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Avenida 211 no MAC/CCB – Para quando outra ação de 'ocupação'?
DATA
20 Fev 2026
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AUTOR
Benedita Salema Roby
O edifício n.º 211 da Avenida da Liberdade foi, durante largos anos de atividade (2006-2014), residência de resistência à precariedade, no plano cultural. “Ocupado” por artistas, através de um acordo temporário e consensual, o edifício constituiu-se como um refúgio comunal ao abandono governamental e institucional durante o período amplamente afetado pela crise financeira global (2008-2009) e pela atuação da Troika (2011-2014), em Portugal.
Época de uma enorme recessão que, como é habitual, resultou em cortes severos e numa reconfiguração da política cultural. A ocupação integral deste edifício, localizado numa das artérias mais centrais da capital, permitiu resgatar um lugar, i.e., condições materiais que assegurassem a mostra e a produção artística, sem vínculos formais e contratuais. Em pouco menos de uma década, o projeto, que sobrevivia da sua autonomia, transformou a cena artística contemporânea portuguesa e tornou-se uma referência, pelo seu carácter experimental e pela sua irreverência. Mais ainda, porque permitiu lançar e consolidar a carreira artística de vários, que, noutra situação, poderiam considerar emigrar1, à falta de condições dignas para viver, criar e trabalhar.
Em comemoração do segundo aniversário do MAC/CCB, em outubro de 2025, a instituição inaugurou a exposição Avenida 211: Um espaço de artistas em Lisboa, cuja matéria – como supramencionado – celebra a organização cultural não-institucional ou, melhor, a des-organização2 do mercado artístico e do mercado habitacional. O título revela de imediato essa matéria e apologia: “um espaço de artistas” implica autonomia. Poderia, até, haver aqui alguma ironia – a de uma instituição comemorar a autossuficiência popular – se não tomássemos em consideração o estado da cultura hoje em dia. Digo, no que diz respeito às políticas públicas no setor cultural, que constituem as condições de produção e circulação da cena artística nacional. Ao mesmo tempo, dizer ‘hoje em dia’ naquilo que concerne à política cultural em Portugal constitui o mesmo embaraço que sucede ao invocar o ‘contemporâneo’ em Didi-Huberman, uma vez que aquilo que vai sendo atualizado são os atores, enquanto o objeto em questão, a política cultural e a sua gestão, apresentam-se algo estagnadas e empoeiradas desde a sua constituição. Digo isto, sabendo, evidentemente, que há períodos de maior e menor investimento e intervenção. Longe de uma atitude homogeneizante, desmoralizante ou mesmo reacionária, aquilo que vos tento comunicar é o paralelismo ou a correlação entre os anos de atividade da Avenida 211 (2006-2014) e o estado a que chegámos (ou ao qual retornamos ciclicamente) ‘hoje em dia’. O que também acredito que possa ter sido a vontade da curadoria. Isto é, de evidenciar o que ainda recentemente se fazia, em resistência à precariedade, e o que hoje se pode fazer, cumprindo a mesma vontade. Talvez mais ainda, se as ocupações forem realmente ‘de verdade’, em relação à apropriação de propriedade devoluta para uso da comunidade. Claramente, esta já é uma expressão da minha vontade e não uma sugestão da equipa responsável pela exposição, apesar de fazerem questão de sublinhar que não pretendem apenas contar a história desta ocupação vital no contexto cultural português; reconstituir vivências únicas; ou apresentar um passado congelado; mas reforçar “uma rede viva de experiências, fluxos e intensidades que ainda inspira e interroga o presente”3.
Com a interrogação do presente em mente, recordo o que tenho dito, ao longo dos últimos textos que tenho escrito. Tenho vindo a convocar e a apelar por uma crítica que se desloca de um lugar de julgamento para uma prática de mediação assistida, tal como uma doula. Aquilo que María Inés Plaza, editora e fundadora do jornal Arts of the Working Class, considera como um exercício que se afasta da interpretação hermenêutica, enquanto caminha em torno do despertar de uma atenção, mantida e sustentada por ferramentas críticas. Conforme esta disposição, a questão deixa de ser sobre o que determinada obra ou projeto curatorial tenta mostrar, mas antes sobre o que tenta criar. Isto é, que tipo de mundo cada projeto procura propor ou habitar? Criticar como uma doula traduz-se na abertura de um espaço para o que está por vir, ao invés de forçar clareza.
Importou repetir e reforçar esta abordagem metodológica, uma vez que no contexto desta exposição considero frutuoso – talvez mais do que noutra situação – não nos mantermos no plano da contemplação – daquilo que outrora significou o projeto que está agora em exibição –, mas ponderar sobre a atualidade das estruturas culturais e das redes sociais que resistem à subsistência das artes profissionais.
Quando transpomos, finalmente, a exposição compreendemos que a intenção das curadoras, Nuria Enguita e Marta Mestre, foi a de montar um arquivo vivo a partir da investigação desenvolvida por Giorgia Casara e Sara de Chiara. Partilham-nos, desde logo, a dificuldade que encontraram em recolher material para esta ocasião, uma vez que a Avenida 211 era um projeto assente na experimentação, interdisciplinaridade e espontaneidade, com pouca preocupação relativa à sua documentação. Ainda assim, várias salas – em disposição livre e labiríntica, assim como era nos andares do edifício de artistas – dispunham de uma enorme variedade de obras, impressões, relatos e reconstituições daquilo que era um antigo palácio inteiramente “ocupado” por ateliers, espaços de exposição, estúdios e até laboratórios sonoros.
