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Sobre "Desisto — o que não vejo imagino", de Nuno Sousa Vieira
DATA
21 Jul 2026
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AUTOR
Maria Brás Ferreira
"As obras de Sousa Vieira dispõem-se, com efeito, enquanto promessa cénica, convidando o espectador a imaginar um guião, um desfecho, ao mesmo tempo que o seu corpo vagueia pela galeria, numa incontornável ocupação teatral do espaço: imaginar o invisível passa, então, por ceder à tentação de nos vermos ao longe e a participar de um acontecimento necessariamente colectivo, assumindo a nossa existência em relação, subitamente colocada ao serviço e/ou enquadrada pela concepção artística — e, é claro, ético-política — do artista Nuno Sousa Vieira."
Nem sempre se deve começar pelo início. Isto é, nem sempre o início proposto deve ser lido em primeiro lugar. O título da exposição de Nuno Sousa Vieira impõe, todavia, uma disposição na qual devemos atentar e que devemos apreender para prosseguir com a visita à sua mostra — Desisto — o que não vejo imagino. Se ao título fosse subtraída aquela primeira inflexão do verbo desistir, na primeira pessoa do presente do indicativo, poderíamos pensar tratar-se de uma redundância, ou pelo menos, de uma obviedade: de facto, se algo não se nos revela, será possível travar o curso de imagens na nossa cabeça? Talvez a nossa capacidade imaginativa seja proporcional ao invisível testemunhado, isto é, talvez sejamos capazes de imaginar na justa medida em que somos capazes de testemunhar a presença magnética do invisível. A capacidade do pressentimento, uma suspeita, o espanto? Trata-se, pois, de sentir uma presença não por reconhecimento visual, mas pela activação de outro sentido, que estimula o primeiro por sugestão. Se tudo isto é verdade e pode parecer óbvio, a verdade é que não o é até alguém o dizer, como, de resto, muito boas tiradas poéticas que geram em nós a sensação de uma familiaridade tal que a sua contemplação havia sido, até então, impossível, mas por fim desbloqueada. A arte dá-nos, pois, uma distância permissiva do reconhecimento. O centro do título vai para a palavra desisto, por encerrar uma invectiva à proximidade cega, a favor de um distanciamento criativo e, consequentemente, de vínculo afectivo com os objectos, os quais se recusam, afinal, a serem reproduções de ideias pré-estabelecidas. Aqui, a desistência não se comunica enquanto fracasso de um projecto no sentido da impotência, dizendo sim da capacidade de contornar uma gramática, de procurar desviar-se de idiomas a aplicar ao que se vê, sob uma intenção, supostamente devedora, de decifração. A proposta é a de passar do lugar da testemunha para o da experiência, de receptor passivo a agente activo (também disto não se pode dizer tratar-se de uma redundância). Ver, saber ver, olhar criativamente as coisas passam por essa desistência, enquanto exercício análogo ao da distracção como atenção sobre outra coisa, essa outra coisa que a norma marginaliza, por não servir funções de convivência e bom-senso. Assim, a proposta do artista passa por um movimento de corte, tão disruptivo quanto a nossa capacidade para reconhecer uma falta não condenável, esquiva a juízos moralizantes - (auto-)culpabilizantes, e a disponibilidade a activar um sentido crítico-criativo: crítico porque exige uma revisão das gramáticas instituídas e criativo porque intuitivamente propõe, nesse corte, uma sutura alternativa da pele.
As linguagens da exposição são verbais e visuais, estas dividindo-se em pintura, escultura, instalação e vídeo. A multiplicidade de recursos expressivos concorre para a entrevista, assaz sugestiva, de um futuro carnal de que as peças da exposição constituiriam, assim, a roupagem por envergar. As obras de Sousa Vieira dispõem-se, com efeito, enquanto promessa cénica, convidando o espectador a imaginar um guião, um desfecho, ao mesmo tempo que o seu corpo vagueia pela galeria, numa incontornável ocupação teatral do espaço: imaginar o invisível passa, então, por ceder à tentação de nos vermos ao longe e a participar de um acontecimento necessariamente colectivo, assumindo a nossa existência em relação, subitamente colocada ao serviço e/ou enquadrada pela concepção artística — e, é claro, ético-política — do artista Nuno Sousa Vieira.
