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O Mundo da Arte na Semana da Arte, em Basileia. Que Mundo procuramos?
DATA
15 Jul 2025
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AUTOR
Benedita Salema Roby
Anualmente, durante uma semana, em meados de junho a cidade de Basileia, na Suíça, torna-se no centro artístico internacional para galerias, colecionadores e artistas contemporâneos. Digo isto numa visão de mercado, porque raramente encontramos este mundo - o nosso - lá representado. Também o digo sabendo que não tem de ser esse o papel da arte, o da formulação de uma linguagem de comunalidade, ou da denúncia da contemporaneidade, mas digo-o compreendendo que, hoje, esse papel se prefigura em grande parte reduzido à representação da individualidade. Das inquietações pessoais, em lugar das societais.
Esta condição não é nova, ainda menos quando nos referimos às feiras de arte, que procuram (e constroem) tendências que podem agradar àqueles que pretendem colecionar, mas neste ano em particular – de reconhecimento de um genocídio em curso e live on social media, facilitado pela União Europeia – a alienação aparentou ocupar o primeiro lugar. Mas, será alienação quando aquilo a que nos referimos é a própria instituição? O próprio núcleo do investimento e regulação da produção e circulação artísticas. A questão que persiste é, então, o que pode a arte, nas feiras, além do mercado? E o que podem os artistas, os curadores e os críticos, além dos colecionadores? Deixo também estas perguntas aos leitores, sendo que não encontrarão respostas conclusivas neste artigo que vos escrevo.
Na realidade, sou-vos honesta: viajei até Basileia alheia à semana em questão, apenas com a ambição de visitar uma pequena galeria na Alemanha, junto à fronteira desta capital europeia do mercado da arte. Ao planear a viagem, apercebi-me, de imediato, que a semana coincidia com a Art Basel, uma das maiores e mais antigas feiras de arte contemporânea, que contava a sua 55ª edição. Sendo que não sou colecionadora, comprei apenas um bilhete para o núcleo Unlimited, onde já não encontramos o tradicional esqueleto organizacional, com um estande por galeria, mas uma ampla plataforma que apresenta uma seleção de mais de setenta trabalhos de larga escala e performances. Segundo as minhas colegas locais, é este o núcleo que mais importa ver num evento de tamanha e infindável proporção. Adiante, retornarei ao Unlimited com a devida atenção.
Dias antes de embarcar compreendi que, nessa semana, uma série de outras feiras, eventos e festivais ocupavam justamente a mesma cidade, orbitando em torno do ecossistema impulsionado pela maturidade da Art Basel, servindo-se da presença não só dos colecionadores, mas também dos artistas, curadores e mediadores que visitam a feira naquela que é a capital cultural suíça. Refiro-me às denominadas satellite fairs (avançando, desde logo, uma ideia de periferia em relação à centralidade, que determina a identidade da Art Basel), sendo elas: Liste Art Fair; June Art Fair; VOLTA Art Fair; Photo Basel; Africa Basel e Basel Social Club. Na impossibilidade de me desdobrar sobre todas, segui os conselhos dos meus pares residentes na cidade e preferi dedicar o tempo que me sobrava a visitar a Liste Art Fair, na sua 30ª edição e o Basel Social Club, na sua 4ª edição.
Nos dias e semanas que se seguiram às feiras começaram a surgir uma série de artigos como 5 Outstanding Artworks at Liste Art Fair Basel 2025, ou The Best Booths at Liste, entre vários similares. Compreendemos, de imediato, que a velha e tradicional obsessão com o fracasso e o sucesso de uma exposição está ainda bastante presente, sobretudo naquilo que é referente à forma e estilo da arte, em lugar do discurso, que fica relegado a um segundo plano. Entende-se ao percorrer os artigos, descendentes de uma linhagem dialética, que a condição de alienação é transversal aos vários agentes intervenientes, presentes e ausentes, nas feiras. Há quem nos diga que começa no artista: “nos dias de hoje, a arte deixou a agonia para trás”, confessa T.J. Clark numa entrevista por Afonso Dias Ramos1 publicada este mês, no rescaldo de um verão entre a Exposição Universal em Osaka e as intermináveis feiras em rotação. Apesar de compreender o enunciado da afirmação, considero também algo injusta a acusação. Será mesmo que falta agonia na representação? Será a curadoria que ignora essa disposição? Ou será, ainda, que não reconhecemos a “arte” que trata e que está imbricada em tal condição? Escrevendo de um lugar de critica, também vale a pena recuperar a reflexão de Maria Inés Plaza, editora e fundadora do jornal Arts of the Working Class, acerca da nova responsabilidade do critico de arte, onde pode também residir alguma a culpa: “o que significaria analisar uma exposição [ou feira] não pela apreciação do seu sucesso ou fracasso, mas colocando a seguinte questão: que tipo de mundo este trabalho procura habitar ou propor?”2. Num belíssimo texto intitulado Art Critique as Midwifery of a Shifting Consciousness Plaza apela por uma crítica que se afasta de uma noção de juízo, de julgamento, e que se aproxima de uma prática de mediação, semelhante à de uma doula, atendendo e apoiando aquilo que está ainda a tornar-se linguagem. Isto é, criticar como uma doula abre espaço para aquilo que está a surgir, em vez de forçar a clareza. A questão deixa de ser sobre o que determinado trabalho diz, mas sobre aquilo que tenta criar. E o que é necessário que eu, crítica(o), faça para apoiar esse processo? É isto que podem os críticos. E o que podem permite passar da mera descrição e categorização, à construção de uma esfera contra-pública3.
