A elaboração de uma programação pertinente - com um cunho internacional - e a apresentação de exposições individuais de artistas nacionais e estrangeiros, assinalam uma nova abordagem da atual direção quanto ao posicionamento da instituição e o seu conteúdo programático. O desenvolvimento de um trabalho de qualidade em Guimarães e o envolvimento de públicos de concelhos limítrofes, mediante um reposicionamento estratégico e uma programação exigente, com vista à consolidação e ampliação da relevância do CIAJG, assumem-se como prioritários para Miguel Wandschneider. À aposta em artistas estrangeiros e projetos de circulação internacional, acresce-se um olhar renovado sobre a produção artística portuguesa, as coleções pertencentes à instituição e modos diferenciados de apresentação da obra de José de Guimarães (1939).
Privilegiando escolhas que intensificam a diversidade, a afirmação e capacidade de diálogo do CIAJG no contexto nacional e internacional, a conceção da programação não procura, segundo Wandschneider, pontos de contacto óbvios entre as exposições, mas sim o seu oposto, apostando-se na apresentação de mostras simultâneas que não se relacionam por consonância ou proximidade, mas que funcionam de forma polarizada, por contraste.
Exemplo dessa renovação, a exposição Come di (parte 1), assume-se como a primeira retrospetiva sistemática de Jorge Molder (1947) figura central da fotografia contemporânea portuguesa, cuja obra tem sido amplamente celebrada no panorama artístico nacional. Reflexo de novas estratégias e mudanças, sublinha-se que, até à data, não existia na história da programação de exposições do CIAJG uma exposição antológica de um artista português consagrado. De acordo com Wandschneider, a mostra responde a uma impossibilidade, na medida em que não é possível uma retrospetiva de Jorge Molder no sentido totalizante, que englobe e atravesse 50 anos de prática artística. Circunscrevendo-se a um período de trabalho entre 1991 e 2003, incluindo séries anteriores como Waiters e Esgrimitas (1986), a extensão da mostra não se limitará a uma única apresentação, ao dividir-se em duas partes consecutivas – a segunda com estreia em finais de setembro a par com a mostra da artista polaca Dorota Jurczak (1978) – que permitirão uma leitura aprofundada da obra de Molder, mantendo-se, no entanto, a autonomia de cada momento expositivo.
Fotografias a preto e branco, emolduradas a negro, fixadas no papel através da técnica de sais de prata e gelatina e cuidadosamente alinhadas segundo critérios estéticos e cronológicos, estendem-se pelas paredes do andar superior do último piso do CIAJG. Qual preâmbulo à exposição, somos confrontados pela série, realizada entre 1981 e 1987, em que a figura do artista se esquiva ao olhar da câmara, ironicamente intitulada Auto-retratos. A esta, juntam-se duas séries de 1986: Waiters e Esgrimistas, retratos cujos modelos assumem e prefiguram, por via da encenação, o trabalho de autorrepresentação a que Jorge Molder se dedicará posteriormente. Num jogo de contrastes entre escalas, deparamo-nos num outro momento expositivo, com a série The Secret Agent (1991) onde o artista, de forma insistente e obsessiva, torna-se modelo das imagens fotográficas, em gestos de autorrepresentação, mas não necessariamente de autorretratos. Segue-se um trabalho sobre duplicidade e metamorfose nas fotografias de grande formato da série Inox (1994), em que a partir do próprio corpo em autorretrato, o artista constrói uma figura ficcional que nos observa numa atitude inquisidora, assumindo uma pose simples que nos desafia. Em diálogo com Inox, imagens do rosto do artista enormemente ampliadas, ultrapassando os limites da fotografia, são-nos apresentadas na série TV (1996), que num outro momento nos revela o rosto de Molder reduzido a uma mancha de luz que sobressai no fundo escuro da imagem. Destaque numa das salas para o conjunto de imagens pertencentes a Insomnia (1992) - vultos, fragmentos de rostos, de mãos e cigarros - dominadas por jogos de sombra e luz, de chiaro/oscuro, numa exposição que, não obstante a serialidade que a compõe, revela uma irmandade entre as mesmas, num processo que Wandschneider classifica de auto-citação.