Se as linguagens presentes na mostra são verbais e visuais, a sua virtude maior desdobra-se numa sugestão táctil, ou não fossem as roupas espécies de mãos a cujo toque nos acostumamos de tal forma que, mais das vezes, nem damos pelo atrito gerado pelo contacto com a nossa pele. É-nos, pois, devolvida uma plasticidade lúdica que passa, é claro, pela consciência do que vestimos. Um livro impresso, com uma espécie de teatro escrito, convida-nos à assunção de um papel. Cada personagem detém uma função só fixável pelo apelo que (re)significa em cruzamento com o das outras personagens, formando-se um jogo dramático infinitamente desmontável e recombinável. Elemento 1: duplo vivo, duas telas sobrepostas, a de baixo, vermelho-sangue, a de cima, assemelha-se a uma mortalha mexida, conservando a memória do toque, é o personagem duplo, cindido numa potência desconhecida, sombra de um primeiro encontro que nos acompanhará ao longo da exposição. Circulamos ao redor de um biombo curvo, ou a quarta parede concretizada numa exposição-teatro-aberto, o invisível revelado, o ponto-de-vista do outro tornado manifesto e forçando a um desvio imaginativo do olhar. Um corredor de roupas ou, talvez fosse melhor dizer, de peles abertas e suturadas, de improviso — Corpo-Ferida — apresenta-se-nos como desfile de roupas carregadas de memória, a começar, a memória das mãos. Sousa Vieira lembra-nos da impureza da pele, de como esta sinaliza uma história cujos limites não são resumíveis numa biografia, mas sempre lançados num devir que a torna, à própria pele, excessiva, ao mesmo tempo apontando para a urgência de amplificar a própria palavra que a designa. E lembrar-nos dessa impureza, tão constitutiva quanto sã, significa a atribuição da responsabilidade de estarmos vivos, entre outros.
O piso de baixo sintetiza o pendor figurativo e abstracto que a exposição toma por bitola dramática. Ana Anacleto, na folha de sala, coloca a hipótese por demais interessante da virtude operática da mostra —, que, nas figuras do Declamador e d’O Artista Sombra, adquire um valor surrealista, parecendo o Artista uma dessas figuras derretidas de Salvador Dalí como se carbonizada, e um esboço, também negro, de uma imagem circense — o Declamador —, figura lunar pela escuridão que a si convoca para a revelar em imagens, por ora, contidas numa boca, alta, tão alta quanto os sonhos invisíveis durante o dia — uma boca onde moram novos dicionários por articular. Coisas caídas tornam-se objectos levantados, por exemplo, numa parede (como Elemento 2: objeto caído). E na máxima altura, ao nível das mãos que trabalham a matéria — jogo imprevisível —, desaguam os nossos olhos, no vídeo Mais alto do que a luz.
Nuno Sousa Vieira envia-nos para o plano imediatamente acima da matéria que ilumina; coloca-nos ao nível da superfície sensível, onde os corpos não são causa nem efeito, mas puro acontecimento, ao redor da regra asséptica da lei, na esteira imprevisível da língua.

A exposição Desisto – o que não vejo imagino pode ser visitada na Galeria 3+1 Arte Contemporânea até 12 de setembro de 2026.
BIOGRAFIA
Mestre em Estudos Portugueses, pela Universidade Nova de Lisboa, com uma tese sobre Nuno Bragança. Encontra-se a escrever uma tese de doutoramento sobre Agustina Bessa-Luís e Manoel de Oliveira e a melancolia. Bolseira FCT, participou em antologias, tendo publicações, de poesia e ensaio, em revistas nacionais e internacionais. Publicou dois livros de poesia: “E o Coração de Soslaio a Todo o Custo” (2025) e “Penhasco” (2025). É co-editora da revista Lote. Faz crítica literária no jornal Observador.
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