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Ontem já era tarde: Vítor Serrano no andar de baixo
DATA
05 Mar 2026
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AUTOR
Laurinda Branquinho
“A exposição Ontem já era tarde, de Vítor Serrano, patente no andar de baixo, anuncia no seu título este diagnóstico: a inquietação vivida na pausa da prática artística e, agora, o seu retorno. Um retorno que surge carregado da consciência da interrupção, como se cada obra transportasse a sombra desse tempo suspenso. O artista constrói a mostra a partir de elementos do quotidiano — sapatos, pratos, papel-toalha, uma mesa — organizando uma constelação de símbolos que refletem sobre pausa, a acumulação do tempo e o desejo de caminhar.”
Para um artista, criar aproxima-se de uma função vital. Por isso, quando a prática se interrompe, a pausa nunca é pacífica. A sensação de perda é constante, como se estivéssemos permanentemente em atraso. Cada dia sem produzir acumula uma espécie de dívida íntima, uma sensação de que algo essencial ficou por cumprir. Como se, a cada dia que passa, o tempo aprofundasse a ferida no coração.
No entanto, a interrupção acontece, muito por circunstâncias que ultrapassam a vontade individual. O sistema em que vivemos é cruel para os artistas. Criar exige tempo e recursos, que, na maioria das vezes, não têm retorno. Portanto, para muitos, a pausa torna-se uma questão de sobrevivência.
A exposição Ontem já era tarde, de Vítor Serrano, patente no andar de baixo, anuncia no seu título este diagnóstico: a inquietação vivida na pausa da prática artística e, agora, o seu retorno. Um retorno que surge carregado da consciência da interrupção, como se cada obra transportasse a sombra desse tempo suspenso. O artista constrói a mostra a partir de elementos do quotidiano — sapatos, pratos, papel-toalha, uma mesa — organizando uma constelação de símbolos que falam sobre a pausa, a acumulação do tempo e o desejo de caminhar.
Em Para enxugar (2026), quatro sapatos pretos empilham-se formando uma escultura que nos chega através da sua fotografia, pendurada numa estrutura metálica que imita um suporte de toalhas. A escultura perde a tridimensionalidade ao ser convertida em imagem; os sapatos concebidos para caminhar, amontoam-se, suspendem o seu uso, tornam-se estáticos e a fotografia fica inerte. Tudo aponta para uma energia contida, para um movimento que não chega a acontecer, para a imagem de uma criação que existe, mas não circula.
Este gesto repete-se numa fotografia de pratos de restauração empilhados, ampliada a uma escala de 1,80 metros em que a verticalidade se impõe. Os pratos remetem ao universo íntimo do artista, marcado pelo crescimento próximo ao restaurante que pertencia à sua família. Esse espaço de encontro e partilha, é também território de trabalho e azáfama, onde a produção e o serviço não podem falhar, um lugar onde a frase “ontem já era tarde” poderia muito bem ser pronunciada. Assim, a pilha de pratos, evoca repetição, saturação, produção incessante. E há algo de mecânico nesta acumulação que evoca o trabalho enquanto condição de sobrevivência e de desgaste. É uma imagem que poderia simbolizar o espaço mental do artista, ocupado por uma pilha de gestos repetidos que se acumulam verticalmente.
Os desenhos em papel toalha, Dois Palmos da Mesma Mão (2026) e Faz Calos (2026), aprofundam a ligação à restauração enquanto território de memória. O papel toalha, tantas vezes preenchido com rabiscos automáticos durante refeições partilhadas, surge aqui como suporte para o desenho a tinta-da-china. Os gestos que fazemos à mesa são espontâneos, acontecem entre conversas e distrações, não tendo qualquer intenção formal. Mas o artista traz esse suporte para o espaço expositivo, preservando essa origem, mas alterando-lhe o estatuto. O papel toalha é um material descartável, que não foi feito para durar. É uma superfície frágil e absorvente, por isso, desenhar sobre ele a tinta-da-china torna-se num exercício de risco que obriga a uma consciência do gesto. E é exatamente o oposto do que acontece à mesa de um restaurante. Neste mesmo plano surgem as inscrições “Labuta” e “De sol a sol”, palavras integradas no fluxo do desenho e que voltam a afirmar a dureza das condições de trabalho.
Por fim, vemos uma mesa em ferro com um tampo de vidro recortado em forma de casa — na sua forma elementar e esquemática. A mesa enquanto símbolo funciona como uma superfície de encontro e de gestos: comer, escrever, apoiar objetos, desenhar. E nesta mesa, a forma do tampo insinua a ideia de abrigo, remetendo para a imagem arquétipo da casa que aprendemos a esboçar em crianças. Neste contexto, ela conecta-se aos motivos presentes nas restantes peças (sapatos, pratos, papel toalha) — todos objetos do quotidiano e do doméstico deslocados da sua função habitual e transformados em sinais de uma condição: a imobilidade.
Ao deslocar objetos associados ao uso e ao movimento para uma condição de imobilidade, as obras produzem um efeito de suspensão. Os sapatos não caminham, os pratos não servem, a mesa não acolhe gestos e até o papel toalha se afasta da sua função descartável. A sobriedade cromática, a frieza dos materiais e a contenção formal reforçam a lógica de que algo está suspenso. Assim, na sua economia de meios, Vítor Serrano espelha uma prática artística consciente do seu próprio intervalo, operando uma inversão: se a criação esteve interrompida, é agora o quotidiano que é imobilizado e convertido em matéria de trabalho.
Ontem já era tarde não resolve a inquietação que anuncia; torna-a ainda mais evidente, revelando um regresso à prática artística carregado da consciência do intervalo. Estancar a ferida da pausa não é simples, mas a criação devolve ao artista o espaço de agir sobre um tempo suspenso, que viveu com atenção e presença. Ao mesmo tempo, a exposição mantém uma tensão crítica sobre o mundo do trabalho, a repetição exaustiva e a pressão constante que ele impõe, refletindo sobre a necessidade de habitar a pausa de forma consciente.
O andar de baixo nasce do atelier da artista Marta Pombo, no piso inferior ao espaço expositivo. Embora remeta à aparência do white cube, não se comporta como uma galeria convencional; é antes uma extensão do seu espaço de trabalho, onde o íntimo do processo convive com o espaço expositivo. O lugar abre-se apenas a artistas com quem Marta mantém relações afetivas - não apenas com as pessoas, mas com aquilo que produzem -, e essa escolha transparente distingue-o da opacidade frequente em muitas práticas curatoriais. As obras circulam num ambiente que preserva a intimidade, em contraste com a formalidade esperada do white cube.
Quando visitei o seu atelier, vi algumas das suas obras em processo: recortes de revistas, cartazes que recolhe pela cidade, caixas de fósforos, palavras, camadas de tinta e desenhos espalhados pelas paredes e pelo chão. Um universo dela, íntimo, que parece vir de um gesto de recolha: de trazer para dentro o que está lá fora, de cuidar, de abrigar. E é assim também com os artistas que acolhe: oferece-lhes o espaço para estarem à vontade, para expor como querem, para que a obra circule da forma que precisam. Aqueles que abrem um espaço fazem-no, sobretudo, para colmatar algo que sentem em falta.
A exposição de Vitor Serrano, Ontem já era tarde, está patente até 20 de março no andar de baixo.



BIOGRAFIA
Laurinda Branquinho (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.
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