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Luisa Cunha e Andreia Santana no CAV - Centro De Artes Visuais
DATA
03 Mar 2026
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AUTOR
Mafalda Teixeira
No âmbito do Ciclo a vida, apesar dela, o Centro de Artes Visuais (Coimbra) apresenta as exposições Há mais para além do que os olhos conseguem ver, de Luisa Cunha (1949) e Cosmocópula, de Andreia Santana (1991), com curadoria de Miguel Von Hafe Pérez. Mulheres artistas de gerações diferentes e práticas distintas, ambas trabalham a partir do corpo, problematizando-o enquanto agente criativo e preceptivo. Se a mostra de Luisa nos lança numa reflexão em torno do corpo e do espaço, enquanto medidor do mundo e agregador de experiências e memórias, já a exposição de Andreia Santana, cujo título é uma apropriação de um poema de Natália Correia (1923-1993), recorre ao corpo e à nudez enquanto estratégias críticas de disrupção política contra a autocensura politicamente corret
O poder da palavra e da entoação desafiam o visitante à entrada do CAV. Corporizada pela voz de Luisa Cunha, a afirmação provocatória Outra exposição!? intriga e surpreende o visitante. Entre o desabafo e a surpresa, com recurso à ironia e ao humor, a voz da artista assume-se enquanto matéria escultórica, revelando o poder da palavra dita que nos é dirigida, tornando-nos cúmplices da sua interjeição. Colocada sobre uma parede branca, observamos a coluna de som e o cabo eletrónico de tom vermelho que se estende ao amplificador disposto no chão: meios tecnológicos simples e contidos que dão existência ao texto sonoro que se projeta num loop constante.
A voz que nos sugere um corpo - o seu próprio corpo - vai-se desvendando ao longo da exposição, sendo várias as obras que o tomam como referência, revelando-o enquanto medida, de que é exemplo a intervenção Altura e Largura da Artista (2022), em que a artista pinta, numa das paredes brancas, um retângulo vermelho com as suas dimensões corporais. Questões de escala, relação com o espaço e o corpo do espectador ressurgem em Linha #1 (2022), intervenção onde, ao longo de uma parede com mais de 30 metros, Luisa Cunha desenha duas linhas horizontais paralelas e entre elas escreve, repetidamente e sem pontuação, a seguinte frase: Os saltos dos meus sapatos têm 5 cm de altura e estando de pé esta é a linha ao longo da qual escrevo com menor esforço escrever ao longo desta linha é escrever ao longo desta linha tudo o que escrevesse acima ou abaixo desta linha não era escrever nesta linha. Referência direta ao ato performativo do corpo da artista a desenhar, a obra impele o espectador à consciência da sua presença física no espaço e do próprio corpo em movimento, obrigatório para a leitura.
A linha enquanto horizonte e fronteira, que marca a distância de tudo o que podemos ver e do lugar onde estamos, ecoa na obra Sem Título (Homenagem a Isabel Mendes), 2014, estando igualmente presente nos trabalhos fotográficos que, dispostos em díptico - Objecto #2 (2005) - ou formando um friso – Kms (2008) - impelem o movimento do espectador e a interiorização da passagem do tempo. Registos de momentos da artista, em Objecto #2, observamos a imagem repetida de um cartucho azul, cujos títulos esumem o processo criativo: encontrar primeiro e procurar depois; na série Kms confrontamo-nos com a relação espaço/tempo, através do mapeamento de marcos de estrada que, como tótemes, se tornam passado. Próxima, a obra videográfica Mirror#3 (2002-2003), reflete esse mesmo interesse pelo tempo e pelo espaço, ao apresentar em loop filmagens de exterior que testemunham variações no meio circundante ao longo do dia.
O interesse constante da artista pela identificação do seu corpo e do espaço - da arquitetura, da cidade e da geografia - prossegue em obras como Gritaria (1998-2023) e R/C (2016), nas quais funde imagem e texto. Referência direta à casa e à forma como os espaços podem controlar as pessoas, Gritaria revela a fotografia de um prédio cujo texto manuscrito aborda questões de pertença, numa possível referência à crise habitacional, à mutabilidade e alterações na cidade; já R/C apresenta, num exercício de rememoração e partilha da artista, uma fotografia de família a preto e branco no rés do chão da sua infância, acompanhada por um texto que nos transporta para um outro tempo e um espaço raso de liberdade onde janelas eram portas. Janela que reencontramos em I’ll be back (2013), fotografia de uma loja fechada, cuja montra, entaipada por papel transparente numa evocação à crise económica que se vivia, assume uma presença que é, na realidade, o rasto de uma ausência.
