É no gesto de descida da escadaria vermelha de Teodoro W.1 (Porto) que tem início o contacto e a experiência performativa do visitante com a exposição Submundo de Paulo Wirz (n.1990, Pindamonhangaba). Símbolo da progressão para o saber e da ascensão para o conhecimento, a escadaria também tem um aspecto negativo: a descida, a queda, o retorno ao terra-a-terra e mesmo ao mundo subterrâneo,2 que serviu de mote à conceção e desenho do ambiente cenográfico e expositivo pelo artista, que se afirma no espaço através da instalação site-specific Atracadouro (2026). Enfatizando a escadaria enquanto signo, em particular o drama da verticalidade e a união entre os três mundos cósmicos – céu, terra e submundo – a instalação de Paulo Wirz mergulha-nos numa paisagem-ambiente que, dominada pelo verde, nos atrai pela ambivalência e polaridade dupla: o verde do reino vegetal e o verde do mofo – a vida e a morte. A paleta cromática que o artista nos oferece, assim que entramos no espaço expositivo, evoca sugestões de morte, de putrefação e de enxofre que reforçam a imagem de profundeza e submundo que serve de título à exposição.
A pesquisa e interesse de Wirz pela ancestralidade e antiguidade clássica perpassam o seu corpo de trabalho manifestando-se, de modo particular, na presente exposição ao evocar e resgatar para a contemporaneidade o principal rio do Submundo na mitologia grega: o rio Estige (Styx), fronteira que separa a vida da morte. Quando pensei na exposição, a ideia de submundo remeteu-me para a cor verde que achei que seria interessante usar. (...) na mitologia grega Styx era conectado com a cor verde, tanto as águas como o ar.3
Criando vídeos, esculturas, instalações e ambientes específicos que respondam aos espaços onde expõe, a tipologia arquitetónica de Teodoro W. - uma cave sem janelas ou quaisquer elementos que nos dêem referências espaciais e/ou temporais – ao qual se acede por uma escada, influenciou o artista tanto no conceito da exposição como no próprio título: Fiquei pensando nessa ideia do subterrâneo e do submundo pelo facto de ter de se descer para outro lugar. Também queria fazer algo que remetesse para o mundo inconsciente, que é um lugar íntimo, ao qual acedemos às vezes.4
Descemos a escadaria, que, quando penetra no subsolo, trata-se do saber oculto e das profundezas do inconsciente,5 e mergulhamos no verde que nos conduz por uma experiência corpórea, sensorial e visual. À dificuldade inicial da consciência total do espaço, que leva a que os nossos sentidos se agudizam, segue-se o impacto visual e estético da instalação Atracadouro cujo plano longo e aberto é reforçado pelo jogo de tensões entre escuridão e luminosidade, assumindo-se a luz verde enquanto desenho e recorte do campo da obra. Num interessante paralelismo com o submundo e o rio Styx, por onde Caronte, barqueiro de Hades, transporta as almas dos recém-falecidos até ao mundo subterrâneo, destacamos o título da instalação Atracadouro - estrutura portuária ou costeira onde as embarcações ancoram, servindo de apoio ao embarque e desembarque de passageiros. Afirmando-se como lugar de transição e de espera, dominado pela tensão nos momentos de partida e chegada, o Atracadouro de Paulo Wirz confronta-nos com questões de temporalidade, (i)mortalidade, estados de transformação, presenças e ausências.
Qual paisagem escultórica – ou jardim de rosas – que se estende pelo espaço, observamos diversas garrafas de vidro que, contendo flores e estrategicamente colocadas no chão, incitam à navegação de um percurso pelo espectador, bem como à interação e integração na obra. A componente lúdica da instalação acompanhar-nos-á ao longo da travessia pela mesma, num jogo constante de descobertas de objetos, materiais e camadas de significação, não deixando de ser curioso o próprio formato das garrafas que, como peões de um tabuleiro de xadrez ou pinos de uma partida de bowling, apresentam uma caraterística formal de jogo.
O interesse do artista por objetos e pelo que nos oferecem, pelas histórias que emanam, pelas narrativas e (re)leituras que resultam da sua recontextualização, constituem aspetos transversais à sua prática artística. Ao expor objetos que encontra, recolhe e integra no processo de trabalho – objet trouvé – Wirz assimila o que já existe e o que pode ser novo quando construído e relacionado. Mantendo pré-conceitos e linguagens, os objetos que compõem as suas instalações não negam o que já consigo transportam, aspecto que foi determinante na inclusão de garrafas coletadas na rua pelo artista por já terem tido uma vida coletiva, cada uma com vida própria, como se fosse um encontro de várias pessoas6.
