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O chão na cabeça, de João Timóteo
DATA
09 Fev 2026
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AUTOR
Laurinda Branquinho
É precisamente com dois armários que João Timóteo estabelece o começo da exposição O chão na cabeça, apresentada nas Carpintarias de São Lázaro, com uma dupla projeção nas costas destes móveis que nos lança para o interior de uma casa. E é à volta desta casa, a casa da sua avó, que toda a mostra se organiza.
Não se pode dormir com o cabelo molhado - faz mal. Faz mal e acordo a meio da noite com a cabeça dorida. Parece que tenho o chão na cabeça.1

Há objetos domésticos que ultrapassam a sua função prática e se tornam dispositivos silenciosos de memória. Não só guardam coisas, como acumulam gestos, hábitos e presenças, organizando a memória familiar ao longo do tempo. Entre eles, os armários das salas de estar ocupam um lugar particular, simultaneamente expostos e fechados, visíveis e secretos.
Para Gaston Bachelard os armários (e guarda-roupas) não são meros móveis funcionais, mas objetos que possuem uma profunda ligação com a história e a intimidade da família. No seu livro Poetics of Space o armário é descrito como um “centro de ordem” que protege toda a casa contra a desordem externa e que relembra a história da família através da disposição e conservação dos seus bens mais íntimos.2 Cada armário familiar possui uma assinatura de intimidade única, frequentemente ligada a odores ou objetos específicos que permanecem gravados na memória - detalhes sensoriais e visuais que ancoram a história pessoal e familiar ao objeto físico.
É precisamente com dois armários que João Timóteo estabelece o começo da exposição O chão na cabeça, apresentada nas Carpintarias de São Lázaro, com uma dupla projeção nas costas destes móveis que nos lança para o interior de uma casa. E é à volta desta casa, a casa da sua avó, que toda a mostra se organiza.
Somos apresentados ao seu interior num plano-sequência que atravessa as várias divisões. Sem móveis, portas ou janelas, navegamos por ela num vazio ocasionalmente interrompido por objetos (de óculos a bibelots ou a um relógio de parede) suspensos no ar, flutuando como fantasmas, numa inércia que se assemelha a um sonho. A casa que nos é mostrada não surge como um espaço habitável no sentido funcional, mas como um território mental. As paredes existem, mas faltam-lhe os elementos que habitualmente garantem o seu uso e conforto. O que permanece é a estrutura mínima que permite à imaginação operar, e é precisamente nesse regime de suspensão que esta casa se constrói, como um espaço que já não pertence ao presente, mas ao tempo instável da memória.
A exposição ocupa apenas uma parte das Carpintarias de São Lázaro, organizando-se como um cenário cuidadosamente distribuído. A luz baixa, pontuada por focos precisos sobre cada escultura, acentua o efeito teatral da instalação, como se estivéssemos perante o desenrolar silencioso de uma peça. Deste espaço emerge a possibilidade de fantasiar uma ação, de imaginar histórias enquanto deambulamos por cada um dos elementos.
É a figura da avó que funciona como eixo afetivo e estrela-guia de toda a exposição. Há a avó, a memória dos objetos que pertenciam à sua casa, mas sobretudo as memórias de João Timóteo sobre ela. A instalação que dá nome à exposição, que tem como pilar os dois móveis, não procura reconstruir fielmente um lugar nem uma biografia; antes, encena o modo como a memória se forma, se repete, se altera e se perde.
Esta instabilidade manifesta-se formalmente na repetição. As várias esculturas em grés que vemos, tanto expostas nos dois armários como em disposição pelo espaço, multiplicam-se em variações mínimas, e os motivos vão desde os aviões a gremlins-anjo. A repetição não visa a perfeição da matriz, mas a aproximação a algo que nunca se deixa fixar. Tal como acontece com a memória, cada tentativa de regresso modifica o objeto lembrado: alguns detalhes desaparecem, outros surgem. O gesto escultórico torna-se, assim, um exercício de reconstrução da lembrança, uma tentativa de trazer a memória para o mundo material sabendo-a, à partida, traiçoeira e, por isso, falível.
Os armários - pintados de branco-sujo, acompanhando o tom das esculturas - reforçam essa ambiguidade entre a intimidade e o distanciamento. São móveis típicos de uma sala de estar familiar, concebidos tanto para expor como para esconder. Contudo, a monocromia neutraliza a singularidade cromática dos objetos e cria um efeito de esterilização do doméstico. Este espaço íntimo parece suspenso, incompleto, reduzido ao esbatimento daquilo que sobrevive apenas na memória.