Por meio de um trajeto labiríntico, a personagem de Molder conduz-nos à mostra Back Outside de Aidan Duffy (1995). Ao confronto geracional entre ambos, acresce-se o risco da diferença de percursos e níveis de reconhecimento no panorama artístico: o de um veterano de trabalho consolidado e o de um artista emergente, pouco conhecido inclusive nos circuitos mais restritos. Não obstante o jogo de contrastes e oposições, bem como a ausência de um diálogo entre as obras de Molder e Duffy, reconhecemos, contudo, em ambas as mostras uma carga espectral. Se por um lado, a figura ficcional de Molder, assombra qual fantasma o mundo das imagens, as esculturas do artista escocês carregam e ecoam fantasmas de vidas passadas. Segundo Duffy, um dos aspectos primordiais da sua prática é preservar o eco das funções prévias dos objetos que corporizam as suas esculturas, conservando o fantasma do que já foram, num processo de trabalho que segue um ciclo paralelo ao da vida: onde o início de algo depende do fim de outro.
Abrangendo três anos de produção, Back Outside, a primeira exposição de Duffy num espaço institucional, apresenta-se como uma antologia, incluindo uma seleção de trabalhos que vão desde a sua primeira exposição até à atualidade. Entre o natural e o sintético; o orgânico e o inorgânico, as peças escultóricas revelam uma harmonia e coerência de formas e significados. Justaposições fascinantes de objetos, atraem a atenção do espectador pela diversidade de materiais, de formas, texturas e cores, num equilíbrio entre a intenção artística e o incidente espontâneo. À medida que observamos as criações – quinze peças de parede e uma de chão – constatamos a atração do artista por objetos, pelo seu valor estético, social, cultural ou pessoale pelo processo criativo e o modo como podem - ou não - funcionar em conjunto.O encontro de Duffy com os objetos - ou parte de objetos - descartados e abandonados na rua, adquiridos em lojas de beneficência ou leilões na internet, inicia um processo de trabalho que, intuitivo e sem planeamento prévio, vive de recomeços, erros e acertos. Por vezes, os materiais - até serem incorporados numa obra - permanecem meses no estúdio, lugar onde o artista os visualiza como matéria-prima, pensa nas suas anteriores funções e define o que poderão vir a ser: manipulando-os, recontextualizando-os e atribuindo-lhes um novo destino.
Não se tratando de uma mera acumulação ou reciclagem de objectos e materiais descartados, situando-se entre o universo das artes decorativas, as esculturas de Duffy - autênticas assemblages - revelam a sua atração e curiosidade material pela conjugação num todo harmonioso, que, aberto à interpretação e novos significados, corporiza expressões ou representações de estados emocionais e psicológicos através da cor, do tom, ou mesmo do ritmo e do movimento. O potencial performático na interação do público com as obras, ao procurar observá-las sob diversos ângulos e identificar os elementos que as compõem, é uma constante ao longo do percurso expositivo. Desempenhando funções distintas do original, reconhecemos nas obras de entrada Blow the Speaker (2025-26) e Made Friends with the Floor (2025), persianas e garment bags aos quais o artista atribuiu um novo papel. No segundo momento expositivo, seis esculturas de parede alinham-se à nossa passagem, numa variedade de texturas, cores, composições e dimensões: desde a costura delicada de missangas sobre tule em Protective Bae (2022-23); à sugestão mística de Midnight Problems (2025) com a sua cortinas de folhas de madeira que pendem de fragmentos têxteis e postes de metal; à roupa enquanto estrutura em Cool on You, ou ao uso de pele de cobra unindo moldes de gesso em Give Me 10’s (2025). Na última sala dedicada à mostra, entre esculturas de parede, destaca-se a peça de chão Doppelganger (2025), em que cada elemento – metal, papel, lona e gesso modificado com acrílico - conjugam-se como um todo, criando uma escultura de cunho futurista, plenamente integrada no espaço.
Às exposições citadas, junta-se Artes Tradicionais Africanas na Coleção José de Guimarães, com uma seleção significativa de artefactos da África central e ocidental pertencentes à coleção de José de Guimarães, agora reorganizada e apresentada de forma autónoma, num espaço próprio dentro do museu. A visão curatorial e a apresentação da coleção divergem profundamente do paradigma que vigorou anteriormente, acentuando a ideia de diversidade e de rutura com leituras anteriores. O conjunto, reforçado com novas doações, é agora exibido numa nova configuração, ocupando os pisos térreo e inferior do museu, com destaque para o amplo conjunto de máscaras.
As três exposições podem ser visitadas no Centro Internacional das Artes José de Guimarães até 6 de setembro de 2026.