A exposição coletiva Dual Sim inaugura o CACE-CENTRO, o novo espaço da Coleção de Arte Contemporânea do Estado (CACE), aberto ao público no início de julho, em Alcabideche, Cascais. Dividida entre duas salas gémeas, a exposição reúne vinte e três trabalhos integrados na coleção desde o início do programa anual de aquisições de arte contemporânea, em 2019. A partir do olhar das jovens curadoras Filipa da Rocha Nunes e Sofia Montanha, esta é a primeira leitura curatorial construída especificamente para este lugar, que ensaia a capacidade de a coleção produzir novas relações, sentidos e perguntas. E, também pela primeira vez, as reservas abrem-se para receber visitantes, possibilitando ao público um encontro com o lado invisível da arte contemporânea.
O conceito curatorial toma o sistema Dual SIM (1) como ponto de partida enquanto metáfora para a circulação entre redes, geografias e identidades. É uma imagem pertinente para uma coleção pública cuja missão passa precisamente por descentralizar o acesso à arte contemporânea e fazer circular o património artístico nacional. Ainda assim, durante a visita, torna-se evidente que a exposição ultrapassa rapidamente essa premissa. A dualidade não se esgota no título, nem na divisão curatorial. Inscreve-se na própria montagem, nas aproximações inesperadas entre obras, nos ritmos que se constroem entre um espaço e outro e na possibilidade de cada trabalho deslocar o significado do seguinte.
O percurso expositivo é livre, e vão crescendo sucessivas relações construídas à medida que o olhar atravessa o espaço. Sunbirds (2024), de Nuno da Luz, desdobra-se pelas duas salas em quatro mantas térmicas suspensas como bandeiras, inscritas com poemas de autores palestinianos. A superfície dourada/prateada reaparece continuamente na periferia do olhar, acompanhando o visitante mesmo quando este se detém diante de outras obras. A montagem prolonga a presença de Sunbirds para além do espaço que ocupa, introduzindo uma frequência política que permanece ativa ao longo de todo o percurso.
Além das mantas térmicas de Nuno da Luz, muitos dos trabalhos partem de objetos reconhecíveis, próximos do doméstico e da experiência quotidiana. Tapete (2006), de Leonor Antunes, recupera a memória de tapetes persas através de tubos de cobre enrolados, evocando simultaneamente um objeto ausente e a sua condição de armazenamento em reserva. A fotografia de Joanna Piotrowska, da série Frantic, encena uma mulher abrigada numa estrutura frágil e efémera, improvisada com mobiliário pessoal, onde a expressão preocupada do corpo revela a precariedade do refúgio. Este movimento prolonga-se na instalação de Susanne S. D. Themlitz onde mobiliário, peças de cerâmica e pequenos artefactos se acumulam numa construção vertical que parece crescer a partir de um gesto contínuo de procura.
Este conjunto de obras revela a deslocação de objetos e imagens para contextos, onde a sua função original entra em tensão com novas formas de uso, memória e perceção. Trata-se de desestabilizar a perceção imediata do que nos rodeia. É o que acontece com A Bengala (2015), dos Von Calhau, instalada logo à entrada de uma das salas, perto do chão. A bengala recusa a sua função de apoio para se converter num obstáculo performativo — uma armadilha subtil que tenta “passar a perna” a quem entra. A perceção e a deslocação do corpo prolongam-se em Chuva (2018), de Joana Escoval, onde centenas de elementos em prata desenham na parede uma cadência de linhas, tal como gotas de chuva numa tempestade. A obra exige o deslocamento do espetador, revelando-se à medida que o brilho do metal cintila a cada passo que damos.
A diversidade de linguagens e materiais presentes em Dual Sim poderia facilmente resultar numa apresentação fragmentada da coleção, limitada à enumeração de diferentes práticas e gerações. No entanto, a exposição encontra a sua coerência precisamente na forma como permite que essas diferenças permaneçam em relação. As obras prologam-se umas nas outras através do olhar de quem percorre a exposição. O abrigo improvisado de Joana Piotrowska surge atravessado pelo reflexo das mantas térmicas de Nuno da Luz; a construção vertical de Susanne S. D. Themlitz parece encontrar ressonância no vulcão pintado por Luísa Correia Pereira em 1999. Também o fantasma representado por Gabriel Abrantes em Drunk Ghost (2022), a partir de uma imagem gerada por inteligência artificial, aproxima-se da presença suspensa de Sede (2022), de Luísa Jacinto.
Uma coleção mantém-se viva quando é continuamente recolocada em circulação através de diferentes contextos, interpretações e públicos. Ao abrir as reservas ao público e ao convidar duas jovens curadoras a construir novas leituras a partir das aquisições mais recentes, o CACE-CENTRO apresenta a coleção como um espaço em permanente construção de sentidos. Como escreve Hans Ulrich Obrist, “the task of curating is to make junctions, to allow different elements to touch” (2). É precisamente nessa capacidade de colocar em relação obras produzidas em tempos, contextos e linguagens distintos que reside uma das maiores qualidades de Dual Sim. A exposição revela uma coleção que permanece próxima ao presente, no qual questões como a inteligência artificial, a violência política e as heranças coloniais surgem inscritas nas próprias obras, demonstrando como uma coleção pode continuar a responder ao tempo em que existe.
A par de Dual Sim, a CACE continua a desenvolver uma programação distribuída pelo território nacional. Encontram-se patentes mais três exposições em diferentes localidades do país: Corpo Fantasma, no Centro de Arte Villa Portela, em Leiria, até 30 de agosto; Chuva de Verão, no Centro de Artes de Sines, até 17 de outubro; e O Silêncio de Hefesto, no Arquipélago — Centro de Artes Contemporâneas, na ilha de São Miguel, até 1 de novembro.
A exposição Dual Sim pode ser visitada mediante agendamento até 2 de outubro de 2026.
- O sistema Dual SIM permite a utilização simultânea de dois cartões SIM (Subscriber Identity Module) num mesmo dispositivo móvel, possibilitando a gestão de dois números ou redes de comunicação no mesmo telemóvel. A tecnologia popularizou-se sobretudo a partir dos anos 2000, associada a contextos de mobilidade internacional, à redução de custos de roaming e à necessidade de alternar entre diferentes redes telefónicas.
- Hans Ulrich Obrist, Ways of Curating, Londres: Penguin Books, 2014.