Ana Maria Maiolino (1942) é uma artista brasileira, nascida em Itália, cuja prática se desenvolve a partir da experiência da migração, dos contextos políticos da América Latina do século XX e de uma investigação contínua sobre corpo, linguagem e materialidade. Fixa-se no Brasil no início da década de 1960, onde integra movimentos ligados à Nova Figuração e a práticas experimentais que emergem durante a ditadura militar brasileira. O seu percurso cruza desenho, gravura, fotografia, performance e escultura, privilegiando a continuidade entre o gesto e a repetição.
A exposição Terra Poética, patente no MAAT, encapsula um corpo de trabalho produzido entre 1975 e 2025, com foco na sua vertente escultórica e na materialidade da argila. O percurso expositivo inicia-se pela fotografia Por um fio (1976), imagem a preto e branco que mostra três mulheres de gerações diferentes ligadas por um fio que sai da boca de cada uma. A artista coloca-se ao centro, entre a sua mãe e filha, e esse alinhamento gera uma estrutura visual que torna visível a continuidade da sua história familiar. O fio funciona como extensão física que une materialmente a ancestralidade das três mulheres, mas também faz adivinhar uma das principais formas que veremos mais à frente das suas esculturas: o cilindro.
Partindo desta imagem, o percurso pela Galeria Oval começa ao longo da rampa que desce até ao piso inferior, onde são expostas obras de parede que nos fazem mergulhar no processo criativo da artista. Na série Tempestade de Ideias, produzida entre 1990 e 2025, o desenho surge como um campo do pensamento. Nele assistimos à importância do gesto gráfico enquanto registo das ideias e da imaginação, onde esboços de linhas soltas e livres parecem funcionar como elementos essenciais para fixar os caminhos possíveis da escultura.
A chegar ao piso inferior, a exposição desloca-se de forma clara para a escultura, abrindo um campo mais amplo em que a circulação se faz em torno das peças. O espaço torna-se menos linear, mais livre, e essa mudança coincide com a passagem do papel para a argila. Num dos núcleos iniciais, pequenas esculturas expõem cavidades internas, como se a matéria tivesse sido escavada a partir de dentro. São formas compactas, atravessadas por vazios e espaços negativos que criam a sensação de que algumas partes foram parcialmente removidas. A materialidade das obras aproxima-as de objetos arqueológicos pela densidade, formas e texturas, como se fossem relíquias de outro tempo.
O conjunto de esculturas de maior escala domina toda galeria. A argila crua foi moldada no próprio espaço expositivo ao longo do tempo, e as suas formas resultam de um processo partilhado entre a artista, membros da sua equipa e ceramistas locais. Por serem produzidas em diferentes tempos, a argila evidencia várias tonalidades - do castanho húmido a tons mais claros -, e texturas que nascem da sua desidratação. A matéria sofre transformações lentas que alteram a cor, textura e consistência, e, em alguns casos, as formas aproximam-se visualmente da pedra, como se a escultura regressasse a um estado geológico. Este processo expande a temporalidade da obra, afastando-a da categoria de objeto estático e aproximando-a de um evento em curso, de um processo que se prolonga no tempo. Para o final da mostra antecipa-se que as esculturas alterem por completo a sua aparência, que se aproximem de tons mais claros e secos e que a sua superfície abra pequenas fissuras.
Um aspeto a salientar, e o mais recorrente nas peças, são as formas cilíndricas que a argila adquire a partir do gesto de “enrolar”. As esculturas compõem-se através do acumular desses cilindros, evocando movimentos ocorridos em torno do ato de cozinhar, especificamente a preparação de massa. Cada obra resulta da insistência num determinado gesto, produzindo uma série de acumulações que abordam a repetição, o quotidiano e o trabalho. A importância do gesto manual nota-se igualmente nos rastos que os dedos deixaram em várias peças, onde a própria anatomia da mão é usada para moldar a argila.
Quando a exposição terminar, as esculturas de maiores dimensões, feitas de argila, estão destinadas a desaparecer, sendo devolvidas ao atelier de cerâmica que forneceu o material. É um gesto final que não encerra a obra dentro da permanência museológica, mas que instaura uma condição de retorno, aproximando o trabalho dos ciclos naturais de transformação e dissolução.
A exposição constrói-se na repetição do gesto e na transformação da matéria. A dimensão da repetição é reforçada pela afirmação da artista “Você vai ao infinito fazendo a mesma coisa”1, que aponta a continuidade do gesto como uma forma de conhecimento. E é a partir daqui que o trabalho manual ganha destaque: o enrolar, acumular e moldar da argila prolonga gestos quotidianos ligados à esfera doméstica, em particular à preparação de alimentos. Esses movimentos, historicamente associados ao trabalho feminino e frequentemente desvalorizados, são aqui deslocados e ampliados, passando do espaço privado para a monumentalidade da escultura. É quase que uma continuidade das práticas familiares: mantém-se o gesto, mas noutro regime. E com esse deslocamento, Ana Maria Maiolino torna visível a repetição dos gestos femininos, afirmando-os como estrutura, onde o saber e o corpo se tornam matéria da própria obra.
A exposição está patente no MAAT até ao dia 31 de agosto de 2026.
1 Palavras da artista Ana Maria Maiolino durante a visita de imprensa à exposição no dia 23 de março de 2026.