Se a história doméstica dos interiores portugueses fosse imaginada, não seria descrita apenas pelos pratos decorativos nas paredes da cozinha da lareira, nem pelos naperons que cobrem os móveis da sala, ou pelos santuários familiares, entre santos, rezas e retratos, no quarto. Contar-se-ia também pela essência as pétalas que abençoavam a casa, impregnando as cortinas rendilhadas, ou as pregas suaves da pele do rosto lavado com água de rosas de quem ali habita. Em Viaticum, exposição individual de Eva Gaspar na Salto, com curadoria de David Revés e Nicolai Sarbib, a galeria envolve-nos no mesmo perfume, cuja memória olfativa nos transporta para um imaginário - creio eu - coletivo, comum à casa de muitas avós.
Neste exercício artístico, que é a primeira exposição individual de Eva Gaspar, a artista cruza a teologia, a dança dos corpos e a reconstrução da memória, a partir de um contexto de perda. A problemática da exposição opera num campo híbrido, onde a relíquia - artefato religioso e objeto de veneração - é deslocada da sua função canónica para um regime especulativo e intimista, problematizando a morte, a matéria viva (o excedente, o apêndice) como experiência fenomenológica que, mais do que representação visual, é efetivamente sensorial. O ponto de partida assenta num episódio biográfico, que envolve a criação de um relicário familiar (secreto) contendo um osso do pé - trazido pela sua avó no momento da transladação das ossadas do seu marido, o avô da artista. Um segredo que manteve guardado da restante família, que a mesma procurou ocultar após a sua morte. Ao revisitar esse episódio, Gaspar converte-o prontamente numa outra coisa, um objeto narrativo que parece transmutar-se entre o amor finito e a devoção eterna.
O conjunto de peças funciona como contra-arquivo: a relíquia perdida é reconstituída simbolicamente através da prática artística, das peças em silicone, dos plintos metálicos, dos dentes e dos cabelos, questionando dicotomias entre ortodoxia e heresia, devoção e repulsa, sagrado e profano, ciência e bruxaria. Este deslocamento semântico está implícito no choque e na repulsa, mas é progressivamente substituído por uma estranheza tímida, em que o humor assume contornos ritualísticos. Para o concretizar, a artista propõe um mergulho sensorial, recorrendo à participação do espectador como agente ativo das obras, inscrevendo o conjunto de peças que compõem Viaticum numa prática que entende o corpo do público como mediador. Veja-se a peça Caixão duplo para um verdadeiro amor (2025), dois sarcófagos na vertical que, contrariando tanto a horizontalidade da morte, como a verticalidade dos vivos, nos convidam a um enlaçar de dedos até que a morte nos separe ou nos volte a unir. Por outro lado, Viaticum (2025), que dá o nome à exposição, é uma coleção de hóstias brancas e pretas - que podemos comungar, portanto, ingerir e integrar o ritual. Entre o bem e o mal, o yin e o yang, figura a imagem da chave que São Pedro esconde das almas, ou, quem sabe, aquela que a sua avó usou para guardar o seu afeto. Entre a série de vários relicários contundentes e viscerais (Relicário I, II e III, 2025), que nos incita a caminhar em torno, está Anunciação (2025), que já referimos e cujo efeito sentimos imediatamente ao entrar no espaço. Penas de corvo libertam a essência de rosa pela galeria, anunciando a chegada do pároco ou invocando a sua bênção pela defumação.
É neste ponto que se torna relevante a aproximação à estética “cronenberguiana” - uma associação trazida por Nicolai Sarbib, já que a minha memória olfativa estava excessivamente capturada pelo humor negro (suave e familiar) de Six Feet Under. Em particular, o imaginário do filme The Shrouds (2024), de David Cronenberg, (que vimos também em The Fly ,1986, e no fenómeno gore estilizado de The Substance, de Coralie Fargeat, 2024). A morte e a matéria orgânica fundem-se com a ternura e o horror corporal. E, tal como o cineasta trabalha a decomposição, o corpo e o desejo de preservação do que é irrecuperável, também Eva Gaspar “opera” na zona de tensão entre a veneração da matéria mortal e o desconforto do corpo fragmentado, convidando a uma leitura asséptica e científica, não esquecendo a poética da carne como prótese ritual e simbólica, sem naperons, cortinas, bibelô ou outros aconchegos floreados e kitsch.
Os estímulos dos sentidos, a polissemia e a genealogia estética das peças de Eva Gaspar estarão patentes na Galeria Salto até dia 07 de fevereiro.