As cores são várias e seguem, mais das vezes, um princípio de gradação tonal. As formas parecem obedecer, por sua vez, a um princípio de encaixe por dobras: são pinturas como origamis aplanados, telas reminescentes da matéria simples, da forma franca, do papel, (des)dobrável. São telas-recados-de-menino. Menino que saiu para ver o mundo e voltou sem esquecer as primeiras formas vistas, as primeiras janelas das quais sentiu o desejo de sair a ver lá fora. A pintura de Costa Cabral parece atribuir a qualquer figuração identificada - um rosto, por exemplo - a condição de mistério irresolúvel; como se as formas abstractas detivessem, afinal, uma maior ligação com as coisas concretas que - é forçoso que assim seja - motivaram o artista a pintar. O consenso que um rosto significa num primeiro momento constitui, assim, uma espécie de desistência na procura da forma perfeita, na tradução exacta de uma vida, da vida de uma experiência, que pode ser um instante apenas. E a abstracção das pinturas sintomatiza o esquecimento de si, como meio de resistir. Veja-se um conjunto de três pinturas: um rosto de olhar caído, uma flor, e um padrão estriado a afunilar para a base da tela; todas elas sugerem, a seu modo, uma ideia de esgotamento e de perda. Dir-se-iam tratar-se de esboços de naturezas mortas. Ora, outras pinturas, de que não se extraem formas consensuais, detêm a força de dramas por compor, por personificar, ou que, pelo menos, constituem um apelo à nossa memória viva: então lembramo-nos de sensações, confundimo-las com a realidade da exposição que se nos defronta. Deixamos de estar vinculados a um território, a um nome, a um rosto que vetam a recriação de peles de que vive a arte, substancialmente. Um rosto é, pois, uma flor morta, escorrendo com a água - por excesso ou defeito dela -, de um leque listrado em direcção ao lado de fora da tela.
Paulo Leminski, poeta inventor brasileiro, no livro de 1991, com o belo título La Vie en Close, fala sobre o estupor enquanto motor criativo, palavra que dá título a um poema, que diz assim: “esse súbito não ter/ esse estúpido querer/ que me leva a duvidar/ quando eu devia crer// esse sentir-se cair/ quando não existe lugar/ aonde se possa ir// esse pegar ou largar/ essa poesia vulgar/ que não deixa mentir”. A pintura de Manuel Costa Cabral funciona como a teima estuporada de espanto de quem, para não ficar num mesmo lugar, inventou mundos outros em profundidade para onde pudesse cair. Talvez um bom artista seja justamente isso: afoitar-se para um lugar que não existe, tão-só para sentir o peso do próprio corpo percorrer outras altitudes, tocar outras vegetações, rejeitar como gramática o que se aprendeu, recusar o espelho, propor um certo espelhamento.
A exposição está patente na Brotéria até dia 11 de janeiro.