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António Olaio na Galeria NO.NO: Sobre (não) cair
DATA
11 Mar 2026
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AUTOR
Dela Christin Miessen
“Na exposição atual da galeria NO·NO, Playing with Gravity, António Olaio aborda a gravidade como um «intervalo instável entre ser imagem e ser coisa, entre representar e acontecer»."
Costumava pensar que a gravidade era pessoal. Não num sentido científico, mas na medida em que a gravidade teria uma preferência. Estava convencida de que, quando saltava do terceiro degrau - nunca do quarto, que seria demasiado alto -, a gravidade estava a observar-me, a debater-se sobre se eu saltaria corretamente dessa vez. Se dobraria os joelhos o suficiente, se merecia uma aterragem perfeita. Às vezes, caía abruptamente, como se a gravidade estivesse impaciente comigo; outras vezes, parecia ficar um pouco mais tempo no ar.
Gravidade
(nome feminino)
1. (física) força atrativa que a massa da Terra exerce sobre os corpos
2. seriedade; circunspeção; importância
3. solenidade de maneiras
Costumava deitar-me no tapete da sala de estar a tentar sentir a Terra puxar-me para o seu centro - fosse lá o que isso significasse. Imaginava pequenas cordas energéticas presas à minha coluna, estendendo-se pelo chão, pelos canos, pelo solo, pelos fósseis, pelos ossos antigos, até algo muito abstrato no centro. Perguntava-me se o centro sabia que eu estava deitada acima dele a tentar conectar-me. Seria este esforço recíproco?
Na exposição atual da galeria NO·NO, Playing with Gravity, António Olaio aborda a gravidade como um «intervalo instável entre ser imagem e ser coisa, entre representar e acontecer». Figuras brilhantes inclinam-se, dobram-se, esticam-se, por vezes com as suas próprias características. Uma estratégia familiar de autorretrato que o artista utiliza há décadas.
Olaio é conhecido por minar a solenidade da pintura, inserindo-se como protagonista e caricatura. Nas suas obras anteriores, intervenções textuais (declarações irónicas, afirmações exageradas de identidade artística) perturbavam a pretensão de seriedade da imagem.
Na sua mais recente exposição, essa dinâmica torna-se espacial. Os corpos parecem suspensos a meio de um movimento, como se o chão da pintura estivesse a mudar lentamente. A gravidade parece invertida. Os objetos parecem leves e pesados ao mesmo tempo.
Desde o modernismo, a pintura tem oscilado entre abraçar a planicidade e reafirmar a ilusão. Olaio parece brincar com essa tensão, em vez de resolvê-la. As suas superfícies reconhecem a sua materialidade, mas as suas figuras insistem no volume, na presença corporal. O autorretrato, outrora uma declaração de mestria, torna-se um dispositivo de medição da instabilidade: quanto a imagem pode tolerar antes de perder a coerência? Quanta ironia antes que a sinceridade volte a surgir?
Regressando à imagem da criança no tapete, tentando sentir o centro da Terra: o desejo nunca foi realmente o de cair, mas de confirmar esta conexão. A gravidade era, sobretudo, uma prova de pertencer a um sistema maior do que si mesmo. Em Playing With Gravity, qual poderia ser esse sistema?
Algumas das formas parecem estar a cair. Outras parecem ter aterrado e fingem que a estabilidade sempre foi o plano. A massa rosa arredondada esforça-se contra as suas pernas azuis finas, testando quanta pressão elas conseguem suportar. A criatura roxa, parecida com um brinquedo, empoleira-se num galho curvado, equilibrada e prestes a rolar. A forma verde alongada paira com a seriedade de algo prestes a cair, enquanto as nuvens azuis inchadas se inflam para cima, como se ensaiassem um ato de rebeldia.
Quando criança, pensava que cair era uma colaboração. Talvez estas obras também o façam, confiando no branco do papel, da mesma forma que confiava no terceiro degrau. Testando-o, ligeiramente mal-humorado. Tudo parece estar a praticar formas de carregar a sua própria massa, brincando com a gravidade.
Já não testo a gravidade a partir de escadas. Mas ainda suspeito que ela percebe quando alguém (ou alguma coisa) se compromete a cair.
A exposição pode ser visitada até 21 de março de 2026.
BIOGRAFIA
Dela Christin Miessen é investigadora, escritora e editora. Faz parte do Aberta Studio em Lisboa e é co-fundadora da Echoes Residency dedicada a práticas artísticas socialmente empenhadas.
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