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Visceral Hum: June Crespo na Kunsthalle Lissabon
DATA
21 Ago 2026
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AUTOR
Orsola Vannocci Bonsi
“Ao ouvir hyle e ao experienciar a própria exposição, senti como se tivesse entrado num «Earth Hum» tornado temporariamente tangível e audível. Crespo, de facto, não reproduz o som da própria Terra, mas gera uma inversão percetiva semelhante: o que habitualmente entendemos como sólido e inerte — paredes, metal, arquitetura — começa a parecer instável, ressonante e vivo.”
Na década de 1990, os cientistas começaram a identificar uma vibração sísmica contínua que percorre a Terra, oscilando a frequências muito abaixo do limiar da audição humana. Este fenómeno ficou conhecido como «Earth Hum»: um murmúrio estranho e constante, que sugere um planeta que, mesmo na sua aparente quietude, nunca está totalmente imóvel.
Na Kunsthalle Lissabon, no espaço de exposição subterrâneo, a exposição MÁS GRAVES, de June Crespo, desenrola-se através de três obras, sendo a mais proeminente a instalação de grande escala que dá título à exposição. Nesta peça, condutas de ventilação e lonas de camião são remontadas numa estrutura que se estende ao longo da parede principal. Os elementos industriais parecem pertencer simultaneamente à infraestrutura do edifício e a algo anatómico: os tubos tornam-se cavidades, órgãos e condutas por onde se poderia imaginar passar uma energia corpórea, quase como uma respiração. Em vez de revelar o corpo, como em grande parte da prática de Crespo, a obra materializa-o através de estruturas de suporte, materiais industriais, aberturas e tensões.
Esta respiração visceral torna-se de certa forma tangível através de hyle (2026), uma obra sonora desenvolvida por Crespo em colaboração com o colega artista Estanis Comella, que tem origem numa gravação feita no interior de um tubo que atravessa verticalmente o edifício onde se situa o estúdio de Crespo, em Bilbau. Na Kunsthalle Lissabon, o som é difundido em duas direções: um altifalante projeta-o para o espaço expositivo aberto, na direção do visitante, enquanto outro está virado na direção oposta, enviando-o para o próprio edifício e ativando as suas cavidades ocultas. Entre estas duas direções sonoras encontra-se outra obra de Crespo, No osso (occipital) (I) (2026), embutida na parede oposta a MÁS GRAVES (2026), como se tivesse sido integrada na própria arquitetura. A sua presença permite que a parede se aproxime de uma cavidade ressonante, esbatendo ainda mais a distinção entre obra de arte, arquitetura e corpo.
O som, portanto, não acompanha a instalação como uma banda sonora: parece habitá-la. Em conjunto, MÁS GRAVES, hyle e No osso (occipital) (I) produzem a estranha sensação de que esta presença sonora está a emergir dos órgãos e das vísceras do próprio edifício. A parede torna-se um corpo ressonante e as condutas de ventilação, talvez, as suas guelras. Através da intervenção de June Crespo, a escultura e a arquitetura começam a dissolver-se uma na outra, como se também o edifício pudesse respirar, vibrar e emitir as suas próprias frequências.
Há algo de telúrico nestas vibrações. Evocam uma tensão subterrânea, a sensação da matéria a reter energia antes de um acontecimento: não o som de um terramoto em si, mas a possibilidade de um. E em Lisboa, uma cidade cuja história foi profundamente marcada por catástrofes sísmicas, essa sensação adquire inevitavelmente outra ressonância.
Ao ouvir hyle e ao experienciar a própria exposição, senti como se tivesse entrado num «Earth Hum» tornado temporariamente tangível e audível. Crespo, de facto, não reproduz o som da própria Terra, mas gera uma inversão percetiva semelhante: o que habitualmente entendemos como sólido e inerte — paredes, metal, arquitetura — começa a parecer instável, ressonante e vivo. MÁS GRAVES convida-nos não apenas a olhar para a matéria, mas a sentir o que já se poderá estar a mover no seu interior.
A exposição MÁS GRAVES, de June Crespo, pode ser visitada até dia 5 de setembro.
BIOGRAFIA
Orsola Vannocci Bonsi é uma produtora e consultora cultural que vive em Lisboa há oito anos. No seu trabalho, promove ligações através da sua pesquisa e dos projetos que ajuda a concretizar. Com experiência como diretora comercial e galerista em várias galerias de arte portuguesas, foi também gestora de projetos e diretora artística da FEA Lisboa, fundou o coletivo curatorial Da Luz Collective e contribuiu para a programação de festivais em Itália e Portugal.
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