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A natureza é uma criação e recriação eterna: Confluências, na Monitor
DATA
20 Jan 2026
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AUTOR
Laurinda Branquinho
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É neste terreno instável que a exposição coletiva Confluências, patente na Monitor, se inscreve, mediada pelo universo interior de cada artista. As obras aproximam-se do natural sob perspetivas divergentes, deslocando-o para o interior da memória, reduzindo-o à escala do corpo, transformando-o em objeto ou contaminando-o com artifício. A natureza deixa de ser origem ou promessa de regresso, permanece como referência inquieta, incapaz de abraçar o olhar ou oferecer conforto."
A natureza é uma criação e recriação eterna, sempre sistematicamente a reconstruir-se, tal como o artista, e tem funcionado como um dos grandes dispositivos simbólicos da arte. No Romantismo, tornou-se espaço do sublime, da emoção e do refúgio, oferecendo uma forma de pensar o mundo e o Eu. A paisagem não era só aquilo que se via, mas aquilo que se sentia ao contemplá-la, funcionando quase como a expressão mais pura do estado de espírito do artista.
Com o passar do tempo, essa relação foi-se transformando. Ao longo do século XX, a paisagem passou a carregar tensões, tornando-se lugar de inquietação, atravessada pela exploração, desgaste e colapso. Ainda assim, a natureza continuou e continua a ser convocada de múltiplas formas pelo artista.
É neste terreno instável que a exposição coletiva Confluências, patente na Monitor, se inscreve, mediada pelo universo interior de cada artista. As obras aproximam-se do natural sob perspetivas divergentes, deslocando-o para o interior da memória, reduzindo-o à escala do corpo, transformando-o em objeto ou contaminando-o com artifício. A natureza deixa de ser origem ou promessa de regresso, permanece como referência inquieta, incapaz de abraçar o olhar ou oferecer conforto.
O trabalho de Helena Lapas centra-se na escultura, depois de décadas em que a tapeçaria foi o veículo principal da sua produção artística. Essa prática, iniciada nos anos 60, introduziu uma sensibilidade à materialidade que persiste mesmo quando a forma muda. Em Blue Boulder (2023), a matéria esculpe uma pedra que parece natural. O objeto é elevado sobre um plinto, sugerindo a solenidade de um artefacto, enquanto a sua autenticidade é constantemente questionada pelo espetador. O mesmo acontece em Zigwam (2020), construída com materiais diversos que reproduzem uma textura, cor e densidade que lembram elementos naturais. A atenção da artista à superfície e ao gesto escultórico parece responder a uma necessidade de confrontar a materialidade de forma mais direta, sem que isso implique uma idealização do natural. Helena Lapas integra a exposição como única artista já consagrada num grupo de jovens que se lançam no mundo da arte contemporânea, e a sua obra estabelece um contraponto de experiência, resistência e continuidade.
As cinco pequenas telas de Leonor Cunha Mendes, parecem partir de imagens recuperadas de fotografias de infância. O que vemos nas pinturas evidencia uma lembrança incerta do que resta da infância. Nas diferentes composições, o retrato das crianças e jovens foi capturado na natureza. A luz dourada que banha a pintura, assim como a falta de nitidez dos elementos, evidencia tanto a passagem do tempo, como a fragilidade da memória. O que emerge é um espaço liminar entre recordação e representação, onde a sensação do vivido permanece instável e efémera.
Já Ida Pires desloca a natureza para o espaço da galeria, manipulando escala e materialidade. Em Vida tem o nosso nome (2024), uns sapatos brancos em cerâmica repousam sobre uma pilha de folhas secas, lembrando a fragilidade de ambos os elementos. Em Conheço-te do meu tamanho (2025), pequenas montanhas em cerâmica, dispostas numa prateleira, reduzem o grandioso ao doméstico, propondo uma redefinição abrupta do olhar. E no vídeo Immer (2024), a câmara aponta diretamente para o sol até que este se recolha no horizonte. O foco não está na paisagem, mas na presença absoluta do astro, que se impõe à câmara como uma força magnética. O olhar da artista contempla o exterior, toca-o e reproduz-o. convertendo a paisagem em experiência íntima, onde a fragilidade e a força coexistem.
Se até aqui a relação das artistas com a natureza foi mais material e sensorial, ligada à superfície e à luz, nos trabalhos do restante núcleo de artistas, a natureza funciona como veículo ou metáfora de estados internos. O sol, a pedra ou as folhas, dão lugar a vultos, sombras e tensões.
Luísa Saldanha trabalha a pintura a partir do interior, transformando memórias e emoções em paisagens imprecisas. Nas suas obras, o sol parece que nunca chega a nascer, pois é no cinzento que encontra conforto para definir vultos, silhuetas, ou animais — como em akin (2025), onde dois pássaros flutuam num vazio indistinto. A natureza surge como projeção de um estado emocional, mais próxima da sombra do que da luz, mais ligada à experiência íntima do que a qualquer observação direta do mundo. As quatro obras apresentadas conduzem o olhar para dentro, num movimento de recolhimento e quietude.
A pintura de Manuel Ferreira, Golpe baixo (2023), opera por deslocamento do familiar. Três piñas coladas servidas em ananás assumem cores que anunciam a artificialidade e o desgaste. O amarelo, que poderia evocar conforto ou alegria, revela-se falso, e os ananases são cobertos por negro, dissolvendo qualquer associação ao ícone tropical. Uma imagem que habitualmente costuma remeter para descanso e prazer é aqui colocada num lugar sombrio e suspenso, ausente de celebração. A pintura expõe a fragilidade do ícone, rejeitando a expetativa de conforto que lhe está associada. Assim, a obra instala a inquietação, transformando uma imagem codificada de prazer numa zona de dúvida e decepção.
Finalmente, a pintura de Pedro Zhang propõe um oceano azul profundo marcado por uma forma que sugere um remoinho. Não sabemos se assistimos ao rescaldo de uma ação ou à sua iminência, e essa ambiguidade temporal impede qualquer leitura pacífica. O mar, frequentemente associado à ideia de infinito ou de liberdade, surge como uma força carregada de tensão, e até potencialmente ameaçadora. A obra recusa a clareza narrativa e instala-se numa zona de dúvida, onde o olhar é mantido em suspensão.
Confluências revela a natureza não como refúgio ou espelho, mas como espaço de tensão e encontro. Seja na matéria ou na memória, na luz ou na sombra, no conforto ou na inquietação, a exposição mantém-nos em proximidade com territórios interiores e sensíveis. O olhar do espectador percorre zonas liminares onde diferentes temporalidades, experiências e escalas se cruzam. É um encontro de sentidos, memórias e estados de espírito, em que a natureza circula sem jamais se fixar.
A exposição está patente até 31 de janeiro de 2026, na Monitor.
BIOGRAFIA
Laurinda Branquinho (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.
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