A tensão gerada pelo confronto entre a arte e a linguagem tem sido um dos campos férteis da arte contemporânea. É, sem dúvida, um conflito de interesses, mas um conflito que uma e outra vez, mercê de uma cultura globalizada, visual e multimodal, surge como objeto de investigação curatorial. Ainda recentemente Delfim Sardo reportou-se a Foucault para esclarecer que “as palavras […] dão-se mal com as imagens”1. Desde as reflexões críticas, conceptuais e dialógicas propostas na década de 1960 e 1970 pelo grupo Art & Language (que é muito menos sobre um cruzamento disciplinar entre “arte” e “linguagem” do que sobre como a arte, muitas vezes, exige discurso, debate e o auxílio da escrita), aos néones e LEDs com palavras e frases de Bruce Nauman e Jenny Holzer, as fronteiras entre cada uma das partes são frequentemente testados. A isso se junta a semiótica, os símbolos e os signos; toda a análise filosófica e linguística da arte encetada pelos estruturalistas, e a consequente crítica dos pós-estruturalistas; o acentuado crescimento das plataformas digitais, que preferem a imagem à palavra; o declínio das faculdades cognitivas trazidas pelo decréscimo da leitura, mas também, e inversamente, o recurso cada vez maior à logica hipertextual da imagem e das referências em estudo… tudo isto se junta num caldo rico para a natureza crítica, conflituante e engajada da arte contemporânea.
Os problemas são vários. Desde logo o modo como uma palavra pode imediatamente convocar uma imagem mental. Depois, o modo como a presença do texto numa imagem pode anular ou neutralizar o conteúdo imagético. Ainda, a forma como o texto associado à imagem a reduz a mera ilustração. E, enfim, a constituição rizomática que tanto a imagem como a linguagem possuem, expandido infinitamente as definições e características compositivas e larvares de cada uma. Poderíamos também falar da arte enquanto dispositivo histórico ou literário, ou em alternativa da linguagem enquanto dispositivo artístico, para assim se esbaterem as fronteiras da prática artística e do exercício da profissão, em prol de uma exponencial hibridização e contaminação de campos. Porventura, referir de igual modo a forma como a curadoria é uma prática que tende a valorizar mais um campo (a linguagem) do que outro (a arte e a sua plasticidade). Truísmos, sofismas, soundbites e autorias; slogans, publicidade, verdades e pós-verdades… arte e linguagem são faces de uma mesma moeda.
Um Silabário por Reconstruir II, no Museu de Arte Contemporânea de Elvas, é uma iteração de um projeto maior iniciado em Coimbra, que procura em diversas coleções públicas e privadas os pontos de encontro e desencontro promovidos por esta junção campos. A Coleção de Arte Contemporânea do Estado, a Coleção da Caixa Geral de Depósitos e a Coleção António Cachola são importantes acervos onde este exercício podia ser trabalhado uma e outra vez, pela qualidade das obras e pela subjetividade da arte, que apelam a conversas inesgotáveis em torno de si mesmas. É simbólico o facto de Um Silabário por Reconstruir II abrir com um muro de publicações esquartejadas, como se a artista Mafalda Santos antevisse a redução das palavras a uma lógica fragmentária e puramente material; como se as palavras impressas, as manchas de texto, as revistas e livros cortados com recurso à guilhotina não passassem disso mesmo: manchas impressas em papel, blocos de material poroso, empilhado, reconfigurável e eminentemente formal, que se conjugam até ao esgotamento da lógica narrativa, mediadora e representativa da palavra.
Em Homeless (2004), O Desejado (2007) e Poesia (2023), Susana Guardado, João Pedro Vale e Elisabete Fiel trabalham o caráter evocativo da palavra e, considerando os ensinamentos do linguista russo Roman Jakobson, as funções emotivas e poéticas da linguagem. Moon Song (1995), de Shirin Neshat, e a série Sem Título (2005), de Pedro Gomes, aludem à gestualidade e a uma comunicação que se faz para lá da palavra e que convoca o corpo para se fazer compreender. Mas é também no campo do simbólico que estas e outras obras se situam, como é o caso de Tacet (2014), de João Onofre, Ping-Pong Piece (1999), de Ricardo Jacinto, Oratório (na Floresta) (1976), de Armando Azevedo, ao abrirem simultaneamente lugar para o silêncio, a dúvida e a incerteza. Sobre a componente gráfica e o desenho caligráfico lembramos a série de José Pedro Croft e Léxico C.B. (2018), de Isabel Carvalho. Outras obras reportam-se ao caráter sistémico e sistematizado da linguagem – por exemplo, as obras de Tiago Madaleno, Shhhhhhh (2023), e Pedro Cabrita Reis, H. Suite (XII) (1993). E ainda, a hiper ou paratextualidade de obras-que-referenciam-outras-obras-ou-autores, como é o caso de OPACO (2014), de Nuno Sousa Vieira, e Série Amália Rodrigues (1950), de Thurston Hopkins.
Há peças cuja presença assume contornos mais difusos, quer pela relação que estabelecem com outros pares, quer pela sua materialidade, que requer uma leitura redobrada, sem que com isso se negue uma certa retórica ou ironia. Porque estão aqui? O que fazem estas peças, no âmbito desta exposição? A estratégia parece ser propositada e relembra que muitas vezes a arte e a literatura exigem um outro tempo e um outro espaço para que os seus significados se façam iluminar, como uma frase críptica que espera pelo calor de uma nova estação para fazer desabrochar a sua natureza. Só desta forma encontramos nexo para as obras de Inês Brites, Careful, The Floor is Wet (2021), João Marçal, Dead Zone (2018), e Bruno Pacheco, Self-portrait smoking a cigar without the aid of the hands (2002).
A natureza compositiva e associativa do silabário é a mesma da exposição. Cada núcleo de obras comporta uma série de conjuntos silábicos que ajudam na formação de novas palavras e novos conceitos. Entre o pedagógico e o poético, o silabário é, aqui, uma ferramenta que ensaia aproximações, relações, paralelismos e cruzamentos.
O primeiro momento de Um Silabário… decorreu no Centro de Arte Contemporânea de Coimbra e na Sala da Cidade – Antigo Refeitório do Mosteiro de Santa Cruz. Segue-se em breve uma iteração em Óbidos, na Galeria NovaOgiva e, depois, na Culturgest do Porto. Um Silabário… II, no Museu de Arte Contemporânea de Elvas, está patente até 19 de outubro e tem a curadoria de José Maçãs de Carvalho e Tiago Candeias.