Partindo deste ponto de vista, ou melhor, desta metodologia, que está atenta e cuida daquilo que ainda está a tornar-se – retorno a questionar o que podem as artes, nas feiras, além do mercado, e o que podem os artistas e curadores, além dos colecionadores?
Partimos, do centro, daquilo que hoje representa o cânon, da Art Basel. Apesar disso, partirmos do núcleo Unlimited, menos convencional, não obstante pautado pelo monumental, o que reverte de imediato para condições privilegiadas de produção e circulação. Mas não é essa a critica que convoco, uma de julgamento. Apesar de necessária, trata-se uma abordagem já saturada, pouco preparada para, de facto, desconstruir os processos de distribuição do sensível. No parágrafo inaugural sugeri que, ao longo da Basel Art Week, se tornou manifestamente evidente uma preferência por representações em torno dos anseios individuais, materiais ou conceptuais, levando-nos a questionar se é o nosso mundo que vemos representado no decurso dos festivais. Digo nosso no plural comunal. Mas indo além da plasticidade formal e da hermenêutica habitual, olhando e imaginando em conjunto, talvez possamos conceber que mundo(s) cada artista e curador pretende propor além daquilo que os colecionadores valorizam.
Levo-vos pela Messeplatz até à entrada da Art Basel Unlimited, rasgada por uma larga e ampla instalação site-specific de Katharina Grosse, cujo discurso institucional afirma explorar as possibilidades da pintura, aparenta afinal ser muito mais que isso. Quando foi a última vez que caminharam dentro de um graffiti? Ou melhor, qual foi a última vez que não ignoraram um graffiti? Talvez esteja aqui uma chamada de atenção para aquilo que já não pode ser desprezado. T.J Clark diz-nos que já não há agonia na arte, mas talvez devamos repensar o que é a arte e naquilo que ela pode estar a tornar-se. Pensar naquilo que ainda não foi institucionalizado, pode ser onde, afinal, reside a agonia. As paredes das cidades contemporâneas, atualmente, enchem-se de agonia: basta estar atento e largar a demagogia.
Já dentro do recinto também se reconhecia um olhar sobre o futuro, através do passado, atendendo sobretudo a linguagens formais das vanguardas e neo-vanguardas do século XX. Ainda no mesmo artigo, T.J Clark alega que “o presente não reconhecerá a sua agonia até chegar a um acordo com esse passado que imagina já ter ultrapassado”. Pois bem, vários dos artistas representados parecem alertar para um passado que está a ser prolongado além do presente, sobre o futuro. São, com certeza, subtis e algo tímidas referências, mas precisamos de clareza? Ou de ferramentas críticas? Na vida real, onde a arte devia residir, as evidências também não são assim tão claras. Desde as negociações espaciais de Claudia Comte (Temporal Drift, 2025), às paisagens neo-surrealistas de Didier William (Gesture to Home, 2024) e de Luis Zerbini (Os comedores de Terra, 2025), até às enormes telas neo-construtivistas de Erik Bulatov (Вперед/Forward, 2015-2016) – há de facto mundos a serem criticados. Aquilo que parecem propor são as próprias ferramentas críticas que nos escapam, progressivamente, no processo de alienação.
Avançando até à Liste Art Fair, nas costas no mesmo pavilhão, entramos num ambiente menos tradicional, destinado a exibir artistas emergentes e galerias não-repetentes. Aqui, e ainda no mesmo tópico, a curadora Nikola Dietrich confessa-nos aquilo que já tínhamos compreendido em relação ao que as representações da individualidade propõem para a comunidade: “o que se pode perceber é a abordagem das mudanças sociais de uma forma muito pessoal, poética e política. Os artistas refletem sobre processos sociais, sobreposições culturais, questões de identidade, corporalidade, memória ou espaço. E isso acontece de várias formas: desde a pintura figurativa até trabalhos instalativos, esculturais ou baseados em texto. Muitos dos trabalhos seguem uma urgência de conteúdo e abrem novas perspetivas, seja por meio de leituras queer, estratégias visuais decididamente políticas, reapropriação de práticas culturais consideradas perdidas ou visibilidade de experiências marginalizadas”4. E é mesmo essa a realidade. Em termos formais houve quem criticasse algum retorno ao figurativo, mas não era a clareza o objetivo imperativo? À parte disso, a fotografia e a palavra escrita e a linguagem subjetiva parecem ter sido o foco atrativo. Georg Gatsas, representado pela Jubg, levava-nos poetry at gunpoint, onde o quotidiano é ameaçado por meio do disparo digital. Aki Hassan, com a Yeo Workshop,repensa as cartas de amor como partituras rutmícas5. Jonas Staal, mostrado pela Laveronica, imagina iates em chamas e apela por uma redistribuição da extinção. E Marietta Mavrokordatou, com a Brunette Coleman, questiona escalas antropocénicas através de lente microscópicas. Há uma preocupação em propor outras realidades, apenas parte da individualidade.
