Serão certamente vários os possíveis centros a partir dos quais podemos auscultar esta mostra e desdobrar a sua legibilidade e potência expressiva, tratando-se de uma exposição que reúne peças pertencentes à colecção privada de Julião Sarmento, assim naturalmente submetida ao gosto pessoal do artista coleccionador. Assim, num certo sentido, trata-se de uma exposição de Fernando Calhau, Rui Chafes e Julião Sarmento.
Pensei a exposição a partir dos princípios do recorte e do biómio peso-leveza, tornados operantes pela atracção e o magnetismo da vertigem enquanto esteira de criação artística. Note-se na peça exposta de um casaco de malha metálica, da autoria de Chafes, justamente intitulado “Vertigem”: a impressão é a de uma ausência estranhamente leve; o espectador quase se auto-censura pela tenuidade fina que um corpo deslocado, potencialmente morto ou desaparecido, lhe transparece. A leveza torna-se, consequentemente, uma ameaça, motivo de repreensão - território interdito? E apercebemo-nos que a gravidade expõe precisamente a nossa tendência, ou a nossa condenação, ao peso: seremos livres só e apenas se centrados por um encargo? Se carregarmos, aos ombros, um qualquer peso, afinal de contas, salutar para a nossa verticalidade física e moral? Por outro lado, aquele casaco despido de um corpo parece conter em si a potência de uma história, e talvez seja essa sugestão que torna a leveza prazerosa, ao mesmo tempo que suspeita: o que aconteceu àquele corpo? Que espécie de guerra travou aquele que habitou aquela peça? (impossível não pensar nas malhas protectoras dos trajes militares medievais). A narrativa e o prazer de testemunhar e contar histórias revelam a sua face profana, e dança sem deixar outro rasto além do do nosso desejo, nosso temor, e viaja redefinindo perímetros, acusando interditos, sitiando para libertação futura espaços fechados.
Aa ideias de gravidade e peso assumem, na exposição, diversos sentidos figurativos e conceptuais. Numa peça dupla, de Fernando Calhau, lemos, no primeiro quadro, a frase “South East Noon”, sobre um fundo negro, com chispas brancas - de luz, de giz numa ardósia, de poeiras num negativo? -, quadro ladeado por outro, cinza, onde se lê “South East Night”, também pontuado pelas mesmas chispas. Ao meio-dia, o céu, ou o fundo, ou um véu que seja, é mais negro do que de noite. A conclusão mais ou menos óbvia seria a de que ao meio-dia se vê menos - a luz cega - do que de noite; noite cuja escuridão não é tão intensa, ainda que, com efeito, oblitere as tais chispas brancas, dado que o menor contraste não permite uma tão firme nitidez. Esses traços brancos, cuja natureza não chegamos a discernir, parecem surgir como o erro preciso para que seja provocada uma discrepância tonal que permita a visão. A capacidade de olhar não está, pois, necessariamente ligada à claridade disponível, mas antes à presença de corpos dotados de registos luminosos distintos, que permitam uma leitura por contraste. Esses misteriosos corpos brancos funcionam como formas recortadas, só visíveis por relação a outro corpo, de fundo.
O peso pode ser também sugerido pela sinalização de presenças invisíveis, que fazem de nós o eixo e a gravitas, em antecipação de um mundo que não chegamos a habitar, mas que pressentimos existir. Noutra peça de Fernando Calhau, em néon azul lemos oãzar - razão ao contrário -, peça que nos convida a passar para uma câmara, espécie de retiro ou recuo dentro da sala da exposição, onde seis chapas de aço, três de cada lado da parede, se alinham simetricamente. Na parede em frente, ao centro, ergue-se outro néon azul com a inscrição ratio - razão em latim. Regresso à origem etimológica da palavra razão - e o seu império civilizacional, seu motivo, mesmo esse, de fé -, impressão mórbida da solidão da morte como inevitabilidade; o medo da morte que chega apesar de todo o pensamento com as sua(s) lógica(s) subjacente(s). Será difícil não pensarmos, quando confrontados com as chapas de aço, com tamanho de gente, em arcas frigoríficas numa morgue. São chapas-portais para um passado em suma perfeito, rematado pelo fim: inaugural de-composição. Ou são portas para nada, caminho para coisa nenhuma, o universo infinito.
Não interessa necessariamente procurar uma síntese para a exposição. Talvez o melhor fosse justamente deixá-la respirar na certa flutuação a que se propõe, flutuação daquilo que tende a ser grave, no dia-a-dia, e que adquire um outro peso, ou que aspira a outra leveza, quando deslocado para um espaço de exposição artística. O que comove nessa peça, de Fernando Calhau, do verso de um envelope com a estampa da conhecida serigrafia de Andy Warhol, do rosto de Marilyn Monroe, é talvez a devolução, ao ícone maior do século XX, da pobreza salutar de todos os dias, não da leveza do anonimato, mas da simples possibilidade de ser outra coisa, de entrar noutra história: trata-se da interrupção de uma correspondência iconográfico-normativa para a abertura de outra possível constelação, essa, recolhida, não da frente, mas do verso, não de domínio público, mas da assunção do segredo subjacente à urdidura mais ou menos engenhosa da história que cada um constrói. Recorrendo ao material singelo de um envelope, que serve de meio de comunicação entre tantas pessoas, cada uma com um rosto, e cada uma potencial remetente e/ou destinatário, Fernando Calhau estende uma página em branco a Marilyn, faz uma jura de escuta. Outra peça que funciona também como caixa de ressonâncias, notas para uma canção por vir, é a escultura, de Rui Chafes, Onde a Luz Morre III. Trata-se de uma caixa preta, em ferro, suspensa do tecto, com uma fenda ao centro, a lembrar o orgão sexual feminino: sexo e nascimento; a morte para a qual a vida é invariavelmente um adiantamento. Ali jaz uma mãe, ali nasce - indefinidamente, nasce - um ser. Ali amantes fazem uma espera à espera. Isto é, ali começa outra história: H pequeno, com certeza. A luz morre curiosamente onde o nosso olhar chega, e onde começa a adivinhar outras faunas e floras, outros mundos, onde urge a criação de uma língua nova, de uma ciência de vento, de uma geografia de silêncio, capaz de reunir relevos contrários, rios de sal, mares subitamente doces, e não adoçados. É onde morre a luz que o nosso olhar começa a ser uma seta de efabulação. Goethe, na sua Doutrina das Cores, escreve: “Temos ainda de enunciar uma qualidade geral das cores: devem ser consideradas incondicionalmente como meio luz, meio sombra, razão pela qual surge um cinza, um sombreado, quando elas combinam duas qualidades específicas anulando-se”. A ambivalência que as cores reflectem, apoiando-me na teoria goethiana, é prima do par peso-leveza, enquanto pólos entre os quais a vertigem se gera. O despir, não da veste, mas do próprio corpo, a viagem do olhar a que uma inversão iconográfica obriga, como investimento, se não passional, por certo de dois amigos depois de muito reencontrados.
A exposição Depois de Para Sempre pode ser visitada no Pavilhão Julião Sarmento até dia 14 de junho de 2026.