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A Oferta, de Jaime Welsh
DATA
19 Mar 2026
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AUTOR
José Pardal Pina
"Em A Oferta/The Gift, há um diálogo entre dois sujeitos: a arquitetura – com a sua ortogonalidade e desenho de linhas vincadas, para assim trazer também para o debate o desenho na fotografia do artista – e a criança. Ambos se assumem como corpos plásticos, cujas subjetividades e identidades se constroem paulatinamente e mutuamente, negociando uma forma de vida ou identidade. Ambos se assumem como corpos plásticos, cujas subjetividades e identidades se constroem paulatinamente e mutuamente, negociando uma forma de vida ou identidade."
A obra de Jaime Welsh força-nos a contemplar a construção das imagens e as estruturas que lhes dão forma. Não há palavra que nos guie nessa demanda ou indagação. Mas há uma contextualidade paralela que nos obriga a ler para além da representação fotográfica, compondo um nexo final feito de diversos enquadramentos: a fabricação dos ambientes, a economia do olhar, a ecologia da fotografia, a presença humana que tensiona e polariza, todo o entorno arquitetónico e a fisicalidade contrastante entre pequenos seres humanos e um espaço monástico, avassalador, de malhas e geometrias rígidas, frias, a modernidade sóbria face à construção barroca – profundamente controlada e coreografada –, enfim, a mise-en-scène preparada antes do disparo. A imagem fotográfica em Welsh não acontece simplesmente, como a instantaneidade que a circulação massificada da fotografia e das imagens veio a tomar, cimentando, por seu lado, uma nova ontologia e hermenêutica dos meios, dos dispositivos visuais, do quotidiano, das reproduções, das obras de arte e da cultura (mediática) em que estão inseridos; a imagem fotográfica em Welsh produz-se numa lógica investigativa, compositiva, ponderada, milimétrica, sobrepondo o a arquitetura assética à emoção exangue dos corpos. Esta tensão construtiva sugere sempre complexidade e contradição durante a sua leitura, porque, embora não se faça diretamente a partir de uma cultura imagética de massas, faz-se, porém, tangencialmente a ela.
A hiperestetização da sua obra pode ser um regresso à tradição pictórica e à fotografia do início do séc. XX. Algo semelhante a um novo pictorialismo, que não tem medo da citação e do pastiche, ao mesmo tempo que propõe um entendimento cabal e radical das tais lógicas que precedem e sucedem à produção da imagem e à cultura contemporâneas dos artistas jovens. Há uma tentativa de restabelecer uma tradição visual e compositiva antes do pretenso corte gerado com o advento da fotografia, que em vez de esquecer séculos e séculos de uma cultura e uma prática legadas pelos mestres do passado – sem medo de voltar a falar de conceitos de beleza, pureza e candura –, deles se serve para inscrever a imagem nessa longa linhagem da arte ocidental que cedo se fez de imagens, quando o Catolicismo aceitou a representação e a imagem como veículos de fé por toda a Europa.
Mas há mais.
Welsh concebe imagens que comungam da mesma natureza encantatória que as imagens produzidas e reproduzidas nos meios de comunicação e de capital. As imagens seduzem, captam o olhar e a evanescência dos tempos, que se vivem depressa, mas com intensidade. É possível que estas imagens desapareçam, mas é também muito possível que se fixem no nosso subconsciente e aí repousem num palimpsesto de esgares, atmosferas e gestos que virão a servir para a produção de mais imagens e que constituem sobrevivências de outras que as precederam.
Em A Oferta/The Gift, há um diálogo entre dois sujeitos: a arquitetura – com a sua ortogonalidade e desenho de linhas vincadas, para assim trazer também para o debate o desenho na fotografia do artista – e a criança. Ambos se assumem como corpos plásticos, cujas subjetividades e identidades se constroem paulatinamente e mutuamente, negociando uma forma de vida ou identidade.
Contudo, essa plasticidade tende a existir mais do lado do ser humano do que do edificado. A tirania da arquitetura moderna, loucamente fomentada e teorizada por Le Corbusier, por exemplo, alienou corpos e subalternizou-os. Os espaços que Welsh fotografa não são passíveis de grandes mudanças, porque carregam um legado pesado; são réstias musealizadas de um tempo pretérito e patrimonializado. São monumentos de poder, “caixas” que aprisionam e geram conflitos. O betão é hostil. O betão, como sinaliza Anselm Jappe, é “a arma de construção maciça do capitalismo”. E o brutalismo já era brutal antes de ser brutalismo, quando a arquitetura moderna se decidiu pela alienação e pelo massacre.