Símbolo do amor, da vida, de uma perfeição acabada, cada garrafa ostenta uma rosa – artificial – apresentando-se ambos os elementos como que congelados no tempo, ao estarem revestidos por uma tinta que evoca cimento. Com este gesto de suspensão temporal, o artista eterniza a efemeridade do ciclo de vida da rosa, confrontando-nos com noções de morte e imortalidade, de sacrifício e de busca pela vida eterna em paralelo com a vaidade humana. O simbolismo de regeneração da rosa, que leva à colocação de rosas sobre tumbas desde a Antiguidade, está igualmente presente em Atracadouro, cuja paisagem criada no espaço e a cor cinza dos elementos remetem a um memorial expandido, lápides que nos transportam para um ambiente fúnebre, um cemitério sem nomes.
Completando a instalação e conferindo à exposição um carácter terreno e materialista, destaque para a presença de moedas e cigarros, objetos por vezes pedidos na rua e que quais “moedas de troca” religam a sociedade. Espalhadas pelo chão, as moedas remetem à necessidade ou ao desejo, quando lançadas em fontes. Tratando-se aqui de Styx, um rio subterrâneo, há uma associação ao Óbolo de Caronte, que, pago ao barqueiro, garante a travessia pacífica das almas pelo rio até ao reino de Hades, simbolizando a importância do ritual funerário e a viagem da vida para a morte. Cuidadosamente posicionados ao lado de algumas das garrafas, os cigarros perdem a sua função ao surgirem enlaçados um por um com fio vermelho, permanecendo no plano material: os objetos sabem que precisam pagar para atravessar, mas os fios mantêm-nos presos a este lado.7
Se em trabalhos anteriores, nomeadamente nas instalações site-specific de larga escala Dormitórios (Kunsthalle Arbon, 2025) e Cadeias (Kunstmuseum, 2025), ao refletir sobre práticas ritualistas e religiosas sincréticas do Brasil, o artista já havia recorrido às garrafas, ao cimento, às rosas e ao fio vermelho, em Atracadouro constatamos uma evolução e sistematização poética da sua obra e criação de novas narrativas, como num jogo experimental. O aspecto lúdico que caracteriza a prática artística de Wirz prossegue na criação em Atracadouro de uma simetria dentro de uma assimetria: apesar de utilizar diferentes tipos de garrafas - altas, baixas, bojudas e estreitas - as rosas artificiais possuem um tamanho standard originando, não obstante estas contradições, um plano final uniforme.
Através de uma economia de gestos, Paulo Wirz explora dimensões conceptuais, materiais e culturais com recurso a materiais baratos, elevando o que os outros descartam. Ao criar instalações a partir de meios modestos, o artista incita-nos a repensar os nossos valores e a aproveitar o tempo para ver o que pode estar silenciosamente à espera da nossa atenção. Abordando rituais e mitos como estratégias para compreender a morte ou a transformação, Submundo lança-nos numa reflexão sobre a ideia de tempo - e da sua passagem do tempo - enquanto meio e metáfora, sobre a eternidade, a efemeridade e o mais antigo mito da história humana: a vontade de ser imortal.
A exposição pode ser visitada no espaço Teodoro W. até dia 7 de junho.
1 Fundado por Filipe Afonso e Ricardo Azevedo no nª14 da Rua do Heroísmo, o espaço de arte tem apostado desde a sua abertura, em junho de 2025, numa abordagem experimental no que respeita à produção artística, curadoria de exposições, programação de filmes e música, desenvolvendo métodos inovadores de exibição e interação com o público. Entre os projetos de artistas emergentes e consagrados destacam-se: Test Drive de Martín Bruce; Trinta e Um de Lyra Boto; Eye Contact de David Leal; A Roda Ao Redor Da Roda A Rodar de Inês Lima ou Blooming Season de Ivan Hunga Garcia + Abril Xavier.
2 CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain: Dicionário de Símbolos:(mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). Livraria José Olympio Editora S.A., Rio de Janeiro, 1992, p.382.
3 Cit. do artista durante a entrevista informal realizada pela autora no dia de 21 maio de 2026.
4 Idem.
5 CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain: Op. cit., p.382.
6 Cit. do artista durante entrevista informal realizada pela autora no dia 21 de maio de 2026.
7 TEIXEIRA, Guilherme – O mole, o óbolo e as formas incorporantes [Folha de sala da exposição, 2026].