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Serapinas e Ourahmane na Galeria Municipal do Porto
DATA
02 Set 2026
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AUTOR
Mafalda Teixeira
As estreias nacionais do artista lituano Augustas Serapinas (1990) e da artista argelina Lydia Ourahmane (1992) marcaram o arranque do segundo ciclo de exposições de 2026 na Galeria Municipal do Porto (GMP). Tratando-se de exposições distintas, existem, no entanto, paralelismos entre ambas que remetem para uma reflexão e questionamento sobre o corpo, os seus sentidos e limites. Acresce o facto de as instalações dos dois artistas possuírem uma dimensão performativa e de se tratarem de projectos em continuidade, adaptados pelos seus criadores ao contexto nacional, mediante um trabalho colaborativo com instituições e agentes locais.
Entre o humor e a ironia, abordando temas como a educação, metodologias de ensino e analisando interseções entre a História da Arte e a história da representação do corpo, a exposição de Augustas Serapinas, Cultura do Corpo: Edição Porto (2026) com curadoria de João Laia, evoca o legado da Grécia Antiga, em particular a Academia Clássica e o ideal de perfeição humana Kalokaghatia - promovido por filósofos como Aristóteles e Platão -alcançada através do equilíbrio entre o desenvolvimento intelectual/moral e o cuidado físico. Reformulando a expressão Mens sana in corpore sano, estabelecendo um paralelismo entre o treino físico e a aprendizagem artística, o projeto em continuidade de Serapinas, Cultura do Corpo, traduz de forma literal a ideia de que as instituições artísticas e os ginásios podem ser entendidos como espaços complementares: as primeiras cultivando o pensamento crítico e a inteligência emocional; os segundos, a força física e a resistência. Interessa-me muito a forma como o corpo é treinado, disciplinado e repetido, seja na arte, seja no desporto.1
Transformando o piso térreo da Galeria Municipal do Porto num espaço híbrido, entre um ginásio e um gabinete de desenho, a instalação de grande escala surpreende pela presença de pistas de corrida e de máquinas de halterofilia funcionais, cujos pesos replicam esculturas da coleção do Museu Nacional Soares dos Reis, entre as quais se apresentam cavaletes de desenho. Pressupondo a participação do público, a exposição assume-se como uma declaração performativa, ao ser simultaneamente ativada por visitantes que praticam desenho académico — tradicionalmente focado na cópia de esculturas clássicas — e por grupos de desportistas que interagem com a instalação enquanto ginásio. Através da dualidade entre a prática do exercício físico e a prática do desenho, Serapinas revela como ambas as disciplinas dependem do esforço e da repetição do gesto enquanto métodos de aperfeiçoamento e de aprendizagem: (...) há uma ligação muito forte entre aprender a desenhar e treinar num ginásio, em ambos os casos, o corpo é levado a insistir, a repetir e a melhorar pela prática.2
Afirmando-se enquanto plataforma performativa de reflexão crítica, o ginásio escultórico do artista confere ao público a oportunidade de analisar, por um lado, a história da arte ocidental e, por outro, repensar conceções e estruturas de educação que enfatizam a prática repetitiva e o trabalho árduo e diligente.3 De mencionar que a primeira apresentação de Cultura do Corpo, em 2012, partiu da própria experiência do artista enquanto estudante na Academia de Arte de Vilnius, cuja educação clássica do desenho - através da observação de esculturas, moldes de gesso, fragmentos anatómicos e o corpo humano – o conduziu a uma reflexão sobre o ensino artístico. Desde então, foram várias as configurações apresentadas do projeto, sendo que a edição do Porto, construída em diálogo com a cidade, é a primeira a focar-se exclusivamente no contexto local de apresentação, incluindo mais de sessenta réplicas da coleção de esculturas do MNSR. Substituindo os halteres e pesos das máquinas de exercício físico, fragmentos de esculturas históricas pertencentes ao contexto portuense – O Desterrado (1877), Firmino (1867) de Soares dos Reis; Busto de Camões (1880) de Francisco José Resende; Cabeça de Senhora (1923) de Francisco Franco, entre outras – assumem-se enquanto matéria-prima e elementos ativos da instalação participativa. Deslocadas do contexto museológico, colocadas no centro de um ambiente dedicado ao exercício, as esculturas deixam de ser objetos intocáveis e passam a fazer parte de uma rotina física4, possibilitando novas leituras sobre a representação do corpo, a repetição na aprendizagem, o papel da cópia na transmissão do conhecimento artístico e a permanência da arte clássica no imaginário contemporâneo, ao mesmo tempo que desempenham um papel central na experiência expositiva ao estabelecerem pontes entre diferentes disciplinas, práticas e públicos.
