Estimados leitores,
Escrevo esta carta a propósito de To Whom It May Concern, o mais recente projeto de João Bragança Gil, apresentado nas Carpintarias de São Lázaro, em Lisboa. A exposição, cujo título se apropria dessa saudação formal utilizada quando o nome do destinatário é desconhecido, constitui-se também como uma carta. Parte de João Bragança Gil (Lisboa, 1989) e dirige-se a uma entidade cibernética gigante, uma criatura indizível com múltiplas formas que se desdobram pelo espaço expositivo.
A carta que escrevo dirige-se ao visitante que não teve oportunidade de conversar com o artista. To Whom It May Concern, conta-nos, surgiu na sequência de um projeto anterior, Paraísos Artificiais (2023), que apresentava o jardim como um dispositivo tecnocientífico. "A investigação partiu sobretudo do livro Virtual Menageries: Animals as Mediators in Network Cultures (2019), de Jodi Berland, que defende que os animais foram utilizados como códigos afetivos para habitar o mundo digital." 1 Desta leitura resultaria um interesse quase obsessivo pelos seres que habitam esse ambiente digital, evidente na peça Virtual Menageries (After Jodi Berland), que nos mostra uma coleção de animais e logótipos enjaulados, como se a televisão delimitasse o espaço de uma jaula virtual ou de um proto-jardim zoológico. Mais tarde, este processo viria a ganhar tração, resultando numa investigação mais ampla sobre as formas — para além dos animais — que esta entidade poderia tomar.
To Whom It May Concern, o vídeo que dá título à exposição, traça uma história da cibernética, servindo-se de found footage e de uma estética dos anos 90 para construir uma arqueologia-genealogia caleidoscópica e fragmentada desta identidade. Mas estes elementos ultradigitais misturam-se também com um imaginário mitológico clássico e da cultura pop. Alien, por exemplo, parte da personagem do filme de 1979, remetendo-nos para o digital, tão estranho quanto sedutor. Por sua vez, Hydra, produzida em aço inox eletrogravado, mostra-nos a imagem da terrível serpente aquática de várias cabeças da mitologia grega. "Interessava-me introduzir este elemento clássico, especialmente porque aqui encontro algumas semelhanças com o digital. Tal como a Hydra, cujas cabeças voltam a crescer depois de cortadas e que nunca conseguimos verdadeiramente dominar, também o digital se multiplica e escapa ao nosso controlo. Os seus mecanismos são demasiado impenetráveis e persistem mesmo sob a forma de fantasmas, como acontece com a estética dos dispositivos obsoletos, que sobrevive muito para além do momento em que é anunciado o seu fim" 2, conta.
Escrevo também esta carta porque é difícil escrutinar esta entidade cibernética e porque a escrita, ou a produção textual, é sempre uma resposta a essa ferida inata que nos impede de conhecer, como escreveu Umberto Eco. Foi precisamente essa impossibilidade de apreensão que mais se impôs durante a visita e que parece orientar toda a exposição, cuja cenografia foi concebida para que o próprio espaço expositivo se transfigurasse numa espécie de submundo. Da penumbra da exposição emergem servidores, interfaces e dispositivos que se transformam em objetos ambíguos, simultaneamente funcionais e obsoletos 3. São os fantasmas e as promessas falhadas do digital, que persistem no espaço como formas suspensas. Vemos inúmeros cabos, tornados visíveis pela iluminação, e imaginamo-nos no interior deste ser(vidor) desventrado. Destacam-se focos de luz que iluminam as várias peças no interior de uma caverna, ou de um bunker escuro. São laivos de acesso a uma verdade luminosa que não chega a concretizar-se por inteiro. Vemo-la ao longe, sem sairmos verdadeiramente da escuridão. "Nunca procurei dar respostas. Por mais investigação que faça, não há um sentido direcional. Quero propor vários pontos de vista e fragmentar esses pontos de vista tanto quanto possível" 4, diz-nos João Bragança Gil.
Talvez por isso a exposição seja também uma carta aberta. Uma carta que lança pontos de luz e constelações efémeras sobre qualquer coisa, cuja instalação formaliza precisamente essa abertura. Que parte do artista, mas que nele não se encerra. Que permanece aberta às múltiplas associações que o visitante aqui possa construir, ao cruzamento de referências, às diferentes formas que esta criatura pode assumir. Aberta porque experimenta em vez de concluir; porque lança pistas que apenas desbravam um caminho possível para o entendimento deste ser mitológico e tecnológico, que não compreendemos por inteiro, mas cujos cabos, interfaces e vestígios continuam a envolver-nos. Aberta porque a clausura nunca poderá ser o mecanismo para tratar o desconhecido. Porque ser artista é ser curioso e, ouvi dizer, é muito estranho quando os artistas dizem coisas acertadas 5. Cabe-lhes, antes, fazer perguntas.
Despeço-me sem nada mais a acrescentar. Coloco-me inteiramente à disposição para qualquer esclarecimento adicional.
Com os melhores cumprimentos,
Maria Inês Mendes
Com curadoria de Carolina Quinetela, a exposição está patente nas Carpintarias de São Lázaro até dia 19 de julho.
1 João Bragança Gil, 10.07.26.
2 João Bragança Gil, 10.07.26.
3 Texto de sala da exposição, escrito por Carolina Quintela.
4 João Bragança Gil, 10.07.26.
5 Frase do escultor Rui Matos, que me chegou através do Tomás Serrão.