Os bibelots de uma casa são objetos aparentemente sem função prática, mas fundamentais enquanto suportes da imaginação e âncoras de segurança simbólica (onde, normalmente, só o seu proprietário sabe verdadeiramente o significado que carregam). As várias esculturas que vemos operam como uma homenagem direta a esses objetos, quer pela escala reduzida, quer pelos motivos representados, ou pela forma como são dispostos no espaço. Nelas há referências à cultura popular, como o vestido da princesa Diana, o fato de Charles, ou a Wicked Witch de O Feiticeiro de Oz, esta última numa dupla inscrição de sentido: a obra tem como título Mary Witch, sendo uma referência ao primeiro álbum do rapper Allen Halloween. As imagens que o artista evoca coexistem no mesmo plano que os objetos familiares e participam ativamente na construção da identidade doméstica, indissociável da própria identidade do artista.
O próprio corpo do artista infiltra-se nesse espaço. Os fragmentos e moldes do seu rosto dispostos nos armários, fazem com que João Timóteo passe a integrar o conjunto de objetos desta casa da avó. O artista deixa de ser apenas observador da memória para se tornar parte integrante do seu arquivo, inscrevendo o seu corpo na continuidade da casa imaginada.
A casa, tal como a memória, assume múltiplas formas e o prédio onde está localizada é também modelado em miniatura e repetido em variações: ora completo, ora reduzido a uma fachada, ora lembrando uma ruína. Cada versão parece corresponder a um estado diferente da lembrança - mais inteira, mais fragmentada, mais distante. A instalação constrói, assim, uma memória sobre um lugar e sobre uma pessoa, consciente de que essa construção é sempre parcial e mutável.
O espaço que constrói aproxima-se também do regime do sonho. A casa nunca se apresenta por completo: não há divisões definidas, apenas móveis e objetos escultóricos que coexistem no mesmo plano. Esta organização espacial reflete o próprio funcionamento da memória, que não se compõe de forma linear ou total, mas por sobreposições, lacunas e associações.
Em O chão na cabeça, a casa não é apresentada como refúgio estável, mas como dispositivo de imaginação e perda. A casa enquanto relicário da memória torna-se extensão da identidade da pessoa que nela habitou - neste caso, a avó de Timóteo - porque as casas são, inevitavelmente, feitas de quem as viveu. Mas é também, simultaneamente, parte da identidade do próprio artista, pois se uma casa reverbera de tal modo no interior de alguém que se torna matéria de trabalho, então essa casa deixa de ser apenas herança e passa a ser constitutiva do eu. É nesse sentido que as esculturas do seu próprio rosto, colocadas nos armários, não funcionam como autorrepresentação, mas como evidência de que esta casa - imaginada, fragmentada e reconstruída - é também o lugar onde a sua própria identidade se inscreve.
A exposição está inserida no projeto Half-Life e resulta de uma colaboração entre as Carpintarias de São Lázaro e o Rosalux, em Berlim, onde a investigação se prolonga na exposição coletiva Welt am Draht / O mundo por um fio. A mostra integra o programa Tech Dreams do coletivo POGO, estrutura independente fundada em Lisboa em 1993, cujo trabalho se desenvolve no cruzamento entre teatro, cinema, artes visuais, escrita e performance, entendendo a interseção de linguagens como um campo continuado de investigação artística.
No último dia da exposição, a 15 de fevereiro de 2026, acontece uma performance de Rita Só a partir de um texto escrito pelo artista, e ainda uma visita guiada por Constança Pupo Cardoso, autora da folha de sala, e João Timóteo.

1 Excerto de um texto de João Timóteo, escrito a partir de memórias da sua avó e interpretado por Rita Só na inauguração e finissage da exposição.
2 Gaston Bachelard, "Drawers, Chests and Wardrobes", em The Poetics of Space (Boston: Beacon Press, 1994), págs. 74-89.
BIOGRAFIA
Laurinda Branquinho (Portimão, 1996) é licenciada em Arte Multimédia - Audiovisuais pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Estagiou na Videoteca do Arquivo Municipal de Lisboa onde colaborou com o projeto TRAÇA na digitalização de filmes de família em formato de película. Recentemente terminou a Pós-graduação em Curadoria de Arte na NOVA/FCSH onde fez parte do coletivo de curadores responsáveis pela exposição "Na margem da paisagem vem o mundo" e começou a colaborar com a revista Umbigo.
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