Inspirados pelo princípio de ajuda mútua do filósofo Piotr Kropotkin e a visão de simbiose de Lynn Margulis, como forças centrais na evolução e progresso civilizacional, a equipa curatorial da Anozero propõe uma reflexão sobre formas de partilha na arte e na arquitetura, e sobre o significado de dar e receber na atualidade. Hospitalidade, generosidade, simbiose e o modo como habitamos o mundo - e as suas feridas - são conceitos abordados na bienal, cuja temática é definida pelos curadores como um ato implícito de resistência contra a política de agarrar e tomar.
Estendendo-se por oito espaços distintos da cidade de Coimbra, as exposições que integram a presente edição de Anozero, com obras de sessenta artistas nacionais e internacionais, não devem ser entendidas como mostras independentes, mas, segundo Daniel Madeira, como uma exposição rizomática que tem o seu núcleo no Mosteiro de Santa-Clara. É precisamente neste espaço que somos confrontados com as feridas do mundo e os seus lamentos ao ouvirmos choros e orações, cantados em diferentes línguas por carpideiras profissionais. Again the Lament (2024), instalação sonora de Taryn Simon, envolve-nos numa experiência imersiva e sensorial que explora a relação com o espaço, o nosso corpo e sentidos à medida que percorremos o longo corredor escuro. Conduzindo-nos a uma pequena luz - sinal de esperança -, as vozes da composição musical criada pela artista, que evocam preces das freiras que outrora habitavam o mosteiro, lamentam e choram a “morte” do mundo atual, numa relação entre sagrado/conflito que reencontramos em Desert Turned to Glass de Charles Stankievech. Num momento de suspensão do tempo, a instalação escultórica de um meteorito flutuante sobre um chão de areia revela-nos o período anterior ao impacto cataclísmico que converterá a areia em vidro. Reflexões sobre o planeta e a ação humana no território prosseguem em Controlled Burn (2023), de Julian Charrière, obra fílmica que nos confronta com paisagens marcadas pela extração de recursos naturais. Violência, dominação, e também o afeto na relação entre o homem e a natureza são retratados no filme O Peixe (2016), de Jonathas de Andrade, onde observamos o ritual de uma vila piscatória do Nordeste brasileiro: abraçar as presas capturadas num gesto ambíguo de poder e cuidado do predador.
A importância atribuída ao espaço e à arquitetura em Anozero, é-nos desvendada em obras como Acredito em tudo (2025) de Rui Chafes, conjunto de esculturas em ferro preto, simultaneamente densas e leves que, suspensas na Sala dos Lavabos, partilham o espaço com o visitante, num jogo de escalas e de posicionamentos, evocando pelas suas formas de bandeiras em movimento uma estruturação em desequilíbrio. Experiência transformadora do espaço e das obras, reveladora da arquitetura como disciplina de experimentação, que observamos nas três instalações do coletivo Centrala, observatórios localizados no mosteiro e no jardim que permitem (re)conectar com o cosmos.
É também no jardim que se apresenta Monument to the Ordinary (2026), do coletivo KOSMOS, estrutura escultórica monumental concebida a partir de antigos armários militares, através da qual se questiona o que merece ser recordado.
A imagem enquanto agente de transformação, metamorfose e cura, é-nos revelada em Stendhal Syndrome (2024), de Nan Goldin, obra videográfica que, qual cartografia de páthos humano, combina imagens da história da arte com fotografias íntimas de amigos da artista acompanhadas pela sua voz e música de Soundwalk Collective.
Fora do espaço do Mosteiro, a relação entre corpo e paisagem é explorada nas obras de Fina Miralles, Alberto Carneiro e Pedro Vaz, em exibição no Círculo Sede. Entre desenhos, esculturas e filme, os trabalhos dos três artistas desenvolvem-se a partir dos ritmos da natureza, tornando visíveis as energias contidas nas matérias naturais e na paisagem, como que corporizando o desenho sonoro descrito e verbalizado por Luisa Cunha em Words for Gardens (2004), de um jardim em transformação, que ecoa como um mantra na Estufa Fria do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra.
No Círculo Sereia, destaque para o núcleo dedicado ao genocídio em Gaza. Just in Case (2024), de Taysir Batniji, que reúne, num trabalho sobre memória e apagamento, fotografias de chaves de palestinianos obrigados a fugir e a abandonar as suas casas durante os bombardeamentos. Adam Broomberg e Rafael Gonzalez apresentam fotografias de oliveiras centenárias nos territórios ocupados da Cisjordânia, testemunhos de resistência perante a destruição. Mostram-se ainda, neste núcleo, três fotografias de Thomas Demand que abordam a crise e a agressão, e os filmes de investigação do coletivo Forensic Architecture que revelam as marcas da guerra e da violência política.
A dimensão política da guerra volta a estar presente na Sala do Capítulo do Convento de São Francisco com a instalação escultórica e sonora Se estas pedras falassem (2026) de Maria Trabulo. De cariz arqueológico, promovendo uma reflexão sobre a pilhagem e a destruição do património cultural sírio a partir do caso do Museo de Raqqa, observamos, no chão, artefactos - reconstituídos pela artista - cercados por fragmentos de ruínas, ao mesmo tempo que ouvimos as vozes daqueles que recordam o museu.
Regressamos ao Mosteiro, onde, ao redor de um antigo tanque convertido numa longa mesa pela Inside Outside, coberto por azulejos cor-de-rosa brilhantes que refletem as árvores e o céu, somos convidados a sentar-nos nas cadeiras instaladas, seja para conversar com desconhecidos ou para contemplar o terreno onde o coletivo plantou laranjeiras que crescerão nos próximos anos. É neste momento de pausa e introspeção que recordamos a pichagem do Arquivo Mangue, numa das paredes do Mosteiro: Vende-se Tabu, palavras de manifesto num momento em que o futuro da Anozero-Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra é ainda incerto.
A ativação e contaminação da cidade de Coimbra através da Anozero-Bienal de Arte Contemporânea e o papel desta enquanto estrutura de coesão social e de criação de espaços refletem-se na elaboração de uma programação convergente, cuja pluralidade de propostas se assume como um gesto de encontro em torno do tema Segurar, dar, receber.
Num gesto de acolhimento entre os diversos equipamentos culturais da cidade, agentes e artistas, apresentam-se no âmbito do programa convergente da bienal as exposições: CUIDADORIA, da dupla de artistas-curadores Ana Rito & Hugo Barata, na Casa Museu Bissaya Barreto, projeto que se trata de uma expansão do cuidado como prática estética e ética, em que o ato de curar se converte em exercício de atenção, hospitalidade e afeto; Mapas do Olhar III – Ancestralidades, migrações e deslocamentos, da autoria dos alunos de artes da Escola Secundária Avelar Brotero; Volátil, de André Silva, na Galeria 7, enquanto campo de tensão entre memória, matéria e mundo; Os Trópicos têm poros, de Lilian Walker, no Museu do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra; e Bálsamo com Gil Maia, na Galeria 7.
Destaque ainda para a expansão do programa através da Open Call Convergente, dedicada ao fomento de práticas artísticas que exploram experiências sensoriais e participativas. A iniciativa convoca artistas, coletivos e mediadores, que - através de performances e percursos participativos - irão recorrer à cidade enquanto palco, lugar de encontro e campo de experimentação, abrindo caminhos para novas formas de trocas entre quem cria, quem participa e quem habita Coimbra.