Por último, seria impossível não mencionar o Basel Social Club. De entrada gratuita, importa sublinhar. Reputado por ocupar espaços abandonados ou inutilizados na cidade e arredores, neste ano tomou um antigo Banco privado, no centro histórico de Basileia, tornando-o num tableau vivant imersivo. Num esquema labiríntico percorremos os vários andares, salas, sótãos, cofres, casas de banho e armários onde a arte, a vida e a performance emaranham-se de uma forma que não nos permite cindi-los de novo. Os assistentes de sala, engradecidos com t-shirts que gritam “Burn Galleries, not Calories!” estão em constante performance (ou não?). Relembro o funcionário que recebia as enchentes e multidões no hall de entrada, com um aspirador que limpava cada pegada, enquanto se filmava, num comportamento obsessivo que não resultava em nada. As raparigas que liam textos desde uma retrete, de porta encostada. As salas de apoio, compostas com paredes de vidro, onde os assistentes almoçavam, e que nos deixavam na dúvida se assistíamos a um prolongamento das performances ou se era de facto a vida, visível, no meio da arte. Um sofá com casacos amontoados, entre obras de Man Ray e Nan Goldin, fazia-nos questionar o mesmo. A linha entre arte e vida estava totalmente esbatida. De maneira que, ao virarmos a esquina de uma sala expositiva, encontrávamos a oportunidade de entrar numa sauna e mergulhar em banhos de gelo; de fazer tatuagens; doar sangue; cortar o cabelo e comprar balões iguais aos que Jeff Koons reproduz, por apenas um euro.
A feira/festival que, há quatro anos, aquando da sua inauguração, atraia um público mais jovem, ao oferecer um programa alternativo às grandes feiras convencionais, hoje reúne também todos os outros que viajam exatamente para esses mesmos eventos tradicionais. Torna-se, assim, bastante claro o que podem as artes, nas feiras, além dos colecionadores. Podem isso mesmo: voltar-se para a vida e para a comunidade, ao comunicar (e bem) fora do white cube, através da performatividade e ambiguidade, isto é, sem a fixidez de movimentos e significados.
Termino ao citar Jenny Holzer que nos recebia, por meio das suas faixas eletrónicas, numa sala que partilhava com Franz Burkhardt, na qual uma paragem de autocarro pichada pedia-nos que deitássemos arte no seu caixote do lixo. Holzer, com uma obra de 2005, mas sempre atenta àquilo que está a tornar-se e em concordância com os nossos anseios em relação às linguagens artísticas individualistas, atenta: “spending too much time at self-improvement is antisocial”.
As feiras de arte contemporânea Art Basel, Liste Art Fair e Basel Social Club decorreram, em Basileia, entre 15 e 22 de Junho, de 2025.
1 https://electramagazine.fundacaoedp.pt/editions/edicao-29/t-j-clark-nos-dias-de-hoje-arte-deixou-agonia-para-tras
2 https://artsoftheworkingclass.org/text/art-critique-as-midwifery-of-a-shifting-consciousness
3 A esfera contra-pública é descrita como a des-organização da experiência social (pós)moderna, burguesa-liberal, das massas. Cf. Kluge, A., & Negt, O. (2016). Public sphere and experience: Analysis of the bourgeois and proletarian public sphere. Verso Books.
4 https://artsoftheworkingclass.org/text/30-jahre-liste
5 Conceção pré-platónica de ritmo que recusa a repetição e métrica.
BIOGRAFIA
Benedita Salema Roby (n. Lisboa) é licenciada em História da Arte (2019) e mestre em Estética e Estudos Artísticos (2022) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa com a dissertação "Graffiti: Considerações Acerca da Estética da Transgressão no Espaço Público da Cidade". Actualmente, encontra-se a realizar o doutoramento em Estudos Artísticos — Arte e Mediações na mesma instituição, onde desenvolve, com financiamento da FCT, uma investigação centrada no potencial de libertação societal e coletiva em torno de práticas (artísticas) transgressoras, como o graffiti e a pichagem política. Sobre este tema, também participa na realização de documentários e organiza oficinas de prática e pensamento orientadas para jovens. O seu projeto de tese, intitulado "A Desconstrução da (experiência da) Cidade e a Construção da Esfera Contra-Pública: Escrita Criativa Transgressiva, Estética e Política", é orientado por Cristina Pratas Cruzeiro e Joana Cunha Leal. Para além de publicações académicas, escreve sobre artistas emergentes e exposições de artes plásticas e performativas para revistas independentes, como a Umbigo e a Sem Título.
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