Na primeira sala, logo quando entramos, um filme de Francisca Manuel (2018) esclarece-nos a verdadeira natureza desta ocupação, que vale ressaltar a fim de não romantizar uma situação de exceção. Enquanto documenta o fim do projeto, Manuel conversa com Gonçalo Sena, André Guedes e Isadora Neves Marques (artistas que tinham tido estúdios nos espaços filmados). Nesse diálogo, todos recordam que a Avenida 211 não se tratava de uma ocupação, “mas sim de um acordo tácito entre os artistas e, por intermédio de António Bolota, o Banco Espírito Santo, numa iniciativa de mecenato discreto”4. Apesar disso, esta cedência temporária foi mais que crucial e necessária numa época de abandonos governamentais e estatais, manchada pela falta de iniciativas não-institucionais.
Daí em diante, a belíssima e algo dispersa exposição faz jus à permanente experimentação e desconstrução que se viveu durante os oito anos de atividade no edifício da Avenida da Liberdade. A desvinculação de condicionantes de mercado e de lógicas às quais o ramo institucional está vinculado permitiu o desenvolvimento de um livre e independente predicado, que reuniu as condições ideais para uma prosperidade criativa, sem igual na arte contemporânea nacional. Isto não significa uma romantização da precarização, mas o seu oposto, as condições ideais são as materiais que – e as curadoras fazem tenção de sublinhar esse argumento – reconhecem “no atelier o valor simbólico da independência económica, do espaço pessoal e do tempo necessário para a liberdade de pensamento”5.
Entre as obras e os fragmentos que nos remetem para as exposições, colaborações e situações concretas, a curadoria também destaca nomes e projetos que inauguraram, cresceram e vingaram neste espaço de autogestão. Em 2006, eram 4 artistas que dividiam o espaço para estúdios de produção e, em 2014, já eram 40 nessa mesma situação. Foi casa do projeto curatorial Kunsthalle Lissabon e berço de outros como The Barber Shop, Parkour e Escritório. Mas, aquilo que destaca a identidade do projeto foi a sua comunalidade, que aparenta ter sido muito bem recebida pela comunidade. Nos primeiros anos de atividade, quatro eventos abertos ao público e organizados por Filho Único mostraram essa recetividade, com mais de 700 entradas vendidas numa única edição. Assim como a dinâmica do “vem, vem e traz um amigo também”, isto é, a natureza inclusiva que ia além da expectativa. Mais do que transversal, era intergeracional, professores e alunos (de escolas de artes) partilhavam o mesmo espaço de trabalho e criação. Também a cave do edifício foi um espaço crucial para a exploração sonora além da música como ofício, mas como exercício. Exemplo disso foi o debute de um dos projetos mais duradouros e singulares do panorama musical português, os Osso Exótico, que atuaram pela primeira vez na cave da Avenida.
Enfim, as oportunidades que se criaram no aproveitamento de um prédio devoluto em Lisboa, aliás naquilo que é considerado o seu centro, permitiu compreender aquilo que somos capazes de fazer numa situação sem mediação. Mais, permite questionar porque não temos mais facilidade em aproveitar estes espaços vazios que o Estado e a Câmara detêm e que nos podem proporcionar, sem o constrangimento de grande burocracia. Porque, afinal, a quem pertence a propriedade municipal? Num ano, ou numa época, em que as coletividades estão a ser expulsas dos espaços e dos bairros que ajudaram a dinamizar; em que o Ministério da Cultura é desmantelado para um que o agrega à Juventude e ao Desporto, resta questionar: o que é que ainda estamos dispostos a tolerar? Para quando outra ação de ocupação?
Com curadoria de Marta Mestre e Nuria Enguita, Avenida 211 – Um Espaço de Artistas em Lisboa está patente no MAC/CBB até dia 5 de Abril de 2026.


1 Entre 2011 e 2014, aproximadamente 500 mil pessoas emigraram, a maior taxa de emigração registada em Portugal em 50 anos.
2 Como tenho vindo a referir, em textos anteriores, ‘desorganização’ diferencia-se de ‘des-organização’ e é o hífen que denuncia a distinção. Enquanto o primeiro termo é referente a um estado de caos, desprovido de qualquer ordem; o segundo refere-se à recusa de uma organização governamental, que estabelece a ordem das coisas, baseada na negação da faculdade humana de se organizar e reivindica um exercício de auto-controlo, isto é, ao invés de controlo (ou organização) pela Igreja, pelo Estado ou pela entidade laboral. Estas são considerações do sociólogo e criminólogo cultural Stephen Lyng (2009).
3 Retirado da folha de sala da exposição.
4 Retirado da folha de sala da exposição.
5 Retirado da folha de sala da exposição.
BIOGRAFIA
Benedita Salema Roby (n. Lisboa) é licenciada em História da Arte (2019) e mestre em Estética e Estudos Artísticos (2022) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa com a dissertação "Graffiti: Considerações Acerca da Estética da Transgressão no Espaço Público da Cidade". Actualmente, encontra-se a realizar o doutoramento em Estudos Artísticos — Arte e Mediações na mesma instituição, onde desenvolve, com financiamento da FCT, uma investigação centrada no potencial de libertação societal e coletiva em torno de práticas (artísticas) transgressoras, como o graffiti e a pichagem política. Sobre este tema, também participa na realização de documentários e organiza oficinas de prática e pensamento orientadas para jovens. O seu projeto de tese, intitulado "A Desconstrução da (experiência da) Cidade e a Construção da Esfera Contra-Pública: Escrita Criativa Transgressiva, Estética e Política", é orientado por Cristina Pratas Cruzeiro e Joana Cunha Leal. Para além de publicações académicas, escreve sobre artistas emergentes e exposições de artes plásticas e performativas para revistas independentes, como a Umbigo e a Sem Título.
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