«So with you, with that impressive resume and that big speech about your so-called work ethic, I thought you could be different. I said to myself, go ahead, take a chance, hire the smart, fat girl. I had a hope. My God, I live on hopes. But in the end, you disappointed me more than... more than any of the other silly girls».
(Miranda, O diabo veste Prada, 2006)
Eu vivo por esperanças, como a própria Miranda Priestly. Eu tinha grandes expectativas, muito entusiasmo mesmo, para assistir à 61ª Bienal de Veneza, In Minor Keys. Eu sei, Koyo Kouoh morreu mal tinha acabado de completar a lista dos convidados, já era para imaginar uma Bienal aleijada – "menor" feito título. Mas não, eu quis acreditar. Aliás, torci: 110 artistas (entre duplas, coletivos, organizações) dos quais a maioria compreendidos entre os 40 e 50 anos, ou seja, na idade da maturidade. Que alívio! Chega de criança prodígio e também chega de mortos, já que as últimas edições estavam mais próximas de um inventário de cemitério do que de uma exposição de arte contemporânea.
De olhos na enumeração dos artistas, após a apresentação do projeto pela equipe da curadora – no passado mês de fevereiro, em Veneza – estava otimista ao ler os nomes: Kader Attia, Carsten Höller, Alfredo Jaar, Dan Lie, Eustaquio Neves, Uriel Orlow, Walid Raad...
No entanto, tudo acontece. Primeiramente: a decepção dos trabalhadores da arte italianos por não ter – pela primeira vez na história da Bienal – nenhuma representação. Nunca teria acontecido em nenhum outro lugar do mundo, aqui pode. Segundo: a política metendo o pé na porta mesmo, entrando de vez na manifestação, envenenando o clima da véspera de uma forma nunca antes experimentada, ou talvez somente nas Bienais de 1968 e de 1977, as mais quentes da época pós-guerra, espelhos dos anos das contestações na Europa.
E mais, seguindo os acontecimentos: após o falecimento da curadora, a Rússia anunciou a própria volta à Veneza. Pena que o Ministro da Cultura da Itália, Alessandro Giuli, não gostou da independência remarcada pela Fundação Bienal em deixar livres todos os países do mundo em participar. Por toda resposta, o próprio Giuli, alinhou-se ao pavilhão de Israel, prometendo máxima visibilidade na Itália ao artista Belu-Simion Fainaru. Até um convite a Roma prometeu-lhe.
Seria uma piada se não fosse tudo documentado por um comunicado de imprensa emitido pelo mesmo Ministério.
Há mais: anunciado no dia 22 de abril, o júri composto por Solange Oliveira Farkas, Zoe Butt, Elvira Dyangani Ose, Marta Kuzma e Giovanna Zapperi – cujo papel devia ser a escolha e a consignação dos Leões de Ouro – anunciou no dia 27 que não levaria em consideração as participações de países cujos líderes estão acusados de crimes contra a humanidade (Rússia e Israel, exatamente). Três dias depois, o grupo assinou as próprias demissões. O pavilhão russo, no entanto, foi fechado após os 4 dias de abertura, enquanto Israel queixou-se da “falsa doutrinação política” que envolve a Bienal. Evidentemente, pela Europa que ameaçou cortar a verba anual à Bienal de Veneza caso a Rússia tivesse convidada (dois milhões de euros, equivalente ao valor de um café para a gente) existem genocidas de série A e de série B.
Não é acaso que na sexta-feira 8, último dia da preview da Bienal, em ocasião da greve dos trabalhadores da arte – 27 pavilhões nacionais apoiando a iniciativa e consequentemente fechando as portas – a polícia (a política) mostrou mais uma vez a própria face: enfrentando os manifestantes pró-Palestina e tentando anular o cortejo.
Para os apoiantes, as leis (os estados) que fomentam a guerra têm tudo a ver com os programas de austeridade, que, de um lado ao outro da Europa, aniquilam a cultura: a Bienal, nesse vexame, não é imparcial nem estranha à questão.
Mas o que veio à luz nessa Bienal-maionese, talvez a edição final de como a conhecemos até agora? Antes de tudo, um show off das galerias: inacreditável – alguns pavilhões nacionais cujos artistas estão representados pelas maiores empresas do mundo – realizarem projetos tão ordinários: um verdadeiro exercício para alisar o pelo do poder, para passar diretamente de Veneza à casa de qualquer colecionador. Pouquíssimos os corajosos, quer dizer, os que trataram os próprios espaços como lugares de pesquisa e não para montar paredes a vender: o Japão, o Canadá, a Alemanha, a Bélgica, a Áustria.