Recuperando a tradição dos antigos ginásios, Cultura do Corpo: Edição Porto relembra-nos que a cultura e o exercício físico não são opostos, antes o reflexo de um desejo de aperfeiçoamento e de uma busca pela perfeição que, desde a Antiguidade, permanece na Época Contemporânea.
No piso superior da GMP, distante da sonoridade pop da exposição anterior, Para Voz (2026), da artista conceptual Lydia Ourahmane, mergulha-nos numa experiência sensorial e intimista. Entre a escuridão e o vazio que envolvem o espaço triangular da galeria, a obra praticamente invisível, mas percetível ao toque, apresenta-se como uma partitura em braile inscrita diretamente nas paredes da galeria.
Concebida em colaboração com a sua irmã, a compositora e música Sarah Ourahmane, e desenvolvida a partir da arquitetura e da acústica da sala de exposição, Para Voz - cuja primeira versão Per Voce (2025)5 foi apresentada no Castello di Rivoli (Turim) – parte da experiência pessoal da artista que, ao viver num prédio antigo de Barcelona sem luzes no tecto e obrigada a tatear as paredes para encontrar os interruptores, decidiu criar uma obra que mapeasse a arquitetura do espaço.6 Unindo som7 e performance, Lydia Ourahmane questiona, a partir deste trabalho, de que outro modo podemos perceber o espaço por meio do som, sem um dos nossos principais sentidos: a visão?
A peça performativa - que, na realidade, se trata de uma obra em duas partes - consiste numa partitura a ser interpretada por duas intérpretes vocais com deficiência visual. Transcrita para braille e incorporada nas paredes, assim que ativada, cada uma das cantoras segue fisicamente a partitura, à medida que a composição se desenrola e se movem pelo espaço. Um dos aspetos curiosos que Lydia enfatiza na peça é o modo como a notação musical em braile funciona: a célula de seis pontos transmite tanto a altura e o ritmo do som como a tonalidade e a oitava em que a composição foi escrita. Segundo a artista, há uma enorme quantidade de informação entre cada célula; e a forma como o cantor interpreta a obra chega a parecer milagrosa, dada a capacidade de realizar tantas traduções simultâneas.8
No dia da inauguração, o público teve a oportunidade de vivenciar a experiência transcendental proporcionada pela interpretação das duas cantoras portuguesas, Cristina Afonso e Joana Rita Santos. Com o objetivo de manter a obra viva na ausência dos intérpretes, Lydia desenvolveu um sistema de som cinético. Instalados num trilho ao longo do teto, dois altifalantes luminosos movem-se à mesma velocidade com que as cantoras leriam a partitura, reproduzindo as duas vozes gravadas que ecoam na escuridão da galeria, permitindo ao espectador vivenciar a experiência o mais próxima possível do ato performativo.
Entre as palavras cantadas de um desgosto amoroso, de se estar separado e da consciência inevitável de ter havido um ritmo partilhado entre duas pessoas, o curador da exposição sublinha o encontro colaborativo que envolveu o processo criativo e artístico da peça, pelo trabalho desenvolvido com cantores cegos portugueses, evidenciando ainda um outro aspecto fundamental da obra: a relação entre o Homem e a máquina, aspecto que encontramos também na instalação de Serapinas.
A exposição Cultura do Corpo: Edição Porto, com curadoria de João Laila, pode ser visitada na Galeria Municipal do Porto até 18 de outubro. Para Voz, com curadoria de Krist Gruijthuijsen, está aberta na mesma instituição até 25 de outubro de 2026.


1 Cit. da int. do artista durante a visita guiada à exposição no dia 12 de julho de 2026.
2 Idem, Ibidem.
3 LAIA, João – Augustas Serapinas. Cultura do Corpo: Edição Porto. [Folha de sala da exposição].
4 Cit. da int. do artista durante a visita guiada à exposição no dia 12 de julho de 2026.
5 Para cada versão apresentada da obra, Lydia e a irmã criaram partituras distintas, sendo que a da cidade italiana foi interpretada por um trio e a do Porto por um duo.
6 Cit. da int. da artista durante a visita guiada à exposição no dia 12 de julho de 2026.
7 O som tem uma grande importância na prática artística de Lydia Ourahmane. Desde muito nova estudou piano e, por ter vivido entre diversas culturas e múltiplos idiomas, considera a música a sua linguagem mais constante.
8 Cit. da int. da artista durante a visita guiada à exposição no dia 12 de julho de 2026.

BIOGRAFIA
Mafalda Teixeira, mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d'Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.
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