A essência da imagem e a sua multiplicidade, por oposição à unicidade, impõem-se como fio condutor da mostra cujos diversos trabalhos - dispostos em dípticos, trípticos ou polípticos - vivem da sua relação com os outros, numa soma que potencializa a expressividade. Incitando-nos numa reflexão crítica sobre conceitos de unicidade e eternidade, colocando em crise a ideia de uma imagem autónoma e definitiva 1, José Maçãs de Carvalho materializa na exposição conceitos elaborados pelo crítico e historiador de arte Aby Warburg (1866-1929) relativos à lei-da-boa-vizinhança, à criação de relações não hierarquizadas entre as imagens, e à iconologia dos intervalos na definição de relações de significação entre as mesmas.
Narrativas que contêm outras narrativas dentro de si – transtemporais - são-nos reveladas no primeiro momento expositivo ao sermos confrontados, na sala negra do Círculo Sede, com imagens dúplices pertencentes à série S/título (after gerhardr.), 2022. Ocupando a quase totalidade da parede que as recebe, as seis fotografias de grandes dimensões, dispostas numa orientação horizontal e em duas filas paralelas, lançam-nos num mise-em-abyme contínuo. Partindo da relação com as fotografias da série de pinturas que Gerhard Richter (1932) realizou em 1972, no contexto da representação alemã na Bienal de Veneza, José Maçãs de Carvalho (re)fotografa-as na época contemporânea, comprovando a intemporalidade das figuras históricas retratadas e a sobrevivência da imagem ao longo da história da arte e da cultura. Rostos que se tornam territórios numa série que - não obstante o plano fixo das imagens - anuncia uma sensação de movimento, uma cinemática que a percorre. Destaque ainda para dois aspectos importantes da obra: a singularidade do lugar onde é fotografada, o acervo do State Russian Museum (São Petersburgo), a que o artista atribui legibilidade e visibilidade enquanto espaço intersticial; e a própria moldura das imagens, à qual se soma uma outra que, nos revela as mãos dos que são invisíveis nas fotografias, mergulhando-nos numa duplicidade de enquadramentos e tempos à medida que observamos a série.
Duplicidade que reencontramos no longo corredor do CAPC, onde a originalidade da montagem instalativa do díptico S/título (hotel lisboa #1 e #2), 2014, em cantos opostos do corredor, impele no espectador a consciência do tempo, da sua presença física no espaço e movimentação do próprio corpo, obrigatória para a observação e leitura das fotografias. Marcada pelo excesso de luz, que cativa de modo imediato a atenção do espectador, a tautologia da imagem do hall exterior do Hotel Lisboa de Macau – espaço suspenso no tempo – revela, contudo, diferenças percetíveis entre si, nomeadamente no que respeita à cor, tempo e movimento.
Pequenas diferenças que, como num jogo, detetamos nas obras S/título (praia grande), 2014; S/título (taipa screen), 2014 e S/título (wynn’s), 2011, que se exibem em cada uma das paredes da segunda sala dedicada à exposição. Combinações de imagens fotográficas, cuja funcionalidade das composições nasce de mínimos contrastes, passíveis de deteccão entre si, estejam elas sobrepostas ou posicionadas lado a lado. A exploração de conceitos de repetição, sequência e boa vizinhança entre imagens semelhantes, mas diferentes, percorre as três séries que se ancoram no real.
Segundo uma organização vertical, o tríptico S/título (praia grande) revela o que, à primeira vista, parece ser a repetição da mesma fotografia de um casal que, em primeiro plano e de costas para o espectador, observa a Baía da Praia Grande (Macau) que serve de plano de fundo à cena retratada. Contudo, à medida que observamos a segunda e a terceira imagens da composição, apercebemo-nos de ligeiras diferenças entre elas: pequenos movimentos de cabeça e braços dos protagonistas, assim como do enquadramento fotográfico, deixando de ser visível a paisagem marítima da baía com as suas pontes.
