No debate, realizado no MUDE no passado dia 27 de novembro, Cottinelli divulgou um pequeno filme que, além de mencionar o envolvimento de Garcia no projecto do Pavilhão de Portugal de Osaka em 1970, sublinhou a forte amizade e cumplicidade que o designer estabeleceu com Daciano da Costa.
Esta iniciativa serviu também para assinalar a recente integração da cadeira Osaka na colecção internacional do Vitra Design Museum, e sublinhar a enorme importância do designer na história de design do país e na cultura portuguesa.
A colecção da Vitra integrou, recentemente, as cadeiras Alvor e Quadratura, de Daciano da Costa, assinalando mais um passo para a projecção e internacionalização destes dois designers notáveis.
No elenco de debate sobre o filme e sobre a cadeira de Garcia estiveram presentes Ana Sofia Matos, Bárbara Coutinho e Inês Cottinelli, que têm promovido e reeditado o legado de Daciano da Costa.
A cadeira Osaka, de António Garcia, nasceu em 1970 por ocasião da participação de Portugal na Exposição Universal Osaka’70, no Japão2. O Pavilhão de Portugal foi, então, um projecto concebido por Garcia, por Frederico George e Daciano da Costa3. Desenhada exclusivamente para este evento, e de modo a mitigar possíveis constrangimentos relativos ao transporte, a cadeira foi projetada leve, em componentes e fácil de desmontar.
António Garcia já tinha projectado, em 1968, o mobiliário de escritório para os móveis Sousa Braga, particularmente as secretárias modelos PS-1 e PS-2. No mesmo ano, o seu amigo, e companheiro de trabalho, Daciano da Costa, projectava, para a mesma empresa, a linha de mobiliário Habitat 70.
São vários os projectos desenvolvidos em conjunto por estes dois designers. Garcia desenvolveu, em 1960, o projecto de interiores das salas da administração CUF, no espaço expositivo do INII, na Feira Internacional de Lisboa (FIL), e Daciano da Costa, o traçado da Exposição do V Centenário do Infante D. Henrique (em parceria com Frederico George). Outros projectos reafirmam este caminho traçado em comum por estes dois grandes pioneiros do design português: o Hotel Alvor-Praia (1968), um projecto global de José Espinho, com a participação de António Garcia, Daciano da Costa, e o escultor Jorge Vieira, entre outros. Em 1974, Daciano da Costa fundava o atelier Risco, onde trabalhou igualmente com o designer António Garcia.
A obra de António Garcia também se fez sentir fortemente no domínio do design gráfico. Sabemos da intensa colaboração do designer com a empresa Tabaqueira, entre 1964 e 1974, e as marcas com que trabalhou, como as conhecidas SG Ventil (SG), SG Gigante, SG filtro, e ainda, Sintra, Kayak, Monserrate, High Life, Ritz, e Plaza Internacional.
O destaque dado a este designer, e o gesto de Inês Cottinelli de divulgar e reeditar a sua cadeira, a mais emblemática da sua carreira, reposiciona o designer num protagonismo mais que merecido no seio do design, e coloca-o, pela intemporalidade e pela sua organicidade e conforto, no centro do debate da actualidade projetual.
Garcia foi, nos anos 60 e 70, num esforço de consolidação da disciplina do design e seu incremento em Portugal, um dos seus mais importantes heróis. O estado do design em que se inscrevia Portugal naquele período era diminuto, face a outros países. A sua incursão foi tardia, num país, segundo Afonso Santos, em que a indústria se apresentava incipiente; a educação desactualizada; e a cultura artística insuficiente4 (Santos, 2001, 63).
A década de 60, e depois 70, do séc. XX, caracterizava-se por uma consolidação dos caminhos do design dos portugueses, já encetados previamente nos anos 50, do mesmo século, por Conceição e Silva, e pelos escultores Júlio Pomar, Sá Nogueira, Rocha Correia, Querubim Lapa, Jorge Vieira e Vasco da Conceição. Por altura da Exposição de Decoração Moderna (1951), garantia-se uma ponte entre a prática do design e da arte, importante esforço para uma renovação da crítica projectual no país, que compreendia uma linguagem do design mais inovadora, afastada de um historicismo e folclorismo dominantes (Santos, 2001, 64).
Temos também fortemente debatidas, nesse período, por Daciano da Costa, em Design e mal-estar, as poucas oportunidades dadas aos designers portugueses de participar activamente na transformação da vida (Costa, 1998, 11) e na resolução racional de problemas na produção dentro do ordenamento sócio-económico-cultural em que nos inseríamos5.
A obra de António Garcia, que entendemos, na cronologia dos pioneiros do design, como um dos seus maiores protagonistas, merece um estudo detalhado, pela inventividade, inovação e pioneirismo manifestados.
1 António Garcia formou-se na Escola Artística António Arroio, (tendo trabalhado também, segundo José Bártolo com Sena da Silva, entre 1947 e 1959: BÁRTOLO, J. (2016) Daciano da Costa, Protagonista de Design Português do séc. XX, quer como designer multifacetado, quer como teórico, José Bártolo, Leonor Ferrão, Coleção designers portugueses, Jornal Público, pág. 24). A cadeira Osaka foi desenhada por Garcia, por ocasião da exposição Universal de Osaka, em 1970.
2 BÁRTOLO, J. (2015) Design Português, Cronologia 1960/2015. Verso da História – Edição e Conteúdos, SA, ESAD – Escola Superior de Artes e Design. Coleção do jornal Público. Pág 32.
3 Ibidem
4 SANTOS, R. A (2001) Daciano da Costa e os Percursos do Design Português, 1950 – 2000, Daciano da Costa Designer. Fundação Calouste Gulbenkian.
5 COSTA, D (1978) Design Industrial que “Design” Português?, Expresso, Suplemento Intercasa, 6 Out, 1978, p.7, publicado em Design e Mal-estar – Daciano da Costa, Centro Português de Design, 1998