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Mesa-Paisagem (1973), de Ana Vieira, na Brotéria
DATA
09 Mai 2026
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AUTOR
Carla Carbone
Uma mesa, unicamente uma mesa, um prato, dois talheres, um copo.
A toalha de mesa, arrepanhada de um lado, aparece pintada à superfície, a azul e branco, como uma tela de uma pintura, solta do seu suporte. O prato encontra-se meio cheio de um punhado de areia branca da praia.
De um lado (da mesa) uma refeição, com o guardanapo de pano; do outro, o tecido, colocado sobre a mesa, repuxado, ostenta plissados brancos, como se tratasse de um vestido, sobre um fundo azul, evocando um longo mar, que se precipita até ao chão (uma cascata?).
Uma mesa redonda, com vista para o mar, e um barco ondulante, entregue ao sabor de uma maré de espuma branca. (um precipício?)
A instalação de Ana Vieira, Mesa-Paisagem (1973), agora patente na galeria Brotéria, invoca uma janela aberta para uma paisagem, para uma memória, para um sonho.
Ana Vieira recorria, muitas vezes, às suas memórias de infância para a concretização/afirmação das suas obras. A simultaneidade entre exterioridade e interioridade, os vazios, as sombras, as ausências - também presentes na obra de Lourdes de Castro - e as memórias de infância são elementos comuns na obra da artista.
Em entrevista, conduzida por Hans Ulrich Obrist, a artista destaca outros artistas que também constituíram uma referência e uma influência importantes na sua obra. Noronha da Costa foi um desses artistas, sobretudo no recurso ao espaço, enquanto campo aberto à experimentação artística1.
A artista pertencia à categoria dos artistas portugueses que, nos anos 70, se distanciavam, corajosamente, e copiosamente, da pintura convencional e académica. Ana Vieira, através do olhar atento de Obrist, seria assim uma artista que se posicionaria no lugar e no conceito de: para além da pintura.
Ana Vieira deixou-se, igualmente, encantar por Michelangelo Pistoletto, quando viu impressa, nas páginas das revistas de arquitectura Domus, a obra Quadros Espelhados, de 1962. Nesta obra, o espectador tornava-se parte integrante da obra. À artista interessava, por esse motivo, a relação que Pistoletto estabelecia entre o espectador, a obra, e a vida.
Em Mesa-Paisagem, o espectador torna-se protagonista da obra. Participa, de modo dinâmico, não só nas memórias da praia de Ana Vieira, como nas suas próprias memórias. É compelido a percorrer, em torno da mesa, em busca de sentidos e, numa descoberta ativa, mergulhar na paisagem da artista, fazer parte dela. A obra distancia-se, assim, do espectador externalizado da obra e da própria pintura académica.
Outro dos referenciais de Ana Vieira, é a relação da casa com a viagem, esta última materializada claramente no pequeno barco branco que pousa sobre a Mesa-Paisagem. A artista, mais uma vez, representa, ou evoca, algumas passagens da sua vida, em particular da sua infância, em que as viagens que fazia, dos Açores ao continente, eram muito frequentes.
A transitoriedade entre espaço interior (casa) e espaço exterior, prefigura-se também na série de diaporamas Janelas, de 1978. Além da dimensão voyeurista que se evidencia, torna-se clara, segundo Maria Filomena Molder, a oposição que a artista estabelece, na sua obra, “entre o dentro e o fora: (até se poder entrar na caixa, finalmente abandonada a si própria e convertida em caminho)”2.
Vieira é também torrente, fugacidade, movimento, libertação, memórias e ruínas.
A artista desistia dos objectos, como dizia Molder.
La Salette Tavares, por fim, no seu texto: Ambiente Objeto3 descreve Ana Vieira como nunca: “É Ana Vieira uma inventora do espaço. Onde as suas mãos pousam, os nossos olhos desdobram ambiguidades, inteligências ocultas, magia do opaco transparente, do labirinto, límpido para o jogo das leituras em risco de se virarem outras elas mesmas. Fabricar o espaço é um dom que nos acompanha desde a primeira infância. (…) Espaço é a presença não só daquilo que se vê, da face que se nos mostra, é o todo de cada aparecimento parcial mais o resto. A existência total com a cara que não vemos, mas que sabemos estar. Está, do outro lado, está no oculto”.
Por isso talvez, Ana Vieira seja recordada, de momento, como a artista das imagens inacessíveis. Como diria Delfim Sardo: Ana Vieira faz imagens para colocar qualquer coisa fora do alcance da visão (…) para que se insinuem na nossa mente, formem um espaço4.
A exposição Ana Vieira, Mesa-Paisagem, 1973, Madeira, tecido, pintura a spray sobre tecido e objetos, 94 x 110 cm ø pode ser visitada na Galeria da Brotéria entre os dias 7 de abril e 16 de maio de 2026.


1 Em entrevista, conduzida pelo curador Hans Ulrich Obrist, a 13 de novembro de 2011.
2 Catálogo Ana Vieira, Porto, Fundação de Serralves, 1998, pp. 21-27 Maria Filomena Molder, Matérias Sensíveis, Lisboa, Relógio d’Água, 1999, pp. 197-203.
Catálogo Ana Vieira: Muros de Abrigo / Shelter Walls, Ponta Delgada (Açores), Museu Carlos Machado, Fundação Calouste Gulbenkian, 2010, pp. 211-213 (org. Paulo Pires do Vale).
3 Colóquio-Artes, n .º 22 , 2 .ª série/17.º ano, Abril de 1975, pp. 24 -28
4 Expresso, Revista Única, 13-12-20 08, Delfim Sardo, Olhar o Vento, Obras da Colecção BESart contadas por Delfim Sardo, Lisboa, Babel, 2010.



BIOGRAFIA
Carla Carbone nasceu em Lisboa, 1971. Estudou Desenho no Ar.co e Design de Equipamento na Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Completou o Mestrado em Ensino das Artes Visuais. Escreve sobre Design desde 1999, primeiro no Semanário O Independente, depois em edições como o Anuário de Design, revista arq.a, DIF, Parq. Algumas participações em edições como a FRAME, Diário Digital, Wrongwrong, e na coleção de designers portugueses, editada pelo jornal Público. Colaborou com ilustrações para o Fanzine Flanzine e revista Gerador.
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