A ironia e o humor de Luisa Cunha atingem o seu auge nas obras autorreferencias CV e Selfies #1 (2019). Dispostas lado a lado, a impressão fotográfica revela datas de exposições realizadas entre 1993 e 2018, havendo uma repetição numérica nos casos em que houve mais de uma exposição num mesmo ano; da serialidade numérica passamos para a repetição infinita da palavra Selfie, num jogo de decomposição linguística que se acentua pelas diferentes cores que atribui a cada letra.
A sugestão de auto-retrato, ainda que ausente de um rosto, prossegue na série Mulher de 58 anos aos 2 anos (2008), peças em papel fotográfico cujas frases, autobiográficas e escritas com a caligrafia da artista, descrevem fotografias de infância - fotografia de mulher de 58 anos aos 2 anos a andar nua no quarto com mão apoiada no parque de grades - numa obra em que a memória e o passado ganham efetividade e materialização no presente. São memórias da artista que parecem ser novamente evocadas no trabalho minimal e conceptual 02.13 (2018), cujo título indica uma data e os objetos que a compõem: um cabide e uma toalha de banho, pendurados lado a lado, sugerem um corpo, a presença de alguém que se encontra ausente. Presenças – a nossa e a dos outros - são igualmente invocadas em Field of View (2010) pela voz masculina que, educadamente e em inglês, nos diz: Would you mind moving a little bit aside so that I can see? Thank you.
Impelindo-nos a mover no espaço e a imaginarmos outro corpo em relação com o nosso, subimos as escadas de acesso ao segundo piso e deparamo-nos, numa zona de passagem, com autorretrato nu de Andreia Santana L’Astoria au naturel #1 (2025). De tonalidade avermelhada, a selfie captada frente a um espelho, apresentando como cenário uma casa de banho, transporta-nos para um momento quotidiano de intimidade da artista que, dominada pela sensualidade, desperta a atenção pelo efeito nublado – que tanto oculta como provoca- proporcionado por uma rede de alumínio. Juntamente com L’Astoria au naturel #2, segundo autorretrato nu da artista, e os únicos a apresentarem o corpo humano, lançamo-nos numa reflexão sobre os valores associados à estética do nu feminino, à transgressão e exposição do corpo – da mulher- nos trabalhos artísticos, relembrando no momento atual a produção artística feminista a partir de 1970. Face à objetificação do nu feminino ao longo da História da Arte e num período em que o corpo da mulher ainda é entendido como erótico, ao apresentar o seu corpo real e presente num autorretrato, Andreia consegue - neste gesto manifesto - que a imagem da mulher se torne sujeito presente. O recurso ao corpo - nu ou sugerindo nudez - enquanto médium artístico, político e social, assim como a liberdade de pensar o erotismo e o desejo prossegue nas restantes obras em exibição. A ironia e o humor atingem o seu auge com a dupla de esculturas em vidro soprado Door Woman (entrance) e Door Woman (exit) dispostas em cantos distintos da sala. Num jogo de palavras com o título das pequenas peças, quebrando tabus em torno da genitália feminina, confrontamo-nos com o relevo de vulvas com pernas, braços e chapéus de cowgirls, numa afirmação ao direito à liberdade sexual e à exploração do prazer da mulher.
Cuidadosamente dispostas no espaço expositivo, num prolongamento das paredes que as sustentam, como se flutuassem, observamos de cada lado da sala, dois quadros-esculturas translúcidos em malha metálica. Num jogo constante de ocultação/desocultação entre o que é público e privado, as esculturas de cariz industrial e minimal impõem-se como janelas de molduras metálicas, cujas superfícies de rede em alumínio desenham peças de vestuário: uma t-shirt em Cosmocópula (2025) e um baby-doll em Mirror (2025). A fisicalidade dos materiais desperta a atenção à medida que vislumbramos a incorporação de elementos – vidro, cobre e estanho - que, soldados na malha translúcida, desenham narrativas visualmente ricas: a silhueta de um corpo em atividade sexual e um quadril feminino com ligas. Destaque para a presença “escondida” de pequenos rebuçados de vidro colorido, numa evocação às instalações Candy do artista cubano Félix González-Torres (1957-1996), enquanto símbolos da fragilidade da vida durante a pandemia da sida.
Lançando-nos numa reflexão sobre a questão do corpo enquanto matéria artística e política, a mostra de Andreia Santana revela o desejo, o prazer e a erotização do corpo enquanto catarse, num trabalho que explora a reivindicação da igualdade de género na arte, a revolução corporal e a ativação libertadora do corpo feminino.
As duas exposições podem ser visitadas no CAV, em Coimbra, até dia 8 de março de 2026.
BIOGRAFIA
Mafalda Teixeira mestre em História de Arte, Património e Cultura Visual pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estagiou e trabalhou no departamento de Exposições Temporárias do Museu d'Art Contemporani de Barcelona. Durante o mestrado realiza um estágio curricular na área de produção da Galeria Municipal do Porto. Atualmente dedica-se à investigação no âmbito da História da Arte Moderna e Contemporânea, e à publicação de artigos científicos.
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