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¿De qué casa eres?, de Ana Pérez-Quiroga
DATA
02 Jun 2026
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AUTOR
Maria Inês Mendes
“Sem pretensões de se constituir como um documentário, ¿De qué casa eres? compõe-se como uma constelação de imagens que reúne alguns testemunhos orais de Angelita Pérez - evocando o dispositivo cénico de Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles -, documentos e fotografias de arquivo, bem como imagens das instalações anteriormente apresentadas pela artista no âmbito do Criatório, na cidade do Porto.”
No casulo:
uma mesa quatro cinco estantes
livros por centenas ou milhares (…)
uma máquina de escrever olivetti
com a tinta acumulada nas letras mais redondas
cachimbos barros estanhos medalhas fotos
bonecos marafonas lembranças
retratos alguns gente ida ou vinda
(…) 
sinais da minha terra também. 
(O Casulo, de Fernando Namora)

Há muito que Ana Pérez-Quiroga investiga os objetos. A temática do doméstico, bem como a sua inventariação invariavelmente obsessiva é já central na sua prática - evidente, por exemplo, no seu projeto Breviário do Quotidiano #8, concebido como uma casa-instalação e, ao mesmo tempo, como uma listagem e categorização exaustiva de todos os seus pertences. Em ¿De qué casa eres?, o primeiro filme realizado pela artista, os objetos retomam a sua centralidade, constituindo-se como ponto de partida para contar a história da sua mãe, Angelita Pérez, uma das três mil crianças que partiram para a União Soviética durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). 
Enviada com apenas quatro anos para a Rússia, onde permaneceu duas décadas e concluiu os estudos em medicina, Angelita Pérez ficou impedida de regressar a Espanha após a derrota dos republicanos e a consolidação da ditadura de Francisco Franco. Foi em 2017 que Ana Pérez-Quiroga se debruçou pela primeira vez sobre a história da mãe, até então praticamente indizível no seio familiar. Começou pelos objetos e foi aí que se lhe abriu, pouco a pouco, um campo de possibilidades narrativas e formais. 
Anos mais tarde, os resultados dessa investigação reaparecem nas salas de cinema. À semelhança da sua investigação, também o filme - num registo híbrido, quase escultórico, como só uma artista plástica poderia conceber - avança ao ritmo dos objetos. “Estes são os objetos que a minha mãe trouxe da Rússia”, diz-nos, iniciando depois uma extensa enumeração que rasga uma fresta para a sua intimidade: um rádio gira-discos; um álbum de fotografias de arquitetura; um álbum de fotografias pessoais; um biquíni tricotado pela minha mãe; um estetoscópio; o diploma de medicina; uma pregadeira com uma pomba; um medalhão para fotografias e um fio; sete elefantes de marfim.
Sem pretensões de se constituir como um documentário, ¿De qué casa eres? compõe-se como uma constelação de imagens que reúne alguns testemunhos orais de Angelita Pérez - evocando o dispositivo cénico de Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles -, documentos e fotografias de arquivo, bem como imagens das instalações anteriormente apresentadas pela artista no âmbito do Criatório, na cidade do Porto. O filme aproxima-se, ainda assim, de uma verdade histórica reconstruída através da memória, dos afetos e dos vestígios materiais. Distantes de um exercício de reconstrução imagética, são estes pequenos fragmentos que nos lançam pistas sobre o que havia sido a vida daquelas crianças. 
Em Cultura e Barbárie Europeias (2007), Edgar Morin recorda que as imagens negras, embora brutais, podem reduzir a complexidade do acontecimento a um único efeito visível (“Quando os Aliados chegaram às portas de Dachau, depararam-se com amontoados de cadáveres. Ficou então a impressão de que o horror nazi se limitou a este efeito de empilhamento de corpos. Porém, o horror nazi tem menos que ver com o empilhamento de cadáveres do que com o funcionamento desta máquina de morte aperfeiçoada. Não é necessário que uma imagem, por mais horrível e gritante que seja, nos esconda a realidade”). Talvez por isso, e em continuidade com a tradição inaugurada por Shoah (1985), de Claude Lanzmann - que abdica das imagens dos campos de concentração e constrói o filme quase exclusivamente a partir da voz e da narração -, ¿De qué casa eres? não restitui a experiência, mas antes instaura um exercício de imaginação e de escuta, particularmente frutífero porque não encerra a imagem numa obsessão com a evidência. 
É precisamente nessa distância em relação à evidência visual que reside a sua potência. Em ¿De qué casa eres?, há espaço para a incompletude. “Prefiro não falar sobre isso”, diz-nos Angelita Pérez a certa altura. A ausência é também relevante do ponto de vista da formulação histórica: indício de um qualquer trauma que não pode ainda ser traduzido pela linguagem. Mas se essa distância inviabiliza qualquer reconstrução totalizante, abre também espaço para outras formas de aproximação ou de (re)encenação, como escreve Susana Bessa no seu texto ¿De qué casa eres?: a casa é o que dela fazemos. Segundo a autora, o filme habita uma zona ambígua entre o testemunho e a (re)encenação. Os contornos da narrativa deslocam-se: a memória desdobra-se, contradiz-se, recompõe-se. Pelo meio, a recriação da Guernica em tecido - concebida por Ana Pérez-Quiroga e patente na Appleton até 19 de junho - funciona como uma cortina que abre e encerra as várias cenas. A sua presença pontua a narrativa e introduz uma dimensão teatral que a afasta de qualquer ilusão documental. Como saber, então, o que é verdade? A questão parece interessar menos ao filme do que a coexistência de múltiplas versões do passado; do que a possibilidade de esculpir uma casa (um casulo) para a memória. E de, assim, descobrir os sinais dessa terra que é sua também.
BIOGRAFIA
Maria Inês Mendes frequenta o mestrado em Crítica e Curadoria de Arte na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Em 2024, concluiu a licenciatura em Ciências da Comunicação na Universidade NOVA de Lisboa. Escreveu sobre cinema no CINEblog, uma página promovida pelo Instituto de Filosofia da NOVA. Atualmente, é responsável pela gestão da UMBIGO online, onde publica regularmente, e colabora com o BEAST - International Film Festival.
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