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Entrevista a Silvestre Pestana, autor da capa da Umbigo.space
DATA
07 Jul 2026
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AUTOR
Mafalda Teixeira
A convite da Umbigo, e a propósito da exposição que lhe será dedicada na XXIV Bienal Internacional de Arte de Cerveira, Silvestre Pestana apresenta o projecto POLÉN2:0, que integra a secção Pós-Digital do mês de julho.
Poeta, artista plástico e performer, Silvestre Pestana (n. 1949, Funchal) é uma das figuras mais radicais da arte contemporânea portuguesa. Aliando as artes visuais à poesia, como modo de resistência à censura, o artista desenvolve, desde os finais dos anos 1960, uma obra singular que explora uma grande diversidade de disciplinas. As ações politizadas, colagens e fotografias dos anos 1970 e 1980, com recurso ao próprio corpo, ativam códigos linguísticos e não-linguísticos, ao mesmo tempo que tornam a poesia uma prática espacial e coreográfica. Recorrendo à imagem em movimento como instrumento para a ação performativa e poética, Pestana tornou-se uma das figuras pioneiras da arte vídeo em Portugal. Utilizador das tecnologias mais recentes, nas últimas décadas, o artista tem recorrido à informática, a jogos de computador, drones, GIFs e avatares para construir novas expressões de resistência artística.
A exposição retrospetiva no Museu de Serralves, em 2016, e a mostra no Museum of Contemporary Art Santa Barbara (Califórnia), em 2017, deram-lhe grande protagonismo, tendo sido agraciado em 2020 com o prémio português nas Artes Visuais AICA/ MC/ Millennium BCP 2019, pelo seu longo percurso artístico multidisciplinar.
No presente ano de 2026, destaque para a exposição Colapso, apresentada na Galeria Municipal do Porto e com curadoria de João Laia, em que Silvestre Pestana apresenta uma nova instalação de grande escala, a partir da qual expande a sua análise sobre o impacto da tecnologia na sociedade. Destaque ainda para a exposição de homenagem, com curadoria de Mafalda Santos e João Ribas, que lhe será dedicada na XXIV Bienal Internacional de Arte de Cerveira, entre 18 de julho e 30 de dezembro de 2026.
A convite da Umbigo, Silvestre Pestana apresenta o projecto POLÉN2:0, que integra a secção Pós-Digital do mês de julho e que o artista nos dá a conhecer em conversa.

Mafalda Teixeira: A introdução do novo caracteriza a sua prática artística, nomeadamente em trabalhos recentes com recurso a tecnologias como drones ou à criação digital, com referência à IA. PÓLEN 2:0 insere-se na produção da obra de realidade aumentada PÓLEN R. A. (2024), que integra a Galeria Digital do Porto. Foi a primeira vez que recorreu a esta nova tecnologia no seu corpo de trabalho?
Silvestre Pestana: A minha introdução ao NOVO resulta de uma pulsão intensamente interior e inquietante, derivada da necessidade de encontrar sentido enquanto artista e cidadão.
Desde muito cedo, ao estudar as dinâmicas relacionadas com a saúde do planeta Terra, compreendi que este se encontra constrangido por um predadorismo aclamado, intenso e voraz, exercido através da captura acelerada dos seus recursos. Acompanhei, assim, o acelerado FAZER social, com as suas promessas e controvérsias em torno da questão estrutural da redistribuição da riqueza acumulada, resultante do magnífico esforço tecno-produtivista gerador de EXCESSO.
Aprendi com os Bardos o valor profundo das narrativas testemunhais, alicerçadas nos recursos discursivos que cada época inventa, normaliza e transmite.
Fascinado, acompanhei nas últimas décadas a socialização de vertiginosas maravilhas técnicas — o digital, os drones e, por que não, o mágico telemóvel enquanto computador portátil e pessoal.
As minhas primeiras obras Q.R., com suporte de realidade aumentada, datam de 2014 e beneficiaram, na altura, do apoio técnico da U.C.P. Estas obras foram apresentadas durante a minha participação no Momento III da Bienal da Maia, em 2015, e posteriormente integradas no ciclo António Duarte, no Espaço Concas, em 2016.
A minha atual participação, por convite, na vossa secção Pós-Digital, com a obra PÓLEN2:0, integra a série PÓLEN R.A. (2024), atualmente presente na Galeria Digital do Porto.
Este projeto público de realidade aumentada na cidade do Porto reúne 13 obras singulares de 13 artistas, dispersas pela malha urbana, cujo acesso deve ser realizado obrigatoriamente in loco, via móvel, permitindo ao público uma redescoberta da cidade.
Mafalda Teixeira: Propondo novas formas de olhar para a arte pública, quais as principais preocupações e/ou constrangimentos que moldaram a criação de um trabalho que sugere simultaneamente uma nova leitura do espaço público e uma redescoberta da cidade?
Silvestre Pestana: Quando fui contactado para participar na sua apresentação e divulgação, fiquei surpreendido e contagiado pelo empenho e pela visão culturalmente inovadora associada a uma nova leitura do espaço público, entusiasticamente defendida pelo seu responsável, o Engenheiro Paulo Calçada.
O desafio que me foi lançado ao ser convidado para participar era imenso: como poderia eu corresponder, com imaginação, a esta intensa experiência de cidadania cultural?
À minha volta, pude confirmar a presença de toda uma nova geração de entusiastas altamente criativos.
Uma vez aceite o convite, beneficiei do profissionalismo e empenho criativo de Pedro Galego, que me foi apresentado durante as sessões de trabalho. Após vários esboços, concebi a obra PÓLEN2:0, composta por um tição onde exalto a terra, o magma e o gelo, suportando uma campânula ascendente em forma de flor-do-jarro, a partir da qual é projetada uma miríade de grãos de pólen.
Mafalda Teixeira: Localizada na Praça D. João I no Porto, com acesso in loco via QR, a imagem da flor e do seu processo de polonização, como que evoca o jorrar da água da antiga Fonte Luminosa, outrora localizada no mesmo espaço. Houve uma preocupação da sua parte, em repensar a história e a identidade do lugar que a obra viria a ocupar?
Silvestre Pestana: Ao desenvolver este projeto de realidade aumentada para a Praça de D. João I, consultei um arquivo de imagens da cidade e confirmei a anterior existência de uma fonte luminosa naquele espaço. Relembrei então a forte impressão que a sua pujança e luminosidade me inculcaram no meu primeiro contacto com a cidade do Porto, quando jovem recém-chegado do Funchal para frequentar a Escola Superior de Belas-Artes.
A obra PÓLEN2:0 referencia a necessidade de contrapor uma fertilidade existencial aos recentes apelos destrutivos testemunhados pelo regresso mundial ao uso recorrente da guerra. Simultaneamente, de uma forma mais subtil e intimista, procura valorizar as minhas raízes de ilhéu madeirense, que desde sempre nutriu uma profunda admiração pela Islândia — essa terra de fogo e gelo.
BIOGRAFIA
Mafalda Teixeira, mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d'Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.
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