Se pensarmos no início e no fim da exposição, o percurso é o de regresso à câmara escura, metonímica e simbolicamente aquela onde se revelam as imagens. Assim, a luz, disseminada pelas paredes brancas onde se fixam as oito fotografias no piso de cima da galeria, compõe o vestígio da escuridão, sobre a qual se vê a última fotografia, no piso subterrâneo. A metáfora da descida aos infernos, veiculada pela citação de Dante - onde o fotógrafo vai buscar o título da exposição - é ritualizada pela descida das escadas. A luz é, com efeito, o resíduo tradutor do negro, por sua vez, indicador da última estrada da caminhada (/visita à exposição) e da primeira morada de um sentido panorâmico deste conjunto fotográfico, pelo acesso à cave a fechar a exposição. É na descida a uma escuridão luminosa que a mostra ganha um rosto, uma expressividade, um tom. Isto é, o possível reconhecimento de uma mensagem começa pelo fim. O fim volve o “mezzo del cammin di nostra vita”. O inferno de Dante afigura-se calendário para o nosso tempo, moldura para os momentos de cujo registo estamos arredados sob a forma do desejo e da tentação de inscrever e guardar os instantes que passam e por que ganhamos memória. E a fotografia não é já uma forma de memória, de nos dizermos parte integrante de uma configuração que passou, súbita na sua singularidade? Passamos, pois, com o que vemos. Somos raptados pelas coisas olhadas. Paixão repentina do olhar volvida amor duradouro, se, como escreveu Lacan, o amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer.
Gradeamentos, barreiras, fitas, tinta, postes, passeios, ervas, cimento, tijolos, metal, pregos, rocha, alcatrão, céu ou fumo, mais do que céu e fumo - pois os limites, os céus, destas fotografias são informes como fumo -, são os elementos figurativos das nove fotografias apresentadas. Parecem, mais do que elementos figurativos, meios de sinalizar qualquer coisa cuja figuração se projecta. Não é claro situarmo-nos no instante sucessor ao do nascimento e da testemunha de uma forma, se no momento que a antecede. Mas tudo periclita numa curva, num cruzamento dilemático de sentido. Daí, porventura, o carácter diarístico apontado na bela folha de sala assinada por Djai-milia Pereira de Almeida e Humberto Brito. Que é o diário senão um álbum de indecisões, uma escrita que inscreve a surpresa como um estado em diferido da realidade? O registo de que não podemos viver senão um passo atrás ou um passo à frente do presente que nos enquadra, vivendo, afinal, potencializados para a testemunha de nós mesmos, a capacidade de nos olharmos e de nos vermos olhar? Selva Oscura é, pois, e citando da folha de sala, “uma série de quebras, falsas partidas, becos sem saída, aporias”.
Luz e escuridão não se deixam diferenciar por uma maior ou menor disposição para a visão. É desconstruída a ideia de que é a luz que permite ver. A luz ilumina, na justa medida em que, desprovida de sombra, isto é, de contraste, ofusca. E, se a visão depende do contraste, a verdade é que Tito Mouraz parece aqui exercer uma defesa da escuridão como guardiã de uma qualquer verdade, ou antes, do segredo como única verdade possível: talvez tudo o que se possa ver sejam sombras, numa confusão de escalas, para a quais, aliás, todas as fotografias concorrem, à excepção de duas - uma em que se vê a berma de uma estrada e uma porta, e outra a berma de uma estrada e um poste rodeado de ervas daninhas. À excepção destas duas fotografias, as restantes impossibilitam a identificação das dimensões dos elementos que as compõem. A dificuldade em perceber o tamanho das formas inscreve um cunho experimental desta exposição que é, ao mesmo tempo que um finíssimo conjunto perfeito - na solidez completa que a caracteriza -, um rascunho de si mesma, um ensaio de uma obra de que só se veem lampejos, de que se espera o fogo de artifício. Mas tal não acontece enquanto promessa de que a exposição fosse a desilusão, antes sim, a activação do desejo de olhar, de se deixar embriagar num arquivo que se prevê infindo, pois não há outro modo de viver senão o de pensar sem um horizonte concreto. Vive-se e cria-se sobre a consciência do fim, mas o motor da criação será mais o de uma crença assolapada no infinito. Assim sendo, eis uma exposição assumida enquanto parte integrante de um diário de artista, que é a sua própria obra a realizar-se diante dos nossos olhos, sendo um elogio ao inacabamento dos dias e ao redimensionamento que a arte sempre opera sobre o que nos rodeia. É esse inacabamento próprio da criação que pode tornar um mapa um romance, uma fotografia uma bússola, e a luz e a sombra, formas de conciliar provisoriamente o pó de estrelas de que somos feitos. Somos, pois, a versão clara (manchada? ruidosa?) de uma sombra perdida. Selva Oscura é o caminho da procura desse resguardo antigo, desse porão altíssimo de onde todos provimos.
A exposição, patente na Galeria 3+1, pode ser visitada até dia 17 de janeiro.