A água como linguagem comum e agente de mudança perpassa todas as obras em exibição, resultado de um trabalho de pesquisa e reflexão de seis artistas, desafiados a contactar e explorar a geografia da água que une Vila Nova de Cerveira (Alto Minho), Loulé (Algarve) e São Miguel (Açores), territórios descentralizados que se definem pela sua relação com o rio e o mar.
Convocando uma ligação sensível com os lugares e os seus ritmos, as criações artísticas de Ana Maria Pintora, Bertílio Martins, João Amado, Margarida Andrade, Milita Doré e Patrícia Oliveira, refletem o olhar e as suas vivências com as três regiões, as suas paisagens e comunidades locais. Seguindo um princípio de descentralização cultural e partindo do encontro entre curadores, produtores e artistas, foram realizadas - entre finais de 2024 e 2026 – visitas de campo, residências, oficinas comunitárias e exposições em cada um dos três territórios, numa comunhão de experiências que permitiu que as criações artísticas ganhassem forma de modos distintos, tendo a água como tema base.
Depois de Vamos aonde já estivemos?, com curadoria de Jesse James, no Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas (Ribeira Grande, Açores) e de Geografias da Água, com curadoria de João Serrão e Mirian Tavares,na Galeria de Arte do Convento do Espírito Santo (Loulé), apresenta-se Devir-Água, no Convento de San Payo (Vila Nova de Cerveira), com curadoria de Mafalda Santos.
Assumindo-se como um espaço de continuidade e assinalando um percurso que atravessou diferentes paisagens, regimes hídricos e memórias sedimentadas, Devir-Água situa-se num tempo intermédio onde experiências, matérias e narrativas permanecem em circulação. Destaque, no último momento expositivo, para o caráter simbólico - pela proximidade com a nascente na montanha - da reunião e apresentação das obras no Convento de San Payo. Ao longo do percurso expositivo, diferentes abordagens artísticas dialogam entre si através de obras que refletem o modo como a água define os territórios, a sua identidade e as atividades neles desenvolvidas, bem como a nossa relação com os materiais. Água doce ou salgada, a sua escassez ou abundância, os seus ciclos e a importância que ocupa em cada região são explorados nas várias obras, por vezes em trabalhos endógenos, outras em criações inspiradas em estruturas como lavadouros, fontanários e miradouros.
A atenção e rememoração de territórios esquecidos são abordadas no tríptico videográfico Enxurrada (2025), de Margarida Andrade, cuja repetição constante do gesto de recolha e transporte de água para um local sedento nos alerta para as alterações climáticas e para a mortificação de paisagens. Contrastando com o gesto de denúncia da obra anterior e a secura daquele território, observamos, numa pintura da artista, plantas cujas diversas tonalidades de verde evocam vida e natureza. No mesmo espaço, surpreendemo-nos pelas personagens escultóricas de João Amado que pontuam o circuito expositivo: Perna-Longa e Braço-Longo, cujas anomalias fisionómicas se devem à distância e procura do mar. São personagens que materializam a ficção escrita pelo artista durante as residências, e que, como papiro, se estende ao longo de uma parede até ao chão convidando-nos à leitura de memórias e vivências nos territórios. Dos fólios costurados pelo artista, observamos as texturas de fontanários impressos a grafite sobre papel por Milita Doré, segundo a técnica de frottage, que nos transportam para outros lugares. Da mesma forma, Cascata (2025), também de sua autoria, é uma queda de água em tecido de algodão que se estende pelo chão, evocando a leveza e o movimento das águas. Reencontramos este movimento nos mapas hidrográficos de Bertílio Martins, que registam os cursos dos rios de cada região e cuja apresentação pressupõe um potencial performático na interação do público com os mesmos. As obras endógenas de Ana Maria Pintora revelam a sua experiência no território, por meio de materiais autóctones coletados pela artista – pedras, areia, cascalho, algas e ramos – que tanto se apresentam dispostos numa mesa, como se materializam em instalações, semelhantes a cabanas/abrigos, que integram pinturas cujo espectro cromático entre o azul e o verde nos fascina. Os materiais e os seus contrastes são igualmente explorados na obra escultórica Algarchurra (2025), de Patrícia Oliveira, que, integrando vidro, tecelagem e metal, homenageia as tradições locais de cada região.
Atravessando paisagens, rios e mares, é na proximidade com a Galiza, em Vila Nova de Cerveira, que o Projeto Desaguar culmina, revelando o processo de investigação, criação e mediação de cada artista que conduziu à exploração das margens do País - do extremo Sul e do Alto Minho, passando pelo arquipélago dos Açores, no oceano Atlântico - ultrapassando fronteiras territoriais e, sobretudo, culturais.
A exposição pode ser visitada no Convento de S. Payo, em Vila Nova de Cerveira, até dia 24 de maio de 2026. Mais informações sobre a programação da Bienal de Cerveira estão disponíveis aqui.
1 Projeto coordenado pela FBAC, em parceria com o Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas (Açores) e a Galeria de Arte do Convento do Espírito Santo (Câmara Municipal de Loulé), com o apoio da Rede Portuguesa de Arte Contemporânea (RPAC).