A Bienal em si, especialmente na seção de In Minor Keys apresentada no Arsenale, tem mais a ver com uma feira: nenhum desvio do percurso. Realmente ninguém, em anos, desde Ralph Rugoff em 2019 (a sua edição foi May you live in interesting times) pensou em dar uma viravolta na rotina do atravessamento? De fato, essa maneira “inclusiva” e hegemônica – de curso de expografia, leva-nos à mesma experiência de visita a Art Basel da vida: estandes chiques divididos por papelão e cortinas; o tamanho das obras alinhado aos das grandes salas de estar.
Estamos a anos-luz de Bienais de grandes instalações, de ambientes: a sala vermelha dedicada à exploração das terras raras de Alfredo Jaar é um déjà-vu de Light Art; a intervenção de Kader Attia já foi vista em 2025 na Bienal de São Paulo (para quem comentará “Ah, mas era diferente”: era mesmo, só que não. Inclusive o olhar, muitas vezes, tem mais razão do que o conceito); as fotos do maravilhoso Eustaquio Neves e a instalação do Walid Raad? Nada que já não vimos em outras Bienais ou em galerias ao redor do mundo.
Comentar-se-á que este problema afeta somente os que andam pelo mundo afora em busca da arte de hoje. Sim e não: a questão, aqui, já entra no âmbito conceitual. Como podem considerar-se “menores” as frequências de trabalhos que já entraram nas Bienais de todo o mundo mesmo, do Brasil até Diriyah, na Arábia Saudita? Como não enxergar um desenho dos mercados na reiteração global de artistas e tópicos?
Enfim, eis que In Minor Keys, teorizada como a celebração dos silêncios, dos esquecidos e das alteridades, tropeça na prática: festeja-se o que era antigamente e já não é mais, completamente absorvido pelas economias do pós-capitalismo cultural. O resgate da arte e dos temas vindos da África e das suas diásporas é moda: não uma ruptura e sim uma repetição. Brilha cristalino esse entendimento em quem atravessa In Minor Keys, após as edições dos resgatados de Gioni, Alemani, Macel e Pedrosa.
Permitam-me mais uma ironia: falar da África de hoje colocando a senegalesa Seyni Awe Camara (1945-2026) – já incluída na histórica exposição Les Magiciens de la terre, curada por Jean-Hubert Martin no Centre Pompidou em Paris, em 1988 – para abrir a sala do pavilhão central? Groundbreaking, diria Miranda.
Ainda: a equipe curatorial (Gabe Beckhurst Feijoo, Marie Hélène Pereira, Rasha Salti, Siddhartha Mitter e Rory Tsapayi) relatou uma Bienal mais focada nos artistas do que nos objetos. Pronto, completou-se a transferência da arte à questão biográfica, à possibilidade psicológica: as práticas visuais como remédio e cura no sentido sanitário do termo, um século depois Arthur Bispo do Rosário.
De uma certa forma, essa trend faz o maior sentido: além das polêmicas políticas, nunca apareceu tão arrebatadora a FOMO (Fear of missing out) dos trabalhadores da arte e relativos envolvidos nos dias de abertura: dispostos a tudo (filas de espera longas horas) para tirar uma foto a uma mulher nua imersa numa caixa de águas (urinas) de reuso (pavilhão da Áustria); histerias desarticuladas nas filas dos parties. A Artnews até lançou uma matéria dedicada aos grandes iates ancorados no cais em frente à entrada do Arsenale e do Giardini: quem são os bilionários colecionadores que foram dormir na própria mansão boiante durante a Bienal?
A arte? É contorno e sobremesa.
No meio, Veneza: cada vez mais lotada, mais afastadora, mais desconectada da sua criatura-monstro, a mais antiga e a mais institucional do mundo.
Para completar: bilhetes VIP vendidos a 500 euros, meninos das escolas a passeio nos dias da abertura – pasme!, e as sobras da dignidade: mais de 70 artistas (entre os convidados da mostra principal e os representantes de pavilhões nacionais) recusaram-se a receber os Leões que o mesmo público decidirá por votação anônima, daqui a novembro.
Em volta, também a assustadora ingenuidade que ainda acredita que os Tons Menores pertençam a um estilo ou até a uma reparação da dignidade perdida.