A subtileza e a mestria do fotógrafo quanto a questões de perceção, tempo e experiência espacial são igualmente reveladas em S/título (taipa screen) que, aparentando tratar-se de uma só imagem de formato panorâmico, é, na realidade, um díptico a p/b, resultante da digitalização de dois negativos. A partir de registos captados no interior de um carro, o artista oferece-nos como pano de fundo um retrato da ilha de Taipa, captado através das janelas do veículo, num exercício de tromp l’oiel que ilude o observador. Se, nesta obra, nos surpreende na paisagem uma garrafa de coca-cola de grande formato, a presença de marcas de publicidade prossegue em S/título (wynn’s). O políptico, composto por oito provas de trabalho, revela a paisagem urbana a partir do Wynn Casino-Hotel (Macau), apresentando em primeiro plano, de costas para a câmara e em contraluz os visitantes, e como pano de fundo edifícios grandiosos que se erguem na margem oposta do lago do hotel. Ao observarmos o políptico com atenção, constatamos a deslocação das pessoas, assim como - numa delas- o registo de jogos de água no lago, transmitindo-se ao espectador uma sensação de passagem de tempo e de ligeiro movimento. Destaque ainda para a presença, na paisagem, de um painel digital, cuja iluminação vermelha se reflete na água, cativa a atenção e cujo ecrã central exibe nomes de marcas de luxo. Em cada uma das oito imagens, o nome da marca altera-se, num gesto-manifesto do artista de inserção da palavra no real e de uma possível abordagem crítica do capitalismo.
A tensão entre a quietude e o movimento, repetição e variação, semelhança e diferença, prossegue no filme Des Voeux Road (forever young), 2010. Se no início do mesmo julgamos estar perante a fotografia de um jovem chinês, à medida que o visionamos percebemos que se trata de um cartaz publicitário numa rua de Hong Kong. Num plano fixo, o movimento incessante do tráfego urbano domina o filme, fazendo com que a imagem do menino desapareça, ao mesmo tempo que ouvimos uma voz masculina que, cantando, numa versão chinesa, a letra da música forever young corporiza a fantasia de ser para sempre jovem, numa obra que imortaliza o retratado.
É no último piso que encontramos 21 minutes pour une image (2019), vídeo que dá nome à exposição e que se inspira num projeto televisivo de Agnès Varda (1928-2019) Une minute pour une image (1984). Extremamente fotográfico, o plano fixo e contínuo, sem cortes ou edições, revela-nos sempre a mesma imagem: um ponto turístico de Macau, com uma réplica da torre Eiffel, onde os transeuntes tiram fotografias em tempo real. A combinação entre elementos estáticos e móveis sintetiza a multiplicidade da imagem que dá mote à exposição, ao tratar-se de uma sucessão de milhares de fotogramas. Um certo voyeurismo impele-nos a observar: qual experiência sociológica as pessoas que, sem identidade, se fotografam e posam para as próprias câmaras, pessoas comuns que estão no centro da representação, manifestando o interesse do artista pelo comum e pelo banal, pela captação de momentos quotidianos, respeitando o tempo real dos retratados, livre de protocolos cinematográficos, e o tempo circadiano.
No lado oposto da sala, mediante uma montagem original, deparamo-nos com o “falso” díptico de duas fotografias idênticas, realizadas em tempos diferentes: S/título (sheraton,1991), 2016 e S/título (canon, hk), 2026. Imagens parónimas: ambas apresentam, como personagens principais, duas mulheres que, num ambiente exterior, seguram dispositivoss, cuja presença é também visível na obra anterior. Se na imagem mais antiga e a p/b, a mulher retratada nos olha de frente, apontando a câmara de filmar sony na nossa direção, na imagem mais recente e a cores – com destaque para o vermelho dos lábios pintados e do vestido - a protagonista apresenta-se de lado, segurando uma câmara fotográfica canon, não sendo inocente por parte do artista a inserção da palavra-marca dos dispositivos. Embora cada imagem exista per si, ambas adquirem outra expressividade ao serem colocadas em diálogo.
A última sala dedicada à mostra, apresenta o tríptico Autorretrato no teatro anatómico #1, #2 e #3, 2025, em que cada imagem se exibe em paredes diferentes, numa interessante narratividade que nos convida a circular pelo espaço. Ao exotismo do teatro anatómico, lugar onde o tempo se suspende, acrescem-se os jogos luminicos em imagens carregadas de misticismo, mistério e da aura fantasmática do artista autorretratado, cujo corpo, sempre em movimento na sequência fotográfica, parece desmaterializar-se, como que teatralizando a morte.
Desenvolvendo-se a exposição a partir da ideia de que os filmes e o cinema são absolutamente devedores da fotografia, e assumindo o artista a ansiedade - comum aos fotógrafos - na escolha da imagem certa, JMC opta pelo oposto, ao apresentar combinações múltiplas de imagens - fotográficas e fílmicas – que, sequenciais, fixas e falsamente idênticas, nos lançam num exercício entre o olhar e o que olhamos.
A exposição pode ser visitada no CAPC, em Coimbra, até dia 21 de março.
1 MADEIRA, Daniel - 21 minutes pour une image [folha de sala da exposição].