A do Estado Novo, com a sua gravitas institucional e vagamente opressiva, tem uma presença recorrente no seu corpo de trabalho. São lugares em que a simetria veicula uma ordem e ideologia, com os revestimentos planos de pedra polida e uma sobriedade clínica, fria, que se impõe sobre os corpos, para, deste modo, controlar criteriosamente fluxos e vontades goradas. Não há atmosferas, não há jogos de sombras ou mistério. Toda a sedução da arquitetura é feita pelo rigoroso cumprimento de uma ordem matemática, que depressa se descobre e depressa se revela. Antes de avançar num retroidentitarismo, o racionalismo dos arquitetos modernos seguia as regras do progresso, numa ortogonalidade perfeita. Esse desejo de avançar no tempo, de precipitar a criação do homem moderno, flexível, empreendedor, em contínuo movimento, rapidamente se esgotou em Portugal. Evoluiu depois para uma ideia de reposição do estado original de graça dessa quimera chamada de portugalidade, replicando a modéstia de uma linguagem vernacular sempre que possível e transmitindo uma grandiosidade falaciosa, à sombra do colonialismo, da violência e do patriarcado.
No centro destas salas e foyers, corpos isolados de crianças, ambíguos, algures na transição entre a infância e a adolescência, repousam como infantes vitorianos anémicos. Daqui se infere uma juventude a braços com o peso dos lugares e das suas identidades; a juventude subjugada a uma ordem, hierarquia, autoridade. É possível que a juventude, para estas crianças ou adolescentes, seja o estágio inicial de uma vida de solidão. É possível, até, que a juventude seja um período de solidão, quando a criança se sente desajustada, incompreendida, sem qualquer possibilidade de individuação ou libertação.
Há uma melancolia marcada nos seus olhares, uma sensação de espera, de ansiedade. Também de algum aborrecimento ou tédio.
As crianças entregam-se a devaneios langorosos, como pequenas fugas de coreografias desinteressadas: corpos deitados, olhos de cristal retirados do globo ocular, dedos dos pés em jeito de garras deformadas. Perante tamanha indústria de poder, a criança entretém uma ideia de futuro possível, mas sem grandes expectativas. E assim, derrotada, resta-lhe viver e habitar o vazio, nos despojos de um progresso moderno que anulou, destruiu e fez esquecer.
Deste modo, a criança faz a retrospetiva de uma modernidade austera, autocrática e autofágica, que matou a juventude com a sede de guerra, controlo e poder.
Mas algo mais se poderia dizer sobre a exposição A Oferta/The Gift, que diz antes respeito à antropologia da imagem em que todas as fotografias atuais se jogam do que propriamente às intenções do artista. Não obstante, vale lançar esta breve reflexão, porque é algo latente em qualquer imagem agora produzida e que se funda numa duplicidade construída entre o espectador/consumidor de imagens e a representação que o artista nos dá a ver.
Há, de facto, qualquer coisa de inquietante nestes corpos aparentemente exangues e derrotados de crianças. Sobra uma tensão interior, uma compaixão proibida entre o que olha e o que é olhado, pois está-se perante corpos que despertam para a sexualidade. Já Luchino Visconti o havia tentado quando filmou Tdazio (Björn Andrésen) no filme Morte em Veneza (1971). Não se trata de um olhar de lascívia ou predação. Trata-se, sim, no âmbito da psicologia das personagens e do argumento baseado na obra de Thomas Mann, da força de um desejo reprimido, que é mais narcísico que sexual, mais autoerótico que pornográfico, e que, ainda assim – mergulhados num miasma imagético que se canibaliza, ofusca, sobrepõe e confunde, sem qualquer posicionamento crítico para a anestesia que sucede à estesia –, é possível que a inocência que uns inferem destas imagens se compagine com a dessensibilização do órgão visual de outros.
O importa, todavia, é o resgate que Welsh faz da sensação de espanto, de candura; da beleza da inocência que se perdeu para o esgoto visual que assalta a contemporaneidade e a corrói. Fazer da criança a esperança de uma empatia perdida, gorada, esquecida – é aí que mais corretamente podemos situar o desejo do artista e a motivação da sua obra.
A Oferta/The Gift, de Jaime Welsh, está patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado até 2 de abril.
BIOGRAFIA
José Pardal Pina é editor adjunto da Umbigo desde 2018. Tem um Mestrado Integrado em Arquitetura pelo Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa, e uma Pós-graduação em Curadoria de Arte pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa. Curador dos projetos Diálogos (2018-2024) e Paisagens (2025-) na Umbigo.
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