Nas histórias infantis sobre a Rota da Seda, os mercadores atravessavam vastos desertos e as caravanas desapareciam em paisagens sem horizonte. O caravançarai nunca foi apenas uma obra arquitetónica, mas uma promessa: um abrigo que surgia no coração da incerteza, uma hospitalidade que se erguia contra a vastidão do desconhecido.
Construídos nos séculos XII e XIII como proteção contra bandidos do deserto, os caravançarais eram posicionados a uma distância de um dia de viagem uns dos outros - cerca de 30 a 40 quilómetros - pontuando a vastidão com intervalos de segurança. Muito mais tarde, reconheceria nesta lógica espacial uma afinidade com a filosofia do movimento desenvolvida por Henri Bergson: “Se nos colocarmos dentro do movimento, podemos extrair dele, através do pensamento, tantos pontos de paragem quantos desejarmos.”
Há muito tempo que sinto que o movimento inclina o espírito humano para uma abertura particular e para um estado de alerta criativo. Quando um viajante perguntou onde o poeta William Wordsworth mantinha o seu escritório, um criado respondeu: “A biblioteca dele está aqui, mas o escritório está fora de casa; em todo o lado.” A anedota é menos romântica do que exata: para algumas mentes, o pensamento não se retira do mundo; avança através dele.
Concebido e dirigido artisticamente pelo coreógrafo e dançarino Gustavo Ciríaco, com curadoria de Rita Fabiana e desenvolvido em colaboração com João Gonçalo Lopes para o cenário e design da exposição, Caravanserá representa um Carnaval sensorial, um bloco participativo em constante formação e transformação.
A palavra Caravanserá, emprestada do persa, é transformada, de forma lúdica, em português através do trocadilho será, lembrando-nos da possibilidade de imaginar o futuro com esperança.
Desenvolvido em torno da poesia da mãe de Gustavo Ciríaco, a poeta e artista visual Maria José de Figueiredo Ciríaco, Caravanserá desenrola-se como um processo aberto, que se manteve visível ao público do início ao fim.
Moldado pela participação orgânica e pela espontaneidade, o projeto resiste à lógica do ensaio. Assemelha-se, antes, ao curso de um rio: uma corrente contínua em que se pode entrar em qualquer ponto e sair noutro - sempre em movimento, sempre inacabado.
Dentro do bloco Caravanserá, entrelaçam-se hinos carnavalescos conhecidos com um samba-enredo inspirado nos textos de Maria José, formando uma paisagem musical na qual todos são convidados a participar, uma partitura inclusiva que transforma os espectadores em colaboradores.
Numa obra intitulada Porta-trovas, Maria José de Figueiredo Ciríaco criou o que descreveu como “portadores de poemas” -objetos de papel dobrados dentro dos quais se escondiam versos. O ato de dobrar não se limitava a proteger o texto; transformava-o. Essas formas compactas já eram, em si mesmas, gestos poéticos e esculturais que suspendiam a linguagem no ar.
Foi concebido um sistema em que cada bandeira correspondia a uma letra, permitindo codificar palavras, poemas e memórias pessoais. O que surgiu foi uma matriz partilhada - portátil e aberta - algo que qualquer pessoa podia transportar para outro lugar, estendendo a obra muito além do seu local original.
Dentro do projeto, a questão da “fundação” assume a qualidade da consciência espacial. A série em camadas intitulada Baldrame expressa o ato de marcar uma casa antes de ser construída - traçando onde ficará um quarto ou uma cozinha, delineando a possibilidade antes da estrutura. As linhas desenhadas no chão - os fundamentos - referem-se não apenas à arquitetura, mas à lógica da habitação. Uma viga baldrame (viga de fundação) transfere as cargas estruturais para a fundação, mantendo-se em contacto com a terra, ligando o material e o espaço, o conceito e a forma..
Para Gustavo Ciríaco, um projeto nunca é concebido separadamente do seu local. Cada medida de plenitude e vazio -cada intervalo subtil - molda a estrutura da obra. Por outro lado, um único gesto ou decisão no ato criativo pode alterar o próprio espaço, remodelando as suas condições. Um duplo movimento em que o espaço forma a obra e a obra reconfigura o espaço. Deste ritmo surge a possibilidade de reimaginar o nosso lugar no mundo e de nos imaginarmos no seio de um corpo coletivo mais amplo.
Quando Gustavo mencionou que a sua mãe costumava dizer: “Todo o jardim pode tornar-se um caravançarai”, comecei a perceber, com mais clareza, o vínculo artístico que se desenvolveu gradualmente entre os dois. Era a alegria que tinha herdado dela que continuava a repercutir-se na sua prática, encontrando no Caravançarai — com o seu sentido intrínseco de movimento — uma continuação viva. Beckett estava certo quando disse: “Nada é mais cómico do que a infelicidade.” No cerne de todas as formas de resistência e do desejo de liberdade, devemos colocar a alegria que nenhuma ditadura jamais pode extinguir.
Maria José de Figueiredo Ciríaco mantinha o portão do seu jardim sempre aberto para as crianças, referindo-se a ele como o quintal das artes. Essa noção de quintal ressoa diretamente com a lógica arquitetónica do caravançarai: uma estrutura organizada em torno de um pátio central aberto, onde coexistem proteção e encontro, e onde a comunidade se forma através do espaço partilhado.
No dia 14 de fevereiro, durante a procissão Caravanserá no jardim Engawa do CAM – Centro de Arte Moderna, a poesia de Maria José de Figueiredo Ciríaco foi ampliada e colocada em movimento: as letras viajaram entre os participantes, mudando e reconfigurando-se constantemente, formando uma passagem onde as próprias palavras se tornaram um ritual vivo e em constante mudança.
A questão central de Maria José era: e se pudéssemos retirá-la do lugar e interagir com ela?
Henry David Thoreau, escritor e filósofo da natureza americano, escreveu certa vez em seu diário: “Se não se levanta para viver, de que adianta sentar-se para escrever!” Para Gustavo e Maria José, essa perceção revela-se no movimento: um ser alegre é aquele que salta, dança e se move, uma presença viva, exuberante e perpetuamente em movimento.
Uma das características mais marcantes do Carnaval era a forma como criava um espaço natural onde qualquer pessoa podia participar de forma intensa ou superficial, conforme desejasse, ou simplesmente permanecer como observador. Nas palavras de Gustavo, era um estado de “totalidade”, onde as pessoas podiam ser simultaneamente sensuais e cómicas, absurdas e sérias, relembrando o espírito lúdico da canção “A minha carne é feita de Carnaval.”
Ao longo do bloco Caravanserá, ocorreram formas espontâneas de aprendizagem em tempo real: avós dançavam de mãos dadas com crianças pequenas, descobrindo e ensinando na mesma medida. Uma avó podia aprender os passos de dança de uma criança, ou uma criança podia aprender a passar linha numa agulha; trocas que surgiam de forma orgânica, lúdica, íntima e que abrangiam várias gerações.
O Caravanserá também pode ser interpretado como uma forma de resistência contra aqueles que estão no poder. O educador, pedagogo crítico e filósofo brasileiro Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido (1968), escreve:
"Os opressores impedem qualquer ação que possa despertar nos oprimidos, mesmo que seja um pequeno sentimento de unidade. Conceitos como unidade, organização e luta são imediatamente rotulados como perigosos. De facto, esses conceitos são perigosos para os opressores — porque a sua concretização é essencial para os atos de libertação. (...) Cada movimento em direção à unidade entre os oprimidos sinaliza a possibilidade de uma nova ação; a unidade e a organização podem contribuir para transformar os oprimidos numa força capaz de recriar o mundo e de o tornar mais humano."
Perguntei a mim mesmo: o que é que torna a mobilidade tão essencial, tão sintonizada com o impulso criativo?
A resposta surge através da química dos nossos corpos. Assim como a ação coletiva desperta o espírito de libertação, o movimento individual desperta o corpo e a mente, levando-nos à criatividade. À medida que nos movemos, o nosso coração bate mais depressa, enviando sangue e oxigénio não só para os nossos músculos, mas para todos os órgãos, incluindo o cérebro, refletindo as reações fisiológicas de se apaixonar.
Os filósofos da Grécia Antiga captaram essa ideia de forma sucinta: “O bem traz à existência e põe em movimento, e aquilo que põe em movimento é bom.”
Filósofos como Sócrates e Aristóteles, pertencentes à escola peripatética, praticavam a filosofia enquanto caminhavam, construindo uma filosofia do movimento através da interação humana. O termo peripatetikos deriva do grego para “caminhar”. Na obra A Escola de Atenas, de Rafael Sanzio, Platão e Aristóteles aparecem no centro, a caminhar e a conversar, com outros a acompanhar os seus movimentos, uma imagem que personifica a filosofia em ação e a conexão duradoura entre pensamento, movimento e vida.
Essa filosofia do movimento, enraizada na interação humana, encontra um eco contemporâneo no Carnaval de Gustavo Ciríaco, onde cada material e cada gesto transformam o espaço num continuum vivo. No final, o que resta é, nas próprias palavras de Ciríaco, “pura alegria”.
Seguindo o formato de uma residência aberta, Caravanserá, decorreu de 28 de janeiro a 2 de março de 2026 no Espaço Engawa do Centro de Arte Moderna – Gulbenkian, apresentando uma série de oficinas de dança, música, costura e cenografia. A residência culminou no cortejo de Carnaval, que decorreu dia 14 de fevereiro no Jardim Sul.