Deparamo-nos com duas palavras foneticamente ressonantes, Trump e Triumph, ambas derivadas do latim triumphus e que, ao longo de séculos de contextos mutáveis, passaram a incorporar uma espécie de oposição interna, representando hoje um paradoxo nascido da sua origem comum.
Hoje, a palavra Trump carrega múltiplos significados desagradáveis, tendo-se tornado uma “marca” que evoca frequentemente o poder coercivo dos grandes estados. Suponho que a mesma silhueta sombria surja diante de todos, mas, por agora, deixemos essa imagem de lado.
A palavra Trump surge entre os jogos de cartas enumerados por Rabelais no seu Gargantua de 1534. A partir do século XVI, em centros culturais europeus como a França e a Áustria - particularmente Viena -, a terminologia dos jogos de cartas evoluiu dentro das práticas de lazer apreciadas pela intelectualidade da classe alta. Esta deriva semântica continuou até ao século XIX, durante o qual trump passou a denotar tanto uma figura dotada de qualidades superiores como o ato de "pedir trunfo", ou seja, convocar o naipe de trunfo numa parceria.
Encontrar uma referência a Rabelais na obra de Ana Fonseca parece uma feliz coincidência, pois Rabelais é uma figura fundamental do humor e da sátira na literatura. A prática de Fonseca, de forma semelhante, desenrola-se através da expansão gradual de invenções espirituosas, emergindo organicamente da sua inteligência lúdica. A sua linguagem artística fortalece-se com o pensamento histórico sem depender dele, privilegiando um humor que convida tanto ao deleite como à reflexão.
Recordando algumas das exposições anteriores da artista – Put Your Thinking Hat On, Alegoria do Valor e do Merecimento, ou Master Baker – torna-se evidente que o humor na sua obra não é um material acrescentado à arte, mas antes uma extensão natural da mesma. Dentro deste mundo alterado, onde a artista projeta livremente a sua própria personalidade singular, Fonseca joga tanto com a forma como com o conteúdo dos objetos, acrescentando novas camadas de ilusão a uma realidade já repleta de ilusões. O efeito é simplesmente vertiginoso.
No final do século XIV, a palavra triunfo passou a significar sucesso em batalha. Na Roma Antiga, referia-se às procissões cerimoniais realizadas para celebrar as vitórias militares. No mundo moderno, porém, algumas formas de triunfo já não têm equivalente; certas palavras caíram em desuso, esvaziadas da sua força original. Tal como os cavalos, cujo papel se reduziu ao de entreter as classes mais altas, estas são palavras que pertencem a outra era, presas num tempo que já não lhes pertence.
O conceito de “jogo”, nos seus termos mais simples, é um espaço onde a seriedade ostensiva, a ordem dogmática e todas as emoções desconcertantes são encenadas no plano da diversão e do riso. E, no entanto, pode ser perigosamente imprevisível. Trump e Triunfo funcionam tanto como temas como instrumentos de raciocínio. O espetador deve perceber a ténue linha que separa o jogo da nossa natureza comum para que a verdade seja plenamente revelada. No jogo, oscilamos entre ocultar as nossas emoções e ambições e sermos consumidos por elas. Isto ecoa o conselho de Espinosa para alcançar a verdade: deixe de lado a tristeza, o riso e a excitação: faça a sua jogada.
Uma das características definidoras da relação de Ana Fonseca com o mundo é a multiplicidade de significados que retira da sua interação com os materiais. Isto confere à sua abordagem artística uma profundidade que é, ao mesmo tempo, franca, direta, irónica, celebratória, subversiva e exaltante. Neste sentido, a questão que Fonseca levanta inicialmente é crucial:
Pode haver um trunfo sem contraparte?
A noção de “triunfo” tem algum significado dentro de uma democracia?
Hoje, mais do nunca, refletimos sobre os conceitos de poder e autoridade, pois somos diretamente afetados pelos acontecimentos. As forças políticas parecem pressionar-nos constantemente, e a guerra e a destruição já não são fenómenos distantes; estão mesmo ao nosso lado, visíveis e inevitáveis.
Em Subject and Power, Foucault examina o conceito de “biopoder”. Designa esta forma emergente de autoridade como biopoder, um poder disciplinar que se aproxima do corpo humano como uma máquina. O direito passa a funcionar mais como uma norma, e o sistema jurídico passa a fazer parte de um aparelho mais vasto que visa a regulação das forças da vida. Em suma, o biopoder, com o seu foco na própria vida, produz uma sociedade da normalização: uma sociedade que obriga os indivíduos a conformarem-se, tornando-os “normais”. Impõe-lhes verdades a respeito de si próprios, permitindo que o poder envolva o corpo sem recorrer à violência, tornando-o submisso e dócil. Neste sentido, Ana Fonseca abre um espaço fértil para a reflexão sobre a semântica do poder.
A exposição define os seus próprios limites arquitetónicos através de simetrias angulares e de uma espécie de circularidade. A dimensão circular do jogo de cartas sobre a mesa de madeira antiga, de estilo clássico, encontra o seu eco no desenho sobre a tela. À volta da mesa não há cadeiras, nenhum convite para jogar, mas ainda assim parece esperar a nossa presença. O espaço aberto entre o jogo e o jogador torna-se o vazio do espaço de investigação. Ana Fonseca faz sentir a presença das cadeiras na sala através da sua ausência.
A artista explora os conceitos de poder suave e poder coercivo, introduzidos pelo politólogo norte-americano Joseph Nye, apresentando-os como possíveis modos de operação da autoridade. A sensibilidade de Ana Fonseca para o desenho, orientada pelo princípio de que “Tudo começa com uma pergunta a ser pensada através do desenho”, exprime estas noções com uma subtileza notável. A inclusão de uma granada de mão ao lado de objetos elegantes na mesma moldura é impactante; figuras no seu ápice simultaneamente “apontam” para baixo. As suas expressões faciais foram demonizadas ou os seus contornos corporais apagados. Isto faz-me lembrar o princípio de Anton Tchekov sobre a estrutura narrativa: se um fuzil estiver pendurado na parede no início de uma história, deve disparar no final. Os objetos na pintura transportam um potencial inquietante e, enquanto espectadores, deliciamo-nos com essa tensão.
A filosofia que fundamenta o trabalho do artista baseia-se na destruição, purificação e raciocínio, e, precisamente por essa razão, é altamente suscetível à fragmentação. A exposição abre um espaço rico em contexto textual e simbólico, onde o significado é constantemente adiado, em consonância com o princípio de Derrida de que nada existe fora do texto.
Ana Fonseca reúne primeiro oposições binárias, depois desmantela-as, gerando novos significados. No mundo atual, onde as abordagens éticas na política estão enfraquecidas, estas investigações são urgentes.
A exposição Trump or Triumph pode ser visitada na OSTRA até 14